
João Nuno Fonseca
DR
João Nuno Fonseca estreou-se como treinador principal na equipa de Matosinhos, após passagem, como adjunto, pelo Mundial de Clubes. Com vasta experiência em Portugal e no estrangeiro, com passagens por França, Catar e Coreia do Sul, em entrevista a O JOGO o treinador recorda Jorge Costa, que lhe abriu as portas do futebol.
Estreou-se como treinador principal no Leixões. Que balanço faz desta experiência?
-Acabou por ser uma mudança implementada no clube com a entrada dos investidores. Acabo por deixar um legado estrutural num curto espaço de tempo. Ou seja, a estruturação de departamentos, as fundações do clube foram mexidas no sentido de otimização de recursos. Acabou por ter um impacto de forma inicial. Depois, obviamente que começámos muito bem o campeonato, em quatro jogos fizemos nove pontos. Entrámos muito bem na II Liga e, depois, tivemos uma quebra de rendimento aliada a diversos fatores. No entanto, acho que houve jogadores que cresceram sob o meu comando, aliado a uma intenção de jogo positiva, dominante e fiel, face à exigência da massa adepta do Leixões. Os resultados não se coadunaram com a minha intenção.
Quando diz que houve uma quebra por diversos aspetos, a que se refere?
-Sabe-se perfeitamente que a realidade competitiva da II Liga é muito alta, portanto é um campeonato de sobrevivência, de quem consegue sobreviver, seja para estar em cima, seja para estar em baixo. Acho que é notório. Agora, como é óbvio, o resultado acaba por ser o juiz final das situações e, portanto, nós no Leixões tivemos momentos de alto nível, com alguns resultados e jogos que fizemos, mas depois, às vezes, o detalhe, a eficácia... houve coisas que nem sempre acabaram por nos fazer sorrir. Como eu costumo dizer, o adepto leixonense vive com o coração na boca e, portanto, isso também acabou por pesar.
Saiu triste por não ter tido mais tempo?
-Eu saí de consciência tranquila e sabia que ainda havia muito caminho para se fazer, com a consciência de que era possível fazer-se um caminho sustentado. Saio com a certeza que a equipa, na altura em que eu estava, tinha uma identidade clara e os jogadores sabiam exatamente o que fazer. O crescimento e a vontade de se fazer um processo sustentado acabou por terminar muito cedo. Mas há sobretudo essa questão de que saí de consciência tranquila e de que fiz de tudo que estava ao meu alcance para poder ter sucesso. Exemplo disso é que acabei por deixar a equipa a seis pontos dos lugares de subida.
Sente que ainda falta paciência com os treinadores?
-Hoje em dia acaba por ser um bocado como vive a sociedade. Quer-se tudo muito rápido e, se não tivermos resultados rapidamente, acaba por se gerar impaciência. Agora, eu acho que os clubes têm de perceber que quando contratam um treinador, contratam uma intenção de jogo, uma forma de pensar uma estrutura de um clube e isso leva tempo. O treinador é sempre o alvo mais fácil a abater e o primeiro a ter as malas à porta. É visível, seja comigo no Leixões, seja em outros contextos em que depois saem diretores e existe uma reestruturação.
"Recordações fantásticas do Bicho"
Técnico recordou Jorge Costa, o primeiro que lhe abriu portas quando ainda era estudante
Já trabalhou com vários nomes de peso do futebol. Quais foram os mais importantes no seu percurso?
-As minhas grandes referências são sempre os treinadores com quem tive oportunidade de trabalhar. Aprendemos sempre com todos, seja positivo ou negativo. E tentamos formar a nossa identidade. Depois, temos as inspirações, que são os grandes treinadores, José Mourinho, Pep Guardiola e Klopp. Mas considero que houve vários treinadores que acabaram por moldar-me mais, tendo em conta o próprio estilo e a intenção para um determinado tipo de jogo.
Jorge Costa foi um deles?
-O Jorge acabou por ser o primeiro treinador com quem tive oportunidade de trabalhar no futebol profissional. Foi ele que nos recebeu pela primeira vez no futebol profissional, na altura eu ainda era estudante de Coimbra. Abriu-nos as portas, neste caso, na Académica. Na altura, já desempenhava as funções de treinador-adjunto e, através da análise, tive a oportunidade de entrar no futebol profissional pela mão do Jorge Costa.
Que recordações guarda dele?
-Fantásticas! Tenho uma história curiosa. Com a análise, estávamos sempre a ver jogos, a viajar. E o Jorge, numa brincadeira, deu-me uma caixa de vitaminas Cerebrum e disse "vão precisar muito disto". Era para nos ajudar. Era o lado muito humano, de saber cuidar dos que estão com ele.
"Jogadores com medo de rematar"
Teve uma experiência como adjunto do Ulsan Hyundai, da Coreia do Sul, no Mundial de Clubes. Como correu?
-Foi de uma aprendizagem muito grande, até porque era a primeira vez do clube. Calhámos num grupo forte, mas tentámos com as nossas armas, na altura, fazer valer a qualidade do jogador coreano.
Como caracteriza o futebol coreano?
-É um futebol de posse por posse, tem uma vertente um bocado castradora. Tinha muitos jogadores que chegavam ao último terço e não rematavam, não assumiam o risco. Isto vem ainda um pouco do que se vive na cultura coreana, que apesar de não estar em guerra, ainda a vive. O que se passou na formação dos jogadores, que era a proibição de falhar, acabou por se transportar para o futebol profissional.

