Pelos caminhos da fé no futebol, "uma das atividades que pode unir pessoas de várias religiões"

REPORTAGEM ACADEMIA DE NOTÍCIAS - Viagem à integração e adaptação dos jogadores muçulmanos em Portugal. Três atletas do Mafra explicam as estratégias e a coordenação com o Ramadão, período em que os desígnios religiosos desafiam os limites físicos. Um modo de vida recompensador, garantem.
No Islão, os fiéis oram cinco vezes por dia: ao amanhecer, ao meio-dia, à tarde, após o pôr do sol e à noite. Durante o Ramadão, o mês sagrado, os muçulmanos devem jejuar do nascer ao pôr do sol. Além da dimensão competitiva, o futebol tem-se destacado também como um dos espaços mais eficazes de integração cultural e religiosa em Portugal. No balneário, no treino e no convívio diário, muitos jovens muçulmanos encontram um ambiente onde fé e profissão conseguem coexistir sem conflito.
Para muitos jogadores, esse processo envolve disciplina, resiliência e apoio dos clubes. Entre os jogadores do Mafra, Yacouba Maiga, médio de 21 anos nascido no Mali, descreve a fé como um elemento central no seu equilíbrio diário. "Ser um atleta muçulmano dá-me força e equilíbrio. A minha fé ajuda-me a manter disciplina, foco e gratidão em todos os momentos, dentro e fora de campo", afirma.
Braíma Sambú, médio defensivo de 24 anos, natural da Guiné-Bissau, iniciou a carreira em Portugal, passou pelo FC Porto e pelo Triestina, na Itália, antes de chegar ao Mafra. O atleta destaca que o apoio dos clubes vai desde pequenas adaptações durante os treinos até ajustes durante o Ramadão. Já o colega Ussumane Djaló, médio luso-guineense, explica que, em dias de refeições de equipa, pode "fazer a pausa [de oração] com antecedência", evitando interrupções durante o convívio. Quando não é possível antecipar, recorre ao diálogo interno e avisa o treinador ou o capitão para tirar "uns cinco minutinhos só para rezar" antes de regressar ao grupo. Djaló, que esteve emprestado pelo FC Porto ao Southampton e defendeu os sub-20 do Torino, de Itália, explica que essa coordenação envolve também nutricionistas e treinadores. Mostram-se "sempre disponíveis para ajudar" e colaboram na organização de alimentação e treinos para que o desempenho não seja comprometido: "Uma semana antes da chegada do Ramadão, eles fazem uma reunião e o nutricionista fala comigo, diz o que é necessário fazer. Sabem que eu vou entrar num período que também exige um esforço físico maior e, nesse sentido, ajudam-me bastante com o que devo comer e como devo fazer. Pelo menos, para ter mais energia para o treino e para os jogos".
O médio considera que a adaptação da prática religiosa ao futebol "não é tão simples como num país islâmico". Porém, Djaló afirma que se vai "adaptando à nova cultura e aprendendo novas coisas" de forma a agilizar a rotina. "O Islão é um modo de vida para nós e adapta-se a qualquer sítio. E vamos seguindo a nossa religião respeitando os outros", explica o jogador, que detalha a organização das orações e da alimentação durante o Ramadão: "Às vezes, dá tempo [para fazer a oração]. Se temos uma paragem de 15/20 minutos, dá para orar no ginásio e improvisar. Mas, na maior parte das vezes, rezamos depois. Também acordamos mais cedo para comer, porque não dá para ir tomar o pequeno-almoço com a equipa. E vamos ajustando essas coisas, esses pequenos detalhes", explica Ussumane Djaló, 20 anos.
Apesar do esforço de atletas e clubes, o futebol português continua sem regras oficiais para a conciliação religiosa. Não existem indicações sobre pausas, alimentação, horários de treino ou instalações próprias, deixando a adaptação dependente de cada equipa técnica. Tanto os jogadores como os centros islâmicos confirmam que as conversas ocorrem caso a caso, baseadas sobretudo no bom senso.
Yacouba Maiga reconhece que, apesar da experiência estar a ser positiva, a vida religiosa em Portugal exige mais organização do que no Mali: "Em casa, tudo é naturalmente adaptado para os muçulmanos. Em Portugal, preciso de organizar-me mais, mas isso também me ajuda a crescer e manter-me organizado", explica o jogador do Mafra. Apesar de assumir-se bem integrado e considerar que "as pessoas são respeitosas", sentindo-se "bem-vindo" em Portugal, o jovem maliano confessa ter alguma dificuldade em "encontrar comida halal ou um lugar para orar".

