
Espaço próprio celebrou dois anos com o Arouca. Conquistas várias que entusiasmam visão de futuro
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Dois anos profícuos de exemplar comunhão com adeptos de alcance diferenciado, merecedores de tratamento amigo, inclusivo e terapêutico. Na receção ao Arouca, o projeto InZone do FC Porto celebrou já um doce enraizamento no que é a construção de uma nova família, que já se revela numerosa num setor equipado no Dragão para satisfazer pessoas com dificuldades de processamento de informação sensorial, o que abarca o espectro do autismo, diagnóstico neurodivergente como défice de atenção ou hiperatividade, défice intelectual ou outro tipo de doenças de foro mental. Esta aliança entre os dragões, a Betano, como parceiro financiador, e a Escola Superior de Saúde do Politécnico do Porto, oferecendo um vasto quadro de terapeutas, já se contam 57 jogos realizados, 200 famílias acolhidas e 536 adeptos captados para esta harmoniosa experiência, onde se cultivam atenções e laços duradouros.
O êxito continua a medir-se pelo cariz pioneiro, ainda único em Portugal, pelo reforço de investimento e pela sensibilidade apurada na construção de um novo astral e condução de linhas de conforto para tantos jovens e famílias atingidas habitualmente pela sobrecarga de sentidos que envolve um jogo de futebol, múltiplos barulhos e apoteose de multidões. A Inzone é uma ala fundamental do departamento de Sustentabilidade do FC Porto, constituída por 3 espaços transitáveis e multidirecionais, que oferecem acolhimento, encanto ocupacional com ferramentas autoreguladores das emoções, e uma natureza estimulante de integração, procurando a InZone elevar os padrões de confiança social a diferentes níveis, pelo que cada área representa um diferente nível, que vai da zona de conforto a uma visão relaxada e controlada de jogo, retirando ruídos e estímulos sensoriais.
Chefe de equipa entre os (as) terapeutas, Daniela Pinto, partilhou um pouco deste caminho vitorioso, que não se compra com o troféus, corre jornada a jornada com uma goleada de valores onde se promove a felicidade genuína, sem artifícios, se compreendem caraterísticas especiais e sempre vence e empatia.
"Há um impacto muito positivo, vendo algumas famílias que já estiveram em cinco, seis ou sete jogos, temos pai e filho que já trataram de ter lugar anual. Isto é válido para todos os jogos que se fazem no Dragão e a procura tem sido crescente. Tem sido um caminho bonito", revela, aprofundando o trabalho, enquanto alavanca social. "Aqui reúnem-se caraterísticas que permitem a um jovem ou adulto aceder a um espaço e uma sala que possibilita uma revelação, onde se abafam e controlam significativamente os estímulos. Essa é a fórmula que permite que permaneçam até ao fim num jogo", justifica.

Uma visão de integração gradual
A responsável, com lastro maior nesta causa, enaltece a vocação do FC Porto em abrir pontes a diferentes tipologias de adepto, que carecem de cuidados para um gozo pleno de um espetáculo desportivo.
"O clube tem um longo caminho nestas questões da inclusão e acessibilidade, oferecendo diferentes serviços a diferentes adeptos, que passam pelos invisuais aos de mobilidade condicionada. Esta era uma resposta que faltava a a InZone veio cobrir essa lacuna. Somos pioneiros e temos também um modelo diferenciado do que se faz lá fora com três zonas interligadas e passíveis de circulação. É um sistema que favorece uma integração gradual até à experiência final de adepto. O objetivo final passa por proporcionar em meses ou anos que possam aceder à bancada como um adepto comum", expõe Daniela Pinto, particularizando a estreita cumplicidade da Escola Superior de Saúde. "Dão-nos o apoio na equipa, através de estágios curriculares ou com colegas licenciados em mestrado. Acabam por estar connosco em dias de jogo. Fazemos com que haja uma terapeuta por família, havendo um espaço destinado à partida para cinco famílias em simultâneo. Não se trata de fazer terapia, é mais uma estratégia sensorial, fazendo uso de objetos e brinquedos reguladores", observa.
Além do pai e filho que já detêm lugares anuais, Daniela destaca outra conquista. "Temos o Guilherme que celebrou aqui os 25 anos com um bolo. Há essa ideia de amizade, interagem entre eles. Ele trouxe também um amigo, sentindo que este é o sítio seguro para ver a bola", elucida, descrevendo Guilherme como um caso paradigmático de sucesso nestes dois anos. Já conseguiu vir sozinho, algo que era impensável antes, pelo simples facto de não ter uma caso de banho específica." "No fundo sempre o conforto que uma bancada não lhes dá, através destas área há uma previsibilidade e antecipação de cenários que os ajuda muito. O Martim, que é o menino que já tem lugar anual, antes abandonava os jogos ao fim de 15 minutos. Há essa progressão até os tornar capazes. Sentem que estão protegidos", expressa.

