Recorde o que disse Rui Pinto antes de regressar a Portugal

Recorde o que disse Rui Pinto antes de regressar a Portugal

Pirata informático aterrou em solo português esta quinta-feira e deverá ser presente ao juiz de instrução criminal durante o dia de sexta-feira. Português chegou acompanhado por dois elementos da PJ e um da Interpol

O tribunal metropolitano de Budapeste decidiu extraditar Rui Pinto para Portugal, onde chegou esta quinta-feira no âmbito da investigação ao acesso aos sistemas informáticos do Sporting e do fundo de investimento Doyen Sports.

Rui Pinto terá acedido, em setembro de 2015, ao sistema informático da "Doyen Sports Investements Limited", com sede em Malta, que celebra contratos com clubes de futebol e Sociedades Anónimas Desportivas (SAD).

O alegado pirata informático é também suspeito de aceder ao email de elementos do conselho de administração e do departamento jurídico do Sporting e, consequentemente, ao sistema informático da SAD leonina.

Rui Pinto está indiciado de seis crimes: dois de acesso ilegítimo, dois de violação de segredo, um de ofensa a pessoa coletiva e outro de extorsão na forma tentada.

Em tribunal, o português falou sobre diversos temas, entre eles as suspeitas sobre o comportamento da Polícia Judiciária e revelações sobre o FC Porto, que Rui Pinto assumiu o terem "entristecido". Recorde o que foi dito em tribunal.

Vai colaborar com a justiça portuguesa?

"A minha prioridade é colaborar com a justiça francesa, que foi a que me mostrou mais garantias. Portugal nunca quis saber de mim. Portugal agora quer pôr a minha cabeça a prémio, quer mostrar-me como um troféu, quer tratar-me como um Bin Laden. Foi essa a perceção que tive da conferência de imprensa de Carlos Cabreiro".

Suspeitas sobre uma alegada relação de elementos da PJ com a Doyen:

"Se elementos ligados à Doyen tiverem reuniões clandestinas com inspetores da PJ que nem fazem parte do processo, isto é gravíssimo. Quando vemos inspetores da PJ a usarem emails pessoais para falarem com elementos da Doyen e tratarem-se quase como amigos, é gravíssimo. O Ministério Público investiga? Não quer saber disso. Provas? Tenho, estão em França. Entreguei provas disso às autoridades francesas. Têm documentos claríssimos que mostram que a investigação foi feita de maneira completamente irregular. Isto é escandaloso".

Quem vai pagar a sua defesa?

"Uma fundação americana que se dedica a ajudar whistleblowers, como é meu caso, vai pagar todas as verbas aos advogados".

Revelações sobre o FC Porto:

"O Football Leaks revelou pormenores bem interessantes do FC Porto, por exemplo a colaboração com a Doyen, também comportamentos que considero estranhos em relação à participação do filho de Pinto da Costa, Alexandre Pinto da Costa. Também outro fundo registado na Áustria, em Viena, chamado Danubio, existem algumas coisas que me fazem acreditar que possa talvez haver desvio de fundos no FC Porto, o que me entristece. Pinto da Costa para mim é um dos melhores presidentes que o futebol europeu já teve, mas também comete erros. E entristece-me algumas coisas que soube sobre o FC Porto. Parte delas já são públicas. Se mais vão ser reveladas? Há essa possibilidade. Ainda recentemente há um escândalo que atinge o Manchester City por causa do fair play financeiro. É claro que isto não visa nenhum clube em específico, isto é internacional. Acho de muito mau gosto algumas acusações em Portugal de que sou movido pelos interesses do FC Porto. Sou portista mas não tenho nenhuma agenda escondida".

Recurso:

"Agora vou passar umas noites numa prisão húngara. Interpomos recurso e é aguardar".

Resposta às declarações de António Cluny:

"Se Portugal quisesse alguma vez investigar crimes no futebol, pedia a colaboração do Football Leaks. Por isso é que eu acho uma extrema palhaçada as declarações do magistrado do Eurojust [Unidade de Cooperação Judiciária da União Europeia] António Cluny, de querer separar o caso Football Leaks, o que eles chamam em Portugal de extorsão, das revelações. Isto é ridículo. Não posso dizer se Cluny é independente ou não. Escreveu um artigo de opinião no Jornal i que mostra a sua opinião sobre whistleblowers. Uma pessoa que tem um filho que é advogado direta ou indiretamente de Cristiano Ronaldo, de José Mourinho, faz parte do escritório de advogados Morais Leitão, faz parte da equipa de advogados ligados ao Benfica no e-Toupeira... Acho que há aqui um claro conflito de interesses".

DECLARAÇÕES AOS JORNALISTAS NO TRIBUNAL DE BUDAPESTE

Rui Pinto no dia em que se deslocou ao Tribunal Metropolitano de Budapeste, onde pediu para não ser extraditado para Portugal, falou aos jornalistas no intervalo da audiência e foi questionado sobre o roubo dos emails do Benfica.

"Isso têm de perguntar ao Francisco J. Marques que recebeu os emails", atirou. "Sobre o roubo de emails não tenho nada a dizer. Esta tentativa de colagem do Football Leaks com o roubo dos emails é ridícula", defendeu. "O caso do Benfica é um exemplo em como a justiça em Portugal é inexistente no que toca ao futebol",.