O apoio decisivo das instituições
Comunidade muçulmana em Portugal é estimada em cerca de 65 mil pessoas, a maior parte na zona de Lisboa
Embora Portugal não tenha uma grande comunidade muçulmana, estimada em cerca de 65 mil pessoas, a presença de jogadores islâmicos no futebol profissional tem crescido, acompanhando o aumento de atletas oriundos da África Ocidental e do Norte de África que chegam à liga portuguesa. De acordo com o Instituto Halal de Portugal, estão identificadas 54 mesquitas e outros locais de culto em todo o território nacional, mas a maior parte encontra-se na zona de Lisboa, tornando mais difícil para quem vive noutras regiões encontrar um espaço adequado para rezar. Sobre possíveis episódios de intolerância, Yacouba Maiga esclarece: "Nunca passei por isso. Acredito que respeito e trabalho duro são as melhores maneiras de mostrar quem somos".
Ainda assim, mesmo que alguns atletas não tenham sido alvo de situações pessoais de discriminação, há jogadores que enfrentam entraves por seguirem a fé islâmica. Em França, por exemplo, a federação de futebol mantém um cronograma rígido de treinos, horários e alimentação, sem abertura para adaptações religiosas, o que dificulta a rotina de atletas muçulmanos, assim como no período do Ramadão.
Em Portugal, a discriminação religiosa contra muçulmanos também é monitorizada por entidades europeias. A ECRI (Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância) inclui o país na Recomendação Geral n.º5, dedicada especificamente ao combate ao preconceito contra comunidades islâmicas. O documento identifica que os muçulmanos, mesmo em contextos estáveis, continuam expostos a estereótipos, hostilidade e limitações no exercício da fé. Entre as orientações dirigidas aos Estados, está a garantia de condições básicas para práticas religiosas, como acesso a locais de oração e respeito por requisitos alimentares. A ECRI recomenda ainda medidas de conciliação em escolas, locais de trabalho e instituições desportivas, um princípio que dialoga diretamente com os ajustes feitos por clubes portugueses para apoiar jogadores durante o Ramadão.
Já o Centro Islâmico de Lisboa recebe regularmente atletas em busca de espaço para oração, entre eles quatro jogadores do Benfica. Samir Aboobaker, porta-voz da Mesquita Central, destaca que a presença de muçulmanos no futebol português é cada vez mais diversa: "Há muitos atletas muçulmanos em vários clubes de Portugal. E há cada vez mais muçulmanos portugueses nativos, convertidos".
Para o representante do centro, a prática religiosa é facilitada pelo fato de a oração poder ser feita em qualquer lugar, mesmo com alguns requisitos. "É claro que é melhor fazer numa mesquita, mas pode ser feito individualmente, em casa, no escritório, em qualquer ponto que seja adequado para a prática", afirma o representante, que destaca ainda o papel do futebol como instrumento de inclusão: "Talvez seja uma das atividades, a nível mundial, que pode unir várias pessoas de várias comunidades e religiões".
Mais a norte, Abdul Rehman Mangá, coordenador do Centro Islâmico do Porto, revela que muitos atletas que jogam nesta zona passam pela mesquita sempre que podem, especialmente os que atuam no FC Porto. "Não é o clube que procura o centro; os jogadores conversam diretamente com os treinadores para ajustar, por exemplo, o Ramadão. Naquelas horas em que não é permitido comer, eles não comem, mas há flexibilidade para não comprometer o desempenho", explica o representante. Durante o Ramadão, alguns jogadores reconhecem que não conseguem manter o jejum em dias de jogo, mas o centro explica que esses dias possam ser compensados posteriormente: "Na religião [islâmica], a saúde vem primeiro, depois, o cumprimento da religião".
Abdul Mangá ressalva a importância do desporto para manter a condição física necessária às práticas religiosas, sendo necessário "um corpo firme" para aguentar "o jejum e também para as orações", lembrando que "um crente forte é melhor que um crente fraco", e que a mesquita do Porto quer promover a prática desportiva. A instituição pensa criar um campo de futebol de salão para unir jovens da comunidade, rapazes e raparigas, oferecendo um espaço para praticar desporto e conviver.
No plano institucional, a Liga Portugal afirma promover um ambiente de respeito e diálogo entre todos os agentes do futebol profissional, sublinhando que "a gestão direta das práticas religiosas cabe a cada clube, mas a Liga incentiva práticas de conciliação que assegurem o bem-estar e a liberdade de consciência dos profissionais". Em 2024, reforçou esse compromisso ao lançar uma plataforma dedicada à denúncia de atos de ódio, intolerância, xenofobia, racismo e violência.
Fernanda de Souza ganhou a Bolsa O JOGO sobre inclusão
Fernanda de Souza, estudante da Universidade do Porto e colaboradora do JPN (Jornalismo Porto Net), foi a vencedora da Bolsa O JOGO da Academia de Notícias, cujo tema deste ano foi "O Desporto como veículo de inclusão". Esta iniciativa da Notícias Ilimitadas inclui ainda outras três bolsas: uma do JN (Coesão territorial), uma da TSF (Cidadania na era digital) e ainda a Bolsa da Fundação Mestre Casais (Sustentabilidade).

