Laureta e as passagens por Vitória e Braga: "Tive de aguentar um balde de água fria vários anos"

Laureta
Laureta é talvez o único que vestiu a camisola de Vitória e Braga com mais de uma centena de jogos em cada clube. Filho ilustre de Guimarães foi parar ao 1.º Maio, quando deixou o FC Porto campeão europeu. Apesar do profissionalismo, sofreu com falta de emoção das bancadas
Foi uma sensação estranha que durou para a vida mas, o facto, é que Laureta vestiu mais vezes a camisola do Braga do que a do Vitória, contando apenas com o trajeto sénior. Um ilustre de Guimarães, um menino feito no berço, que amou a camisola vitoriana, tendo o seu talento e polivalência contribuído para uma chegada ao FC Porto, onde foi campeão europeu, valendo-se de 90 minutos contra o Brondby. Vendo o espaço a fechar-se nas Antas, o lateral sentiu a pressão de mudar de ares e alcançar maior realização. Procurou o regresso ao Vitória mas de Braga chegou proposta muito mais vantajosa, que se tornou irrecusável.
Laureta respira com orgulho a final da Taça da Liga entre Braga e Vitória, abraçando a sua história de 147 jogos pelos guerreiros e 104 pelos conquistadores. Mas com um só amor na prenunciação do desejo. "Primeiro importa dizer que esta é a final impensável, as coisas não foram desenhadas para acontecer assim. Saiu tudo ao contrário de algo pensado estupidamente para os grandes. Mas fiquei muito feliz por esta final entre os dois grandes do Minho, com o Vitória a deixar pelo caminho Sporting e FC Porto, o Braga o Benfica. Agora espero o triunfo do Vitória, esta Taça da Liga é importante para o futuro do clube e é um orgulho, por fim, para os vitorianos esta final", antecipa o antigo defesa, de 64 anos, internacional A, quando estava emprestado pelos homens do Castelo ao Mirandela, da 2.ª Divisão.

"Braga investe mais mas só leva dois pontos a mais"
Laureta sente o clima a aquecer em Braga e Guimarães, sente o cheiro no ar de um espetáculo promissor sem vencedor declarado. "Espero um jogo bem disputado, sem favorito. Imagino um impacto forte nas pessoas, mas peço bom-senso, sensatez, não será mais que uma partida de futebol. Não se cometam excessos", alerta, penetrando nas desiguais experiências que viveu num clube e outro. "O Braga não tinha força alguma na minha altura, pouca expressão de adeptos e foi difícil para mim. O Vitória já era o que é hoje, conseguimos um acesso europeu. O Braga não tinha grande poder e fiquei muito defraudado pela falta de apoio nesse meu período. Era uma diferença abismal, no que era o profissionalismo, para o que conhecia do Vitória. Tive de aguentar um balde de água fria vários anos", descrevendo, sem fintar as razões da mudança com o FC Porto pelo meio.
"Acabei no Braga e deixei fugir a oportunidade de ficar no FC Porto. Fui impulsivo a pedir para sair, dizendo ao Pinto da Costa que não queria ficar com o Artur Jorge. Ele avisou-me que o treinador seria vendido e assim foi depois de ganhar a Taça dos Campeões. Não me sentia feliz", desabafa. "Tive logo uma reunião com o Pimenta Machado, queria regressar, mas o Vitória só me deu metade do que o Braga oferecia. O Manuel José, que tinha sido importante para mim em Guimarães, pediu para me juntar e fui ganhar o dobro. Tive de aceitar com uma dor de alma. Mas um jogador tem de ser profissional e dar atenção ao que é uma carreira curta. Não vamos pegar nas camisolas e fazê-las render num banco", expõe o antigo lateral, admitindo as mudanças de rumo e ordem num lado e outro. "O Braga fez-se um clube mais sólido e o Vitória viveu alguns problemas financeiros. O Braga conseguiu investir muito mais, continua a investir muito mais mas, se formos a ver esta época, devia estar muito mais acima do Vitória. Mas só leva dois pontos a mais", avalia, adivinhando uma final "resolvida no pormenor, onde quem for mais consistente vencerá."
Laureta finaliza com a observação sobre os apertos e acossos gerados por uma dança de camisolas no vira minhoto. "Foi e sempre será mais difícil de se aceitar uma mudança em Guimarães, mais difícil ainda se fores de Guimarães. Quem vai do Vitória para Braga tem mais dificuldades do que o inverso, é mais penoso emocionalmente. Mas temos aí vários exemplos de trocas, também de treinadores experientes."

