Do Benfica ao Pedras Salgadas: "Eu era melhor do que o Renato Sanches"

Do Benfica ao Pedras Salgadas: "Eu era melhor do que o Renato Sanches"

Uma história do outro futebol: o dos sonhos perdidos. Edson Pires jogava no Benfica e achava que tinha o mundo aos pés, agora atua no Pedras Salgadas e não está a ser fácil a tarefa de tirar os pais da pobreza.

Nasceu na Guiné e em miúdo não ingressou no FC Porto porque lhe faltavam alguns documentos; aos 11 anos, passou pela academia do Sporting e a falta de papéis voltou a atrapalhar-lhe a vida. A seguir tentou a sorte no Benfica e jogou, chegou a telefonar ao pai, desempregado de longa data, para lhe dar a grande notícia: ia assinar um contrato com o Benfica e ajudar a família. Também não correu bem, tal como saíram frustradas as experiências no Manchester City e no Tenerife. Hoje é mais um jovem que ainda procura o sonho nos campeonatos secundários, a ganhar 500 euros por mês, pagando 250 de renda de casa.

Jogou com alguém conhecido no Benfica?

-Sim, joguei com o Gonçalo Guedes, Romário Baldé, Renato Sanches, Rúben Dias e Yuri Ribeiro. Cheguei a ser o terceiro capitão de equipa.

Jogou muito tempo com o Renato Sanches?

-Só um ano, creio que em juvenis A, quando tinha uns 16 anos. Foi no meu último ano lá. Com o Guedes e o Romário é que acompanhei todo o trajeto. Esses é que eram mesmo da minha geração.

Jogava em que posição?

-Eu era o típico "10". A nossa equipa jogava em 4x3x3 e eu era médio-interior, sobre a esquerda. O Guedes jogava a extremo, também na esquerda. Entendíamo-nos bem um com o outro. Eu era bom jogador, modéstia à parte. E tanto era que fui o primeiro dessa equipa a ser falado para assinar contrato profissional.

E não assinou?

-Não cheguei a assinar. Primeiro disseram que ia assinar e até chegaram a falar com a pessoa que estava a tratar dos assuntos relacionados com a minha carreira. Disseram que ia assinar contrato de cinco anos. Três de formação e mais dois. Mas depois acabei por não assinar.

Porquê?

-Houve umas confusões, creio que por causa de dinheiro. Mas nem percebi bem o que aconteceu. Até liguei para o meu pai, que já estava desempregado há uns sete anos, para lhe dar a notícia e ele ficou todo contente. Mas depois houve umas confusões e eu comecei a deixar de jogar e tudo. Estava todo contente, queria ajudar a minha família, mas acabei por não assinar.

Marcava golos, certo?

-Sim, alguns. Agora, marco menos porque jogo um pouco mais atrás, em 4x4x2.

Como vê a quebra do Renato Sanches?

-É normal. Ele é muito novo e tem tempo para aprender.

Ele era melhor do que o Edson...

-Eu era o melhor jogador da minha equipa.

Está a dizer que é melhor jogador do que o Sanches?

-Não vou dizer que sou melhor do que ele.

Mas na altura era, é isso?

-Na minha opinião, sim. Nessa altura eu era melhor do que ele.

E agora?

-É uma questão de oportunidades que eu não tive. E até a podia ter tido primeiro do que o Renato. Até chegou a sair nos jornais a notícia de que eu ia assinar contrato profissional.

E porque não aconteceu?

-Não sei. Mas no Benfica, quando entrei para Iniciados B, era eu o melhor jogador. Iniciados A? Também fui o melhor. Juvenis B? Fui. Juvenis A, igual. E foi aí que me queriam dar o contrato, mas depois acabou por não acontecer.

O Edson tem o mesmo estilo de jogo do Renato?

-Não, somos muito diferentes. Ele é raçudo, enquanto eu não, sou um jogador mais de técnica, de fazer a diferença. Qualidade de passe. Técnica. Visão de jogo também. Ainda tenho esperanças. O futebol às vezes também é sorte.