Tradição em Espinho: o dobro do tempo e 13 paragens pelo meio na linha do Vouguinha

Tradição em Espinho: o dobro do tempo e 13 paragens pelo meio na linha do Vouguinha

O "Vouguinha" é um comboio centenário que tem mais recordações do que passageiros, mas para alguns dos adeptos é como uma tradição para certas deslocações.

Na linha centenária do Vouga há mais memórias guardadas no que resta das paredes do edifício original da estação Espinho-Vouga do que passageiros na locomotiva ainda movida a diesel e carinhosamente apelidada de "Vouguinha". A tradição dos adeptos do Espinho - e essencialmente da claque Desnorteados - de utilizarem o histórico comboio para certas deslocações não é tão antiga quanto a data da inauguração do mesmo, feita em 1908 pelo rei D. Manuel II, mas este é um hábito que se prolonga no tempo.

Domingo há nova viagem, desta feita a São João da Madeira, percurso que demoraria cerca de 25 minutos de carro, mas que no "Vouguinha" faz-se em 50 com 13 paragens pelo meio. "Na década de 80, o Espinho estava a arrelvar o campo e fomos jogar para a casa da Sanjoanense. Cheguei a ir várias vezes com o meu pai, de Vouguinha, para São João da Madeira", conta Nuno Sousa, um dos quatro adeptos que desfiaram memórias destas aventuras e que no domingo serão uma franja dos cerca de 70 que vão de comboio para São João da Madeira. "Em 1990/91, subimos à I Liga em Santa Maria da Feira. Fomos de Vouguinha; para lá, alguns até iam a pé, ao lado do comboio. No regresso, nem sei como é que a composição aguentou", recorda Nuno.

Como o Vouguinha só passa de hora em hora, os adeptos do Espinho têm de sair às 13h30 de domingo, para um jogo que é às 15h00, devem chegar ao destino às 14h15 e no regresso só têm comboio às 18h40. "É indiferente se a viagem demora duas ou três horas. Não importa a hora, não importa se com chuva ou sol, e por vezes o resultado nem é o mais importante. Vamos pela festa e, se fosse preciso, até íamos a pé", afirma Marco Pires. "Há três anos, fomos a Cinfães e o autocarro avariou quando ainda faltava meia hora de viagem. Conclusão: veio o autocarro da equipa dar-nos boleia", lembra Marco Gonçalves. Antigamente, estes quatro amigos também utilizavam os caminhos de ferro para irem a Santa Maria da Feira ou a Oliveira de Azeméis, mas com Feirense e Oliveirense na II Liga resta, agora, a Sanjoanense na lista de adversários da Linha do Vouga.

Mas as reminiscências de viagens de comboio não se cingem ao Vouguinha. Nessa bem-sucedida época de 1991/92, houve outras histórias para contar. "Fretámos um comboio para irmos ao Belenenses. Tomámos o pequeno almoço às 4h00 com sandes de carne assada e garrafões de vinho. Tivemos adeptos que venderam as motas para poderem ir a Lisboa e de Santa Apolónia para o Restelo, as bandeiras foram do lado de fora do comboio, pois não cabiam", narra Nuno Sousa. "Quando conheci a minha namorada, atual esposa, disse-lhe que o domingo era para o Espinho", revela. Em poucas palavras, para Nuno Sousa são, apenas, "histórias de amor" ao clube.

Falta de estádio é uma "mágoa"

A estação de Espinho-Vouga situa-se a paredes-meias com o Estádio Comendador Manuel Oliveira Violas ou, melhor dizendo, com o que resta dele e que se resume a muros e escombros, já que o Espinho joga, agora, em Fiães, enquanto não lhe é construída uma nova casa. "O estádio era um símbolo da cidade, que ia em peso ao futebol. Não o ter é uma mágoa muito grande", lamenta Alberto Praça. "Cortaram o cordão umbilical ao Espinho. Foi lá que conheci esta malta toda e que eu próprio cresci", remata Marco Gonçalves.