O dérbi Benfica-Sporting arde há 25 anos

O dérbi Benfica-Sporting arde há 25 anos
Filipe Alexandre Dias/Duarte Tornesi

Desde 1992 que adeptos dos rivais Benfica e Sporting deixam um rasto de sangue e ódio, com duas mortes pelo caminho

O grande dérbi lisboeta sangra e não é de agora. A morte do cidadão italiano Marco Ficini, ocorrida na madrugada de sábado - dia de Sporting-Benfica - nas imediações do Estádio da Luz, após uma escaramuça entre adeptos leoninos e encarnados, foi mais um episódio de brutalidade entre muitos outros nos últimos 25 anos, altura em que as claques dos rivais lisboetas passaram a protagonizar vários confrontos, rixas, detenções e outros casos de polícia dentro e fora dos estádios. Em duas ocasiões, registaram-se mortes de adeptos do emblema verde e branco. A violência tem saído a ganhar do dérbi.

A rivalidade sempre foi vizinha da paixão, mas os sentimentos mais acalorados intrínsecos ao choque entre os históricos da capital ganharam contornos de maior gravidade a partir da década de 1990 (ler reportagem completa na edição e-paper), altura em que Juventude Leonina (Juve Leo) e No Name Boys - nascidos de uma cisão nos Diabos Vermelhos - se assumiram como principais suportes de Sporting e Benfica, respetivamente. Desde então, a fronteira entre rivalidade e ódio tem-se dissipado, tamanha a seriedade dos episódios verificados. A escalada de violência agitou o edifício governamental, mas, apesar da legislação imposta já na primeira década deste milénio, há menos de 20 claques legalizadas. A Juve Leo faz parte desse lote, já os elementos dos No Name Boys e Diabos Vermelhos insistem em ser vistos "apenas como sócios", embora as suas práticas configurem o que é autorizado por lei aos grupos organizados oficiais. Por sua vez, o Benfica "não reconhece qualquer claque nem organização do género". "Nem consideramos que a legalização seja a solução para o que quer que seja, como se tem visto", alegam os encarnados.

Se as autoridades começaram a registar ocorrências com adeptos nos estádios no final da década de 1970, as chamas lançadas sobre o dérbi lisboeta subiram de intensidade em 1992, quando foi incendiada uma casa da Juve Leo, ato perpetrado por elementos dos No Name Boys. Desde então, entre brigas e altercações esparsas, foram diversas as cenas que mancharam a negro e a vermelho de sangue o duelo entre os centenários adversários, com duas mortes pelo caminho. A primeira em 1996 no Estádio Nacional (quando Rui Mendes, adepto do Sporting, foi atingido por um very-light disparado por Hugo Inácio, adepto encarnado que chegou mais tarde a fugir da prisão e a ser detido por mais desacatos... no Estádio da Luz) e a já referida morte de Marco Ficini (ler mais informação na página 10) - o caso é tratado como homicídio e o suspeito, alegado membro de uma claque do Benfica que estará identificado pela Polícia Judiciária, encontra-se a monte. Quem conhece o código das claques sabe: nas vésperas de grandes duelos em Lisboa, a norma é, sem combinação prévia, visitar a casa do rival pela calada da noite e provocar. Todas estas e mais disputas e desacatos abalaram as relações entre Sporting e Benfica. A tensão em dérbis de futebol e futsal no mesmo fim de semana em abril de 2015 conduziu ao corte de relações institucionais entre os rivais, que continuam a trocar acusações. Estas aumentaram de volume nas últimas semanas também fruto dos cânticos insultuosos que ecoam em recintos onde verdes e brancos e encarnados se defrontam.

O longo braço da lei não chega às claques

Para ter as claques sob controlo, a partir de 2004 passou a ser obrigatório o seu registo no Instituto Português do Desporto e Juventude. Porém, este procedimento sempre levantou reservas nas forças policiais - e até há dois anos existiam mais de 100 núcleos de adeptos à margem da lei. Entre estes continuam a figurar as claques do Benfica No Name e Diabos, sem sanções associadas ao clube, facto há muito alertado pelo Sporting, que tem os seus grupos de apoio (Juve Leo, Torcida Verde e Directivo XXI) legalizados desde 2008.

O Benfica mantém o posicionamento, não admitindo ligação direta a claques. Alega que todos os sócios são iguais e que não controla grupos de adeptos que se organizam para comprar bilhetes para sectores do estádio onde se juntam. Apesar disso, tem um Oficial de Ligação aos Adeptos (OLA), Nuno Gago, tal como o Sporting, que tem Bruno Jacinto.