"Ninguém contava com um jogador que viesse e desse tantas dores de cabeça..."

Amadu Nogueira
D.R.
REPORTAGEM, PARTE I - Amadu Nogueira foi estrela do ataque do Gil Vicente na estreia na I Divisão. Uma viagem irresistível. Hoje com 59 anos, envolvido no mundo empresarial, atacante fez furor em Barcelos em 1990/91 e lembra contacto com técnicos como Rodolfo Reis, António Oliveira e Vítor Oliveira
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Já com muita história escrita na Liga, 25 presenças e dois 5.º lugares em 1999/2000 e 2021/22, o Gil Vicente é atualmente 4.º classificado, tentando seduzir como nunca, desde os tempos de novatos na I Divisão em 1990/91. O plantel comandado por Rodolfo Reis apresentava jovens que se tornariam notáveis no futebol português, como Zé Nuno, Azevedo, Rui Filipe, Folha e Capucho, mas também José Carlos, central brasileiro goleador, e Paulinho Cascavel, no derradeiro capítulo em Portugal. O ataque tinha a pujança africana de Mangonga e também de Nogueira, um tanque que chegara da Guiné-Bissau e se notabilizara com muitos golos no União de Coimbra.
Hoje, com 59 anos, a viver em Lisboa e com uma paixão de infância encarnada, o antigo dianteiro só muda de cor clubística quando se trata do Gil Vicente. Nogueira viveu os seus tempos mais deslumbrantes em Barcelos, faturando oito golos em 1990/91, mas também enfrentou momentos de agonia com duas graves lesões que hipotecaram cenários mais vistosos nas duas épocas seguintes. "Marcou-me bastante e continuo a gostar muito do Gil. Gosto da cidade, das pessoas, levo o Gil no coração e as memórias, boas e más, fazem parte da vida", confessa Amadu Nogueira, descrevendo toda a rebuscada operação que o trouxe para Barcelos, via FC Porto.
"Dei nas vistas em Coimbra, mandava na zona Centro, e o FC Porto e o Artur Jorge começaram a observar-me. O Artur Jorge era muito popular na cidade. Foi o FC Porto que me buscou a Coimbra numa noite, quando era suposto ir ao Restelo na manhã seguinte assinar com o Belenenses. Não era fácil dizer não, mas houve acordo, e fui encaminhado para jogar no Gil Vicente, onde já estavam Paulo Alves, Folha, ainda o míster Rodolfo, Chico Nelo e Zé Nuno. O plantel era forte, ainda havia a experiência de Zé Carlos, Rosado, Valdir e Cascavel", relembra Nogueira, puxando a fita das suas proezas e desejos. "Era uma equipa engraçada, mas eu não era conhecido a Norte. Ninguém contava com um jogador que viesse e desse tantas dores de cabeça. Comecei à procura do meu espaço e acabei por me transformar num dos melhores avançados da 1 Divisão, fazendo jogos espetaculares e ganhando confiança com muitos golos", desfia, sem esconder o clamor mais íntimo. "Reunia todas as condições para ser jogador de uma equipa grande. Não me estou a colocar em bicos de pés, muita gente perguntava por mim", evidencia Nogueira, que, com um total de 38 jogos e oito golos, foi figura em 1990/91, mas penou nas épocas seguintes devido a graves lesões.
"Todos os treinadores gostaram de mim, mesmo António Oliveira e Vítor Oliveira, apesar de me verem afastado por muito tempo. Eles tinham muita confiança nas minhas capacidades, eu era apreciado na cidade e tentava corresponder, sendo humilde e respeitador. Na terceira época fraturei a perna, quando estava bem e tinha chances de me transferir para o Sporting", recorda, taxativo quanto a um destino que se abria. "Não fosse essa paragem, teria feito carreira num dos três grandes à vontade, tinha capacidade de sobra e toda a gente sabia; pressentiam que ia chegar lá".
Capucho encharca o presidente
Segue-se outro capítulo, em que Nogueira agarra momentos mais jocosos no Adelino Ribeiro Novo. "O Francisco Dias da Silva já tinha saído da presidência, tinha ficado o senhor Afonso. No Adelino Ribeiro Novo, o balneário estava bem no fundo e havia sempre umas brincadeiras antes do treino, muita palhaçada, e o Laureta era o especialista. Era mau e mandou um balde de água gelado no Capucho", conta. Já o contra-ataque foi contraproducente.
"Ele era miúdo, mas ficou danado e pegou num balde para devolver. Só que não sabia que o presidente estava ali, todo bonitinho, ao lado do Laureta. Encharcou-o porque os jogadores já sabiam o que ia acontecer e fugiram. Foi um castigo calculado para o Capucho. Havia muita brincadeira, os jantares às quintas, os almoços juntos. Ficaram amizades para a vida", reconhece o guineense, tributando os laços que engrandeciam o grupo.
"O nosso espírito era muito forte. Basta ver o exemplo do Tuck: era jovem, mas sempre suplente. Trabalhava ao máximo e, quando falhou alguém, ele entrou e nunca mais saiu. O Capucho era o que reclamava com toda a gente. Ninguém lhe podia tocar! Fez uma grande carreira. Guardo com saudade a dona Alice, mãe do Lila, que tinha um restaurante de comida caseira e nos tratava muito bem. O Cacioli e a sua esposa foram fundamentais quando estive lesionado, visitavam-me muito porque viviam no mesmo prédio".

