Premium "Este é um futebol de carolice. As pessoas não ganham dinheiro, jogam por prazer"

"Este é um futebol de carolice. As pessoas não ganham dinheiro, jogam por prazer"
Cláudia Oliveira

O futebol popular do concelho de Espinho celebra 35 anos, numa época de mudança de paradigma

Ao chegar a Paramos percebe-se que este é um local onde o futebol é rei. A rotunda da entrada recebeu-nos com uma bola enorme. É um bom pronúncio para uma tarde de Taça do distrito. "O jogo da Taça é para a gente se divertir. Até porque o S. João de Ver é um tubarão", avisa Joaquim Coelho, treinador do Águias de Paramos há 15 dias. No complexo desportivo de Paramos, no domingo, mais que a adrenalina habitual no futebol havia a emoção de um momento histórico. No dia, oficial, em que a Associação de Futebol Popular do Concelho de Espinho (AFPCE) celebrou 35 anos, a segunda eliminatória da Taça de Aveiro opunha um emblema do futebol popular a uma equipa dos distritais de Aveiro. E esta é a primeira época em que tal acontece.

Nas bancadas, aos poucos, mais de 300 pessoas juntaram-se para assistir ao jogo de futebol. E dizem, é sempre assim no futebol popular. Aqui cabem todos: craques, jovens, menos jovens, altos baixos, com barriguinha... O que é o futebol popular?

"É a paixão de ser amador, de ser gratuito. É transportar a identidade de um bairro, de uma rua", explicou Tiago Paiva, presidente da associação espinhense. "Não temos outros objetivos a não ser o jogar e conviver com o grupo de amigos", completou Bernardino Gomes, presidente do Águias de Paramos, embora vá dizendo que a rivalidade "nem sempre é fácil" de gerir.

"A rivalidade é muito grande. Toda a gente se conhece e isso sente-se na bancada", reconhece Joaquim Coelho, treinador do Águias há duas semanas e natural de Grijó. Ainda a familiarizar-se com o futebol popular já tem de participar na nova realidade destes clubes de Espinho participarem na Taça de Aveiro. E, pela frente está, diz, um "tubarão": o S. João de Ver.

Em campo, comprova-se o favoritismo da equipa da I divisão distrital de Aveiro. A tentativa de aguentar o nulo até o intervalo não resultou e, para desolação dos apoiantes, o Águias foram para intervalo a perder por 1-0.
"Ainda vamos ganhar na segunda parte. De livre, à entrada da área, o meu filho vai marcar dois golos", assegurou Luís Varandas, de 66 anos, ex-jogador do Águias, e defensor do "futebol de carolice. As pessoas não ganham dinheiro, jogam por prazer". O entusiasmo que agora tem na bancada é bem mais recatado que o comportamento que tinha em campo. Ele próprio assume: "era caceteiro! Deixei de jogar aos 30 anos por causa disso. Uma vez, contra a equipa da Cordex, sofri uma entrada por trás e caí. Levantei-me e disse ao adversário que não perdia pela demora. A seguir, ele vinha com a bola e não olhei para mais nada que não as pernas. Teve de vir a ambulância para o levar para o hospital de Gaia".

O filho, também Luís, com o número cinco nas costas, reconheceu que, "no fervor do jogo", pode haver algum sururu, mas depois... "no fim do jogo está sempre tudo bem". E os livres, Luís? Vamos ter golos ou não? "É complicado. São forças diferentes. Estar a perder apenas por 1-0 ao intervalo é quase uma vitória. Vamos ver", atirou. No regresso ao relvado, outro colega de equipa, João Ferreira atira o repto ao árbitro: "senhor árbitro, um penaltizinho para nós".
Começa a segunda parte, com o S. João de Ver a encostar o Águias. Uma falta próxima da esquina da área, a descair para a direita e grita-se: "é a tua vez, Luís". Lá vai o Luís tentar comprovar a profecia do pai. Livre batido, desvio de cabeça de Chico e... Golo! A bancada, onde também está a mulher e o filho de Luís, levanta-se em festa. Mas dura pouco. Bola ao centro, cruzamento para a área e o adversário volta a ficar na frente do marcador.