Soluções e estratégias que conquistam
Por sua vez, Teresa Santos, diretora do FC Porto, vincou ao JOGO os créditos da aposta feita em parceira com a Betano. "Temos diferentes serviços para adeptos que vão da audiodescrição, aos tablets para cegos e a um código de cor para daltónicos. Faltava o espaço para pessoas neurodivergentes, sabendo que é um número em crescimento. A Betano foi o parceiro ideal e de um antigo estúdio de televisão fizemos esta área. Aqui sentem-se confortáveis com acompanhamento próprio de terapeutas", avalia, aceitando decompor os critérios de acesso a este programa de inclusão. "Há um mail do FC Porto onde caiem os pedidos para esta sala. Passam as pessoas a ser contactadas pela terapeuta Daniela e decide-se a necessidade de verem o espaço. Temos de ser rigorosos para não retirar disponibilidade de algum bilhete. É assim que se faz a seleção prévia para termos um limite de pessoas por cada jogo, que sejam distribuídas pelas três zonas" relata.
A InZone vai ganhando visibilidade e progredindo com direcionamento a adeptos do FC Porto, que não precisam de ser sócios. "Um espaço inclusivo não tem de ser gratuito, mesmo com essa vertente de responsabilidade social para famílias que não têm essa capacidade. Trata-se de um preço igual ao bilhete de bancada. Não se cobram os serviços, como um lugar no parque, um acesso com hospedeira e as áreas de ocupação pensadas com jogos, brinquedos, luzes, trampolins, afafadores e elementos autoreguladores. Há uma série de soluções e estratégias", acrescenta a responsável de Sustentabilidade do FC Porto.
A parceria com a Betano tem corrido de feição, reinando satisfação mútua. "A inclusão não é uma ação pontual, é um compromisso contínuo. Por isso, assegurámos o investimento em remodelar alguns equipamentos da sala e na aquisição de novos, não só pelo desgaste de alguns equipamentos, como para introduzir outros que potenciem a experiência dos utilizadores. Esse investimento permitiu também alargar o número de lugares da sala na zona 2 e 3. Possibilitando à Inzone receber mais utilizadores em cada jogo", destaca Inês Andrade, como rosto da Betano, congratulando-se por uma ligação que também renderá a construção de um elevador de acesso direto às áreas dotadas da chancela InZone. Ficam os elogios ao FC Porto pela aposta. "Este é o único estádio com este conceito. Desde o inicio manifestámos a nossa intenção aos outros dois clubes que patrocinamos, Benfica e Sporting, de contribuir para um projecto semelhante, mas ainda sem avanços para uma sala sensorial", afere.

"Maravilhada com o que conheci"
Presente neste jogo com o Arouca, Lila Durão, figura do voleibol portista, mostrou a proximidade dos atletas com esta intervenção específica com um apoio tão sensível na gestão de emoções com ferramentas tão apropriadas. "Acho que é um projeto excecional, é importante de ver e sentir este espaço inclusivo, prova que o clube vai além e abrange a sua comunidade. Sabemos que existem muitas crianças e pessoas com dificuldades de integração, aqui sentem-se acarainhadas com sensação de pertença. Estou maravilhada com o que conheci", testemunha, em contacto com vários jovens numa sala onde está a camisola de Castro, hoje adjunto de Farioli, que tem o filho mais velho diagnosticado com autismo.


