
Di Stéfano e Eusébio
Figura das águias, o Pantera Negra vestiu a camisola dos merengues em 1972, num jogo contra o Belenenses, cuja baliza era defendida por Félix Mourinho
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O Benfica visita hoje pela segunda vez o Bernabéu, estádio onde Eusébio, a principal glória do clube, já brilhou de... branco. Foi a 14 de dezembro de 1972, num jogo de homenagem a Gento e de celebração dos 25 anos do recinto merengue, então ainda Chamartín, que o Pantera Negra foi convidado do Real Madrid para jogar pela sua equipa. Do outro lado estava... o Belenenses, que 25 anos antes já havia inaugurado o estádio do clube espanhol. Na baliza dos azuis do Restelo destacava-se Félix Mourinho, pai do agora treinador encarnado.
A história entre estes dois jogadores já estava ligada, pois a estreia oficial de Eusébio pelo Benfica, com 19 anos, fora a 1 de junho de 1961 (um dia após a primeira conquista da Taça dos Campeões Europeus). Com uma equipa muito desfalcada, precisamente pela disputa da competição, as águias perderam por 4-1 com o V. Setúbal na Taça de Portugal. O King, como ficou conhecido, fez o golo encarnado, mas... Félix Mourinho ainda lhe defendeu um penálti.
Doze anos após ter chegado ao Benfica, já figura mundial, fruto de uma Bola de Ouro e uma Bota de Ouro e com 15 troféus conquistados, Eusébio foi um dos craques convidados pelo Real Madrid para homenagear um nome histórico do seu clube: Francisco Gento, que venceu seis Taças dos Campeões Europeus pelos merengues - só igualado nas conquistas em 2024 por Nacho, Carvajal, Kroos e Modric. Além do Pantera Negra, também Drobin (referência do Arges Pitesti, da Roménia), Dzajic (ponta-esquerdo que brilhou pelo Estrela Vermelha, da então Jugoslávia) e Bene (avançado que se destacou pelo Újpest, da Hungria) estiveram presentes nessa partida.
Herói na história europeia com episódio especial
Ainda criança, Eusébio sempre idolatrou e sonhou ser como Alfredo Di Stéfano, outro nome grande do Real Madrid, com o qual, num momento de glória, como campeão europeu, viria a concretizar um sonho. Após a vitória por 5-2 sobre os merengues na final da Taça dos Campeões Europeus de 1962, na qual foi decisivo com um "hat-trick" a consumar a reviravolta benfiquista, dirigiu-se ao astro hispano-argentino para pedir-lhe a camisola 10. Durante o jogo, e com o mesmo empatado a três bolas, assumiu a responsabilidade de cobrar o penálti cometido por Santamaría, defesa uruguaio, num episódio marcante: o adversário aproximou-se dele e chamou-lhe "maricón". Sem perceber o que significava o insulto, recebeu indicação de Coluna: que fizesse golo e chamasse "cabrón" ao defesa.
A admiração por Di Stéfano levou-o a confessar também a simpatia pelo Real Madrid. "Eu, em Espanha, sou Real Madrid, toda a gente sabe. Acima de tudo sou Benfica, mas adoro o Real Madrid. Fico contente se a taça ficar em Lisboa, mas se o Real Madrid ganhar também fico contente porque ficará lá na prateleira a "Copa Eusébio". É bonito. Fico vaidoso de lá estar", afirmou em julho de 2012, quando os blancos, comandados por José Mourinho, visitaram a Luz para a Eusébio Cup - que ficou em Lisboa, fruto do triunfo por 5-2 da equipa liderada por Jorge Jesus. "Quero agradecer do coração a vinda do Real Madrid a Lisboa, que eu conheço através de um senhor, D. Alfredo Di Stefano. Ainda em África, com dez ou 12 anos, sempre o segui. Não havia relato, mas apanhava um jornal com um mês que as pessoas deitavam fora", disse então Eusébio sobre o seu ídolo, ao lado de quem, em 2009, esteve no Bernabéu para apresentar Cristiano Ronaldo como reforço dos merengues.
Na hora do adeus, o Real Madrid não se esqueceu de Eusébio, falecido a 5 de janeiro de 2014, prestando-lhe homenagem com um minuto de silêncio e usando fumos negros na partida com o Celta de Vigo, a 6 de janeiro.