"Viu? Se houver mais um livre o Luís vai lá fazer golo", disse-nos o Zeferino, que vê o jogo colado à rede, de um lado ao outro do campo. "Vibro muito, é a raça vareira. O futebol popular tem muita raça! Anda Miguel, anda que vai aparecer. Eles não são melhores que nós", grita para um jogador. "Gatuno! Há coisas que... fogo! Apitas tudo! Ah, meu Deus!", protestou com o árbitro.

Vem o 3-1 e a certeza que não seguem em frente na Taça. Depois o 4-1, de grande penalidade. E agora, Zeferino? "Deixe lá, fico mais triste de perder no domingo de manhã, com o Quinta de Paramos", confessou. Ah, a rivalidade de bairro...

PORMENORES

- Paramos, Silvalde, Anta-Guetim e Espinho são as quatro freguesias de um concelho com 21 km quadrados. Com os investimentos dos últimos anos, 95% das equipas do futebol popular usam campos sintéticos, numa ginástica difícil, mas possível. No complexo de Paramos, por exemplo, treinam sete equipas seniores e escalões de formação.

- Todas as semanas são cerca de três mil pessoas as que estão envolvidas nos jogos da I e II Liga do futebol popular em Espinho, entre jogadores, dirigentes e adeptos

Rivalidade, mas com partilha

Os jogos da liga de futebol popular acontecem ao sábado à tarde ou domingo de manhã, impreterivelmente. Este é o tempo para o futebol, o resto é para a família e os afazeres de cada um.
"É interessante. Nunca tinha assistido a um jogo com uma equipa de futebol popular. Nem sabia que existia. Tem muita gente, é diferente dos outros jogos", disse-nos Ermelinda Barbosa, adepta do S. João de Ver sentada ladeada por fervorosos adeptos do Águias. Não tem nada a temer. A emoção do jogo sai disparada pela boca dos adeptos, mas é coisa de momento. O que todos querem é divertir-se. Que o diga o "campeão das pombas", Américo Silva, que encontramos a distribuir vinho para aquecer o corpo dos amantes de bola, numa tarde fria. Trouxe de casa uma "box" de vinho, copos de plástico e conheceu pessoas novas, todos do S. João de Ver. "Se não trouxesse vinho, ninguém me conhecia", atirou. Os adeptos visitantes confirmam. Neste jogo, a par da vitória fizeram um amigo à volta de um copo de vinho.

Fernando Gomes vai à festa

Formalmente fundada a 2 de dezembro de 1983, e sendo que as atenções mediáticas olham mais para a I Liga nacional do que para outras competições, completar 35 anos não é proeza pequena. Ainda mais se tivermos em conta que a AFPCE engloba 25 clubes, da sua I e II divisão (já chegou a ter três divisões!), movimenta cerca de 3 mil pessoas por semana.

"Passamos tempos difíceis. Estamos a implementar uma transformação lenta. O futebol popular tem muito a ver com a pertença local, com o entusiasmo de querer ganhar e de querer vencer o vizinho", assumiu Tiago Paiva, líder da direção da associação espinhense.

2018 é um ano de viragem na AFPCE. Desde esta época, os clubes da associação foram integrados na AF Aveiro e inscritos na Federação Portuguesa de Futebol. Assim, os vencedores da I divisão e da Taça de Espinho podem disputar a Taça de Aveiro, como se viu no Águias de Paramos-S. João de Ver. Mas há mais vantagens nesta integração. "Somos uns privilegiados por ter uma associação como a AF Aveiro. Não digo isto para bajular. Digo porque nos estão a ajudar. São um apoio constante nas formações, dão-nos visibilidade da AFA Tv e na AFA Magazine. Levaram para um âmbito distrital a visibilidade do futebol que era só concelhio", resumiu Tiago Paiva.
Esta sexta-feira à noite, no Multimeios de Espinho, cantam-se os parabéns à AFPCE, louvam-se os fundadores e a persistência dos clubes que continuam a dignificar o futebol amador... popular. Uma festa que conta com a presença de Fernando Gomes, presidente da FPF.

Passados 35 anos, Orlando Martins, Américo Freitas, Jorge Sá, Rui Granja e José Carvalho (os cinco sócios fundadores que vão ser homenageados na gala de aniversário desta sexta-feira) têm motivos para ficar orgulhosos do rumo e crescimento da associação.