Mais uma etapa no cerco aos grandes

Mais uma etapa no cerco aos grandes
Irineu Ribeiro | Bruno Filipe Monteiro | Pedro Miguel Azevedo

A maior parte dos clubes dos campeonatos profissionais votou favoravelmente à abolição do empréstimo de jogadores a equipas do mesmo escalão, mas nem todos perceberam que a medida seria imposta em 2012/13 e outros falharam votação

A decisão de abolir o empréstimo de jogadores a clubes do mesmo escalão, tomada quinta-feira em assembleia geral da Liga, está a levantar polémica. A proposta, apresentada pelo Nacional e aprovada pela maioria dos clubes presentes na reunião, tem como grande bandeira a verdade desportiva, que mais não é do que o fim de algumas imposições e manobras de bastidores resultantes deste tipo de negócio.

De acordo com os regulamentos da Liga, não é permitido ao clube que empresta condicionar a utilização de um jogador ao longo da prova. Isso, porém, nem sempre acontece, como revelou, a O JOGO, um dos dirigentes presentes na AG. "Às vezes existem acordos de cavalheiros para que o atleta não jogue contra a equipa a que pertence, e então surgem as lesões antes desses jogos. Além disso, na realização dos contratos alguns impõem condições: se o atleta alinhar em 80 por cento dos jogos, o clube que empresta paga a totalidade do vencimento; se jogar só metade, só paga metade; se não jogar, o que cube que o recebe é que fica com a despesa", confidenciou o dirigente, que preferiu o anonimato.

Esta tomada de posição, contudo, não foi consensual. FC Porto, Benfica, Rio Ave, Académica e Estoril votaram contra a proposta, enquanto Moreirense e Covilhã, por exemplo, nem sequer chegaram a participar no ato, pois a reunião já ia demasiado longa e questões profissionais obrigaram os respetivos presidentes a ausentar-se. Outros fizeram-no com a ideia de que a medida, que não tem de ser aprovada pela FPF por não implicar uma alteração no regulamento de competições, seria implantada somente no início de 2013/14, possibilitando que, em 2012/13, ainda pudessem receber atletas. Por isso mesmo, o assunto ainda promete fazer correr muita tinta nos próximos tempos.

Medida impede Djaniny no Beira-Mar

Ao serem abolidos os empréstimos de atletas a clubes da mesma divisão, foram várias as equipas que tiveram de repensar algumas opções. O Beira-Mar, por exemplo, tinha tudo bem encaminhado para ter Djaniny por empréstimo do Benfica, que receberia em troca Rafael Batatinha; o Olhanense ficou sem Fabiano, guarda-redes que seria cedido pelo FC Porto; e o Rio Ave perdeu cinco atletas, entre os quais Oblak (Benfica)

Carlos Pereira: Pode haver...artimanhas

Presidente do Marítimo pensou na verdade desportiva na hora de votar, mas está desconfiado.

Partindo do princípio de que "a verdade desportiva poderia sair beneficiada com o fim dos empréstimos de jogadores a clubes do mesmo escalão", Carlos Pereira votou a favor da proposta do rival Nacional. Mas tem reservas sobre a eficácia da mesma. "Não acredito que vá mudar, pois vão arranjar-se outros mecanismos para ludibriar ou ultrapassar essa dificuldade. A montanha vai parir um rato", referiu, a O JOGO, o presidente do Marítimo, que até apresentou algumas das opções que os clubes podem vir a utilizar para tornear a questão. "Vão rescindir-se contratos, fazer-se novos e vai colocar-se nas mãos dos clubes os direitos económicos, estabelecendo um preço mais baixo como opção de recompra", alertou o dirigente, que, na AG que antecedeu a de quinta-feira, tinha apresentado uma proposta que "limitava o número de contratos".

António Silva, Presidente do Rio Ave não compreende opção de alguns homólogos e fala em "enganos"

Incrédulo com a medida resultante da última assembleia geral da Liga, António Silva Campos revelou a O JOGO não "perceber o motivo pelo qual alguns clubes, como o Rio Ave, que vivem de empréstimos para ultrapassar as suas dificuldades financeiras, tomaram a decisão de os abolir". "Eu não fui à reunião, mas o nosso representante ligou-me antes de votar e decidimos votar contra, até porque já tínhamos jogadores acordados. Não consigo compreender como é que alguns dos meus colegas se 'enganaram'. Pela forma como a proposta me foi transmitida, não existiam dúvidas sobre o assunto", sublinha o líder do emblema de Vila do Conde, um dos mais afetados com esta norma e que agora se vê obrigado a realizar mais uma investida no mercado.

Regala votou a favor mas só queria a medida em 2013

Defensor de uma medida que "limite o número de empréstimos", António Regala, presidente do Beira-Mar e representante institucional do líder da SAD aveirense, Majid Pishyar, decidiu votar favoravelmente a proposta do Nacional. No entanto, fê-lo sob um pressuposto que se revelou errado. "Votámos a contar que a norma não entrasse em vigor no imediato. É que tínhamos jogadores pensados para a próxima época, sendo também possível que um ou dois viessem por empréstimo", admitiu.

Moreirense e Covilhã saíram mais cedo da AG

A proposta do Nacional de se acabar com a cedência de jogadores a clubes do mesmo escalão surgiu na derradeira AG de um dia longo e numa altura em que alguns dos presentes já tinham abandonado o Edifício da Alfândega, no Porto. Foi o que aconteceu com Covilhã e Moreirense. Vítor Magalhães, presidente do clube de Moreira de Cónegos, ficou estupefacto quando soube do sucedido. "Não existiu bom senso. Uma medida destas não pode ser tomada a 48 horas de começar uma nova época", criticou o dirigente, que coloca esta ideia no mesmo saco da do alargamento das Ligas sem descidas.