Rui Borges: "Voltarmos a ganhar será ainda mais difícil do que nas últimas duas épocas"

Rui Borges
EPA
Um ano depois de assumir o comando técnico do Sporting (foi apresentado a 26 de dezembro de 2024), Rui Borges deu uma entrevista à Sporting TV, divulgada esta quinta-feira
Um ano de Sporting numa palavra: "Felicidade, como é lógico. Foi um ano de alegria, trabalho e, acima de tudo, muita felicidade. Primeiro, porque faço o que mais amo num grande clube e, depois, por tudo o que foi a época e o ano em si. Só me preza dizer felicidade."
Esperava chegar a este patamar tão cedo? "Nós, equipa técnica, acreditávamos muito, desde o primeiro dia, que um dia íamos conseguir concretizar o sonho de chegar a um grande clube e lutar por títulos. Talvez não acreditássemos que acontecesse tão rápido e tem sido tudo muito rápido nos últimos anos. Os passos em frente têm sido muito repentinos, mas são fruto do trabalho e da competência. Deixa-nos felizes e cada vez mais cientes de que o nosso trabalho é bem feito para lutar por mais sonhos e objetivos. O tempo passa rápido e quanto maior é a exigência do desafio faz com que o pouco tempo que passa pareça muito, porque a intensidade com que se vive o dia-a-dia é enorme."
Como foi o Natal de 2025, em comparação com o de 2024? "Foi um Natal diferente, na época passada. Especial, feliz e vivido de forma muito diferente, porque não consegui saborear a única data de que gosto mesmo. É quando estou com toda a minha família. Nem eu, nem eles, conseguimos desfrutar da melhor maneira, apesar de estarem muito felizes por tudo o que estava a acontecer, mas foi um Natal diferente. Este ano já foi normal, mas também muito introspectivo, sentimental e de nostalgia por relembrar o ano que passou, ser treinador do Sporting e campeão nacional... O sentimento veio à flor da pele, não posso mentir."
A frase "quando faltar inspiração que não falte atitude" continua a ser o desígnio mais importante do balneário? "Será sempre, não só do balneário como também da equipa técnica. Sou de uma região de muito trabalho, de acreditar muito nele e, por isso, a atitude tem de lá estar sempre, jamais pode faltar. Tem muito que ver com as minhas origens e com a minha personalidade e carácter. Acredito que quando se olha para o grupo sente-se isso: a atitude está lá. A equipa tem noção de que, tendo ganho bastante, cada vez vai ser mais difícil e, por isso, temos de dar sempre um upgrade na nossa qualidade e na nossa atitude. Temos de continuar à procura de ser cada vez melhores."
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Começo no Sporting numa fase difícil e o sucesso alcançado: "Tem muito que ver com a minha mentalidade positiva. Lembro-me muito bem de estar com o presidente antes de assinar e eu dizia que [o dérbi] era o melhor jogo para eu entrar. De fora, podiam dizer que ia entrar um treinador novo, com dois dias para preparar um jogo grande, diziam que o Sporting não estava bem psicologicamente, mas a minha única vontade era estar aqui para ser mais um a ajudar o grupo. Foi nisso que nos focamos: em ajudar com a nossa personalidade e a nossa forma positiva de ser e de estar no dia-a-dia, e em pouco tempo transmitir [aos jogadores] que eram os melhores, porque eram os campeões e, independentemente do adversário, que conseguiriam unir-se e fazer um grande jogo. A minha perspetiva era desfrutar do jogo, por estar no Sporting e por concretizar um sonho, independentemente do adversário. Era um jogo grande, claro, tem um peso maior, mas para mim era só desfrutar do alcançar de um objectivo."
Adaptação tática: "A época passada foi muito particular. Eu acreditava que o segundo treinador [da época], neste caso o João [Pereira], ia ter mais problemas se quisesse mudar as dinâmicas de há algum tempo. Nós, a seguir, acreditávamos que os jogadores iam estar mais recetivos, porque como estavam num momento menos positivo queriam mudar, e foram bastante recetivos. Nos primeiros jogos estivemos mais dentro da ideia da nossa equipa técnica, mas depois, com o desenrolar da época, as lesões e os contratempos que fomos tendo, entre todos - e alguns jogadores falaram disso no fim da época - houve muito falar, comunicar e entender. Sou muito disso, gosto de entender toda a gente, porque só assim conseguimos ter sucesso. Toda a gente é importante. Face a tudo o que aconteceu, a melhor forma foi tentar ir um pouco ao conforto, visto que já tínhamos alguma confiança dos jogadores, e estavam a ganhá-la com os resultados e, aqui ou ali, com mais qualidade nos jogos. Tentámos voltar um pouco ao que faziam, devido também às ausências, e mantê-los confiantes. Houve um bocado desses dois mundos, mas desde o primeiro dia que a recetividade do grupo foi fantástica e isso notou-se no fim da época."
O Sporting, hoje em dia, interpreta na perfeição a sua forma de ver o futebol? "Sim, claramente que sim. É uma equipa que está à nossa imagem. Também é uma equipa que nos ajudou, enquanto treinadores, a procurar e entender como poderíamos ser melhores a treinar uma equipa grande, porque é diferente. Agora, os princípios da ideia estão nesta equipa, claramente. Fico feliz por ver a equipa cada vez mais dentro do que queremos e desejamos, mas temos sempre essa parte comunicativa. O futebol é isso cada vez mais, porque nós não somos ninguém sem os jogadores. Vamos buscar algumas particularidades individuais, colectivas, onde se sintam mais confortáveis e isso dá uma mobilidade e variabilidade à equipa que a torna melhor, mais capaz e isso tem sido demonstrado nos jogos que temos feito."
Saída de Gyokeres e entradas de Luis Suárez e Ioannidis: "O Viktor é um monstro na sua posição e foi alguém que marcou uma época no Sporting e no campeonato português, claramente. Pelas suas particularidades individuais, decidia um jogo a qualquer momento. O Luis e o Ioannidis também o conseguem, mas o Viktor é muito específico e, a nível individual, tinha muita força na equipa e no campeonato. Agora, as características do Fotis e do Suárez, talvez estejam mais dentro daquilo que perspetivávamos para esta nova época, em termos de dinâmicas de equipa, mas com o Viktor também poderíamos ter isso. Era um jogador com um caráter muito bom, olhava para o grupo e treinava muito bem, tal como o Fotis e o Luis. Esta época, mais do que dar preponderância a um jogador apenas, dá-se preponderância a mais jogadores: o Pote e o Trincão estão a fazer uma grande época, o Maxi também, bem como o Suárez e o Hjulmand, enquanto o Fotis está a aparecer. Acho que se têm valorizado mais individualidades pelo coletivo e isso deixa-me feliz."
Sporting marca muitos golos. Como se consegue isso? "Com a fome que eles mostram todos os dias em querer ser melhores. Eles sabem que para voltarmos a ganhar será ainda mais difícil do que nas últimas duas épocas. Estamos sempre à procura de ser melhores, isso é notório no dia-a-dia, mas nos jogos também. É uma equipa que não se cansa de ganhar, que respeita os adversários e só por isso é que conseguimos ser o melhor ataque [da Liga]. Claro que não vamos estar sempre bem e ter a mesma regularidade durante 90 minutos, mas numa grande parte, sim. A seriedade está lá e a noção da dificuldade, sobretudo, está lá também e há uma ambição enorme de continuar a ganhar. Acho que para isso passa muito a nossa comunicação e liderança, mas sou um treinador feliz porque tenho um grande grupo de trabalho."