"Vejo outros países motivados em lutar contra a corrupção no futebol, em Portugal não vai acontecer nada", afirmou, reiterando a ideia de que, apesar de ser adepto do FC Porto, as suas denúncias não visaram nenhum clube em especial. "É bastante claro que isto não visa nenhum clube em específico, é internacional e abrangente, acho de muito mau gosto as acusações que fizeram a dizer que fui movido pelo FC Porto", afirmou, acrescentando: "O Football Leaks publicou documentos com atividades irregulares do FC Porto".

Rui Pinto confessou que "estava a colaborar com as autoridades francesas e a iniciar outra colaboração com as autoridades suíças", quando "Portugal sabotou tudo" desde que houve "uma fuga de informação da maior sociedade de advogados" nacional (PLMJ).

"O que era apenas uma simples ordem de investigação a nível europeu transformou-se num mandado de detenção europeu contra mim. Foi chocante. Criaram toda esta confusão internacional. Têm medo que eu saiba demasiado e que partilhe o que eles acham que eu sei com jornalistas ou outros países. Portugal quer apenas silenciar-me e ocultar o que eu tenho no meu computador portátil. Têm medo", referiu Rui Pinto.

"Se tenho informação sobre determinado clube de futebol, por que não deveria partilhá-la com os media?", questionou, revelando ser "adepto do FC Porto", embora esta condição nunca o tenha "impedido de partilhar ou publicar informação relevante".

Sobre a possibilidade de extradição, Rui Pinto admite sentir medo de "entrar numa prisão portuguesa", especialmente em Lisboa:

"Sinto-me nervoso porque sou alvo de ataques, especialmente por adeptos do Benfica. Desde o outono que tenho recebido imensas ameaças de morte no Facebook. Quando me encontrei com investigadores franceses, mostrei-lhes. Eles disseram que as ameaças deviam ser levadas a sério. Tenho medo de entrar numa prisão portuguesa, especialmente em Lisboa, posso não sair com vida", rematou Rui Pinto.

ENTREVISTA AO DER SPIEGEL

Rui Pinto quebrou o silêncio pela primeira vez desde a detenção em Budapeste, assumindo a identidade de John, o denunciante por detrás do Football Leaks. A entrevista, conduzida pela revista alemã Der Spiegel, cobre vários temas, entre os quais o envolvimento com a Doyen, as acusações de chantagem e ainda o Benfica.

Como conseguiu obter mais de 70 milhões de documentos confidenciais sobre a indústria do futebol? "Iniciei um movimento espontâneo de revelações sobre a indústria do futebol. Não sou o único envolvido. Ao longo do tempo, mais e novas fontes de informação foram aparecendo e partilhando material comigo e a base de dados foi crescendo. Isto mostra que há muita gente preocupada com este assunto",

Acusações de chantagem por parte da Doyen: "A única razão pela qual contactei a Doyen foi para confirmar a ilegalidade das suas ações, com base na quantidade de dinheiro que estivessem dispostos a pagar para que os documentos não fossem divulgados. Queria perceber o quão valiosos e o quão importantes eram os documentos para a Doyen. Achei que conseguia descobrir isso se soubesse o quanto a Doyen estava disposta a pagar pelo meu silêncio. Nunca foi minha intenção aceitar o dinheiro. Só queria expor a Doyen. Quis perceber quanto lhe ofereciam. Enquanto ele negociava, eu continuei a ler os documentos. Enquanto o fazia, dizia para mim mesmo: se os deixo comprarem-me agora, não valho mais que todos estes esquemas. Por isso escrevi à Doyen e disse-lhes para ficarem com o dinheiro. Não me pagaram um único cêntimo. O que fiz foi muito ingénuo. Olhando para trás, arrependo-me. Mas repito, nego ter cometido qualquer crime".

Suspeitas de que forneceu ao FC Porto emails incriminatórios do Benfica: "Não li nenhuma declaração das autoridades sobre uma relação entre mim e o escândalo do Benfica. Uma revista publicou a história do Benfica no outono passado. Isso mudou a minha vida. A minha fotografia estava nas primeiras páginas dos jornais por todo o país. A minha conta de Facebook e o meu e-mail foram inundados com ameaças de morte".

Como e porque lançou o site Football Leaks? "Sou fanático por futebol desde criança e já tinha percebido, desde o Caso Bosman, que o futebol estava a caminhar na direção errada. Os melhores dos jogadores jovens estavam a ir para as melhores equipas; toda a competição estava a dar vantagem aos clubes de topo. O grande impulsionador para mim foi o escândalo da FIFA em 2015. Além de todas as detenções que foram feitas na FIFA, vi que havia irregularidades em muitas transferências dentro de Portugal. Que mais e mais investidores invadiam o mercado. Comecei a recolher dados".

Porque está a resistir à extradição para Portugal? "Tenho quase a certeza que não terei um julgamento justo em Portugal. O sistema judicial português não é inteiramente independente; existem muitos interesses escondidos. Claro que há procuradores e juízes que levam o seu trabalho a sério. Mas a máfia do futebol está em todo o lado. Querem passar a mensagem que ninguém se deve meter com eles".