
Prestianni alega que não insultou Vinícius de forma racista
AFP
O JOGO ouviu Nuno Silva, dirigente do SOS Racismo
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A confusão entre Prestianni e Vinícius correu o mundo, sendo o racismo gatilho inevitável de invariável tomada de posições. O atacante do Real Madrid, que saiu de campo indignado com alegada agressão verbal, visou a cobardia racista do adversário do Benfica, Mbappé tomou pulso firme no testemunho, antigos jogadores como Thierry Henry ou Rio Ferdinand também o fizeram, Luisão, histórico do Benfica, envolveu-se por igual no repúdio a um comportamento de envolvência racista que atingiu o brasileiro na Luz, após assinatura de um golo monumental. Com a camisola puxada para tapar a boca, Prestianni defende-se, porém, dos insultos que alegadamente terá feito repetidas vezes de "mono" - macaco - a Vini Jr, tendo recebido apoio numa publicação do Benfica. O brasileiro carrega hostilidades de muitos estádios, que já desembocaram em ofensas racistas bem audíveis, a saga de Valência é a mais conhecida, provando mais uma vez que batalha pelo tema, sempre que se sente atingido. Ainda dentro das 24 horas de rescaldo, tomando em conta vários testemunhos e reações, ouvimos Nuno Silva, dirigente do SOS Racismo.
Com esta proximidade e o mediatismo internacional adquirido, consegue-se extrair racismo factual nesta denúncia, quando um jogador tapa a boca para proferir algum tipo de insulto? E, neste contexto, como a sociedade se deve posicionar, pondo em atenção manobras de desculpabilização e também o foco numa atitude provocatória do jogador, na celebração do golo? Há quem inverta responsabilidades...
Qualquer episódio de racismo é profundamente lamentável e deve merecer o nosso firme repúdio e inequívoca condenação. O racismo constitui uma violação grave da dignidade humana e não admite qualquer forma de relativização, contextualização ou desculpabilização. O facto de este episódio ter ocorrido no Estádio da Luz, num jogo entre o Sport Lisboa e Benfica e o Real Madrid e numa eliminatória da Liga dos Campeões, com ampla visibilidade mediática nacional e internacional, confere-lhe uma relevância acrescida e reforça a responsabilidade de apurar os factos com rigor e transparência. No plano factual, a existência de agressões racistas deve ser apurada através de investigação adequada. O facto de poderem ter sido proferidos insultos com a boca tapada dificulta a perceção imediata, mas não invalida a necessidade de investigação. O ponto essencial é que qualquer denúncia de racismo deve ser levada a sério e tratada com prioridade. A sociedade deve posicionar-se de forma clara e inequívoca ao lado das vítimas e da defesa dos valores fundamentais da dignidade e da igualdade. É particularmente preocupante qualquer tentativa de desvalorizar a denúncia ou de transferir a responsabilidade para quem a apresenta. O ónus da responsabilidade pertence exclusivamente a quem pratica o eventual ato racista, nunca a quem o denuncia.
Viu-se ativado aqui o protocolo de racismo pelo árbitro, mas vimos, sobretudo, um jogo parado sem consequências? O que pode ser afinado nestas ocorrências?
O protocolo previsto foi ativado, tendo o árbitro da partida interrompido o jogo com a sinalética alusiva à prática de comportamentos racistas e tendo, de imediato, reunido os responsáveis de cada equipa para analisar os factos. Pelas imagens disponíveis, parece-me que não foi possível à equipa de arbitragem reunir, naquele momento, os elementos necessários para proceder à aplicação de outras sanções. Neste particular, creio que seria difícil efetuar outro tipo de análise naquele momento - mesmo com recurso às imagens televisivas, é difícil confirmar o que terá sido dito pelo jogador do Benfica, Prestianni, uma vez que este escondeu a boca com a sua camisola. Contudo, atenta a gravidade das queixas apresentadas por Vinicius Junior, é fundamental que a UEFA proceda às averiguações necessárias, nomeadamente ouvindo os intervenientes e analisando todos os elementos de prova, para apurar os factos. Paralelamente, poderá ser útil reforçar os mecanismos de recolha de prova em tempo real e garantir maior eficácia na proteção das vítimas e na responsabilização dos autores durante a partida.
Vendo um jogador como o Vinicius carregar esta luta tantas vezes sozinho é algo que atormenta? Como se pode analisar as tomadas de posição do brasileiro, a sua gestão destes casos? E como se olha para a mensagem de Mourinho em centrar Vinícius como envolvido em muitos casos e potencial culpado de algo?
Infelizmente, Vinicius Junior não é o único atleta vítima de insultos e agressões racistas. Este fenómeno tem-se repetido em vários estádios, em diferentes modalidades, e é transversal e estrutural na sociedade. Claro que, quando estas agressões ocorrem com um atleta com a qualidade e visibilidade pública de Vinicius Junior, o impacto é muito maior. Neste contexto, as declarações de figuras públicas com elevada responsabilidade e influência, como José Mourinho, devem pautar-se por um elevado sentido de responsabilidade. Qualquer discurso que possa ser interpretado como desvalorização ou relativização de denúncias de racismo é problemático, porque pode contribuir para enfraquecer a mensagem de intolerância absoluta face a estes comportamentos. O combate ao racismo exige uma posição clara, coerente e solidária com as vítimas, e não ambiguidade ou relativização. Nenhuma vítima de racismo é responsável pelas agressões - os únicos responsáveis são os agressores. E a nenhuma vítima de racismo deve ser imposto o silêncio ou exigido que ignore as agressões.
O que entende que deve advir desta situação, há matéria para consequências ou funciona como mais um exemplo flagrante para se definirem mais políticas atuantes? Como olha para o grau de responsabilidade de um racista de bancada e um racista enquanto colega de profissão?
Espero que a UEFA prossiga com as diligências necessárias para apurar, rapidamente, os factos em causa e que, no caso de se confirmar as agressões racistas, aplique as sanções previstas nos regulamentos. Um jogo de futebol não é mais importante que a defesa da dignidade das pessoas. O desporto em geral e o futebol, em particular, tem uma enorme influência social e deve assumir um papel ativo na promoção do respeito, da igualdade e da dignidade humana. Uma agressão racista é sempre demasiado grave, independentemente de quem a pratica. É uma violação de direitos humanos fundamentais e é intolerável e inaceitável que ocorra em qualquer tipo de situação. Por isso, seja o agressor um colega de profissão ou um adepto, o comportamento é sempre condenável.
O testemunho mais duro do Mbappé também pode colocar aqui um diferente peso numa avaliação futura?
Creio que o Mbappé, e os demais jogadores que estariam perto do local, deverão agora ser ouvidos como testemunhas. E caso confirmem as agressões, isso constituirá um meio de prova relevante.

