"Quando jogava dizia que podíamos perder todos os jogos, menos com a Sanjoanense"

"Quando jogava dizia que podíamos perder todos os jogos, menos com a Sanjoanense"
João Maia

LIGA 3 >> Sanjoanense e Oliveirense defrontam-se sábado, num jogo quase centenário. Ex-atletas falam de partida "especial"

São quase 100 anos de história que fazem deste jogo um dos mais escaldantes do distrito de Aveiro. Sábado há dérbi na Série 1 (zona norte) da Liga 3, entre Sanjoanense e Oliveirense, confronto que precede a própria fundação dos alvinegros. Os primeiros registos remontam a 1923 quando, um ano antes de a Sanjoanense ser fundada, o Operário Foot-ball Clube Sanjoanense foi a Oliveira de Azeméis vencer a Taça La Salete por 5-0, perante uma União que nascera em 1922. Um século depois, os vizinhos estão separados por um ponto na luta pelos lugares de acesso à fase de subida à Liga SABSEG, com vantagem para os oliveirenses, que têm uma partida em atraso.

Manuel José e Nuno Ramadinha - este ausente da fotografia por estar em isolamento - foram formados na capital do calçado, no entanto, também jogaram no vizinho. Manuel Godinho fez a viagem contrária e, depois de muitas épocas no Carlos Osório, acabou a carreira a vestir de preto e branco. "Quando eu jogava, dizia que podíamos perder os jogos todos, menos frente à Sanjoanense. Não há outro dérbi em Aveiro que tenha tanto peso como este. Tem também a ver com a rivalidade noutras modalidades, como o hóquei em patins. Ainda na semana passada, vi o termo dérbi ser utilizado no Lourosa-Sanjoanense. Dérbi? O verdadeiro dérbi é este!", sublinha Godinho.

"São ambientes fantásticos e antigamente eram encontros de estádio cheio. Quando estava na Oliveirense, custou-me vir jogar a São João da Madeira. Senti-me nervoso nesse dia", conta o antigo guarda-redes Manuel José. "Em Oliveira de Azeméis o campo enchia sempre, porque é mais pequeno. Podíamos descer de divisão, mas, se ganhássemos à Oliveirense, isso já marcava a temporada", acrescenta Ramadinha. O então extremo recorda uma história em particular que o marcou. "No meu primeiro ano de sénior, o António Sousa era treinador da Sanjoanense. Foi ele que apostou em mim, mas fiquei de fora contra a Oliveirense. Se havia jogo para estar, era esse... na altura, não entendi isso, contudo, foi uma aprendizagem para perceber que devia manter sempre a mesma postura e educação", revela.

Voltando ao estádio Conde Dias Garcia, a conversa entre Godinho e Manuel José é interrompida por Maria de Lurdes, técnica de equipamentos dos da casa. "Tenho um presente para si", diz-lhe Godinho, acenando com uma saca com uma camisola do rival lá dentro. "Não me digas que é uma camisola da Oliveirense. Tu porta-te bem! Sábado, vamos ganhar", provoca Maria de Lurdes. De facto, na cabeça de Godinho não há dúvidas: vai ver o embate e apoiar... a União. "Quando vim para a Sanjoanense, pode ter havido uma ou outra provocação, mas sabem qual é o meu clube do coração. Fui capitão da Sanjoanense com prazer, fui bem tratado e gostei de estar cá. Agora, as pessoas que me desculpem, porque sou nascido e criado em Oliveira de Azeméis e no sábado vou apoiar a Oliveirense", afiança. Ideia diferente tem Manuel José. "Gosto da Oliveirense, naquela casa consegui subir à II Liga, mas quero que a Sanjoanense vença", retorquiu.

Apesar de tudo, ambos concordam que antigamente o ambiente à volta destes jogos era bem mais escaldante. "Os maiores dérbis terão sido antes do nosso tempo enquanto jogadores", considera Manuel José. "Havia mais bairrismo", completa Manuel Godinho. Todavia, nada que belisque uma partida que, como emqualquer altura, promete ser animada.

"Jogo de tripla", mas com ligeiro "ascendente" para a Sanjoanense

A Oliveirense, assolada por um surto de covid-19, não joga desde 19 de dezembro e vem de duas derrotas consecutivas, enquanto a Sanjoanense soma dois triunfos seguidos e ganhou todos os encontros disputados em casa na era Tiago Moutinho, que sucedeu a Pedro Duarte. Por isso, Manuel José diz que o "fator casa" pode "pender" para os alvinegros, enquanto Nuno Ramadinha também dá "algum favoritismo" aos da casa. "É um encontro de tripla, mas a Sanjoanense está num dos melhores momentos da época. São duas das melhores equipas da série", enfatiza. Godinho joga mais à defesa. "Prevejo um dérbi equilibrado. Na primeira volta, a Oliveirense foi superior [ganhou 2-0], mas a Sanjoanense melhorou muito com a entrada do novo treinador. Que haja muitos golos", rematou.