"Mourinho falou em Eusébio, será que ele sabe o que os jogadores negros passaram nos anos 60?"

José Mourinho com Vinícius Júnior
EPA
Treinador do Bayern diz que comportamento de José Mourinho é "inaceitável"
O treinador do Bayern Munique, Vincent Kompany, afirmou esta sexta-feira que o comportamento de José Mourinho após o encontro entre Benfica e Real Madrid, da Liga dos Campeões, foi inaceitável e espera que o português assuma o erro.
"Pior ainda, e quero ser claro nisto, é o que aconteceu depois do jogo. Temos um líder de uma equipa, José Mourinho, que utiliza a celebração do golo por parte Vinicius Júnior para atacar o seu caráter e desacreditar tudo o que aconteceu. É um erro enorme e é algo que não podemos aceitar", afirmou Vincent Kompany, relativamente ao jogo da primeira mão do play-off da Champions.
O técnico belga, de 39 anos, referia-se à reação do técnico do Benfica após o Benfica-Real Madrid (0-1), que ficou marcado por alegados insultos racistas do parte do argentino Gianluca Prestianni, extremo dos encarnados, ao brasileiro Vinícius Júnior, avançado dos merengues e marcador do único golo de um jogo que chegou a estar 10 minutos interrompido após o árbitro francês François Letexier acionar o protocolo antirracismo.
"Depois, falou ainda em Eusébio para dizer que o Benfica não pode ser racista. Será que ele sabe o que os jogadores negros passaram nos anos 60? O meu pai é desse tempo e, na altura, a única opção era estar calado. Essa foi provavelmente a vida de Eusébio. Ficar calado e mostrar em campo que era realmente bom. Usar o nome de Eusébio é inaceitável", frisou.
Em conferência de imprensa, em Munique, Kompany, que nasceu na Bélgica, mas tem raízes familiares na Republica Democrática do Congo, esteve mais de 10 minutos a abordar os incidentes no Estádio do Luz, atirando-se várias vezes a Mourinho, lembrando episódios que o treinador português viveu na carreira.
"Quando fez as celebrações que fez em Old Trafford, as celebrações que fez frente a adeptos do Barcelona, quando na partida Roma-Sevilha os árbitros tiveram que ter proteção policial por causa das suas palavras, se nessa altura alguém tivesse um ato racista com Mourinho, eu diria para pararem com isso. Não interessa as celebrações que fez. Não é justificação para racismo", explicou.
Mesmo assim, Kompany fez questão de referir que, em toda a sua carreira como jogador e agora como treinador, nunca ouviu alguém dizer algo negativo sobre o atual treinador do Benfica.
"Todos os jogadores que foram treinados por ele adoram-no. Percebo que está a lutar pela sua equipa, pelo seu clube. Sei que ele é uma boa pessoa, mas não posso ignorar o que ele disse", referiu.
Após a partida, Prestianni negou qualquer insulto racista a Vinícius Júnior, enquanto o internacional brasileiro e outros jogadores do Real confirmaram a ofensa por parte do argentino.
"Estava a assistir ao jogo pela televisão e a reação do Vinícius Junior é impossível de ser falsa. É uma reação emocional e ele não tem qualquer beneficio, não ganha nada com o ir ter com o árbitro. Ele fez isso porque que era a coisa certa a fazer. No estádio existiram pessoas a chamar e a fazer sons de macaco. Isso aconteceu", lamentou Kompany.
O antigo defesa central mostrou-se igualmente contra o extremar da situação, lembrando também que "errar é humano".
"Se, realmente, se provar que o jogador disse o que disse, então também deve haver espaço para esse jogador poder pedir desculpa e assumir que errou. Isso também seria um bom passo. Mas, de repente, está tudo a extremar-se. E disso eu também não gosto", disse.
Visivelmente emocionado, Kompany recordou ainda casos de insultos raciais que viveu durante a carreira de jogador, até mesmo quando era capitão da Bélgica: "Assisti e vivi isso quando era jogador. Fui várias vezes chamado de macaco castanho. Até por adeptos de clubes belgas quando eu era capitão da seleção".
O Benfica veio a público reiterar total confiança na versão de Prestianni, que nega os insultos, lamentando o que considera ser uma "campanha de difamação".
O clube da Luz garantiu ainda ainda "total espírito de colaboração" com UEFA, que nomeou, entretanto, um Inspetor de Ética e Disciplina para investigar o caso, prevendo-se a audição de ambos os atletas nos próximos dias.

