
Vitória e Aves SAD abrem a jornada 12 do campeonato
Jogo entre V. Guimarães e Aves SAD traz memórias à família da antiga figura vitoriana
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A receção do Vitória ao Aves-SAD abre o flanco à abertura do livro da família Edmur, estimulando memórias vinculadas a um nome que virou patente de talento. O patrão dessa história foi Edmur, que representou os conquistadores entre 1958 a 61, destacando-se como um dos mais finos jogadores que passaram pelo clube de Guimarães, chegando a Portugal já como internacional canarinho. Fez parte de uma armada brasileira que encantou, formando ataque com Ernesto e Carlos Alberto, sendo ele o expoente do poderio dos vimaranenses, autor de 69 golos em 86 jogos, numa média invejável de acerto com as balizas rivais. O seu registo mais transcendente, 29 golos em 59/60, 25 deles na I divisão, valeu agrafo como anotador máximo da competição.
O herdeiro, Edmur Filho, também levou o seu caminho pelo futebol, acabando intimamente ligado ao Aves nos anos 80, fazendo parte da equipa que subiu pela primeira vez à elite nacional, ganhando o direito e proveito de pisar os principais relvados nacionais em 85/86. Com 68 anos e um filho que respeita a linhagem, o terceiro Edmur, o antigo médio falou a O JOGO, recordando as marcas da família em Guimarães. "Há, sobretudo, um carinho grande em Guimarães, uma cidade que vive muito o futebol. O meu pai viu e sentiu tudo isso, foi um ambiente que mexeu com ele, ao ponto de ter criado um infantário e, depois, um ginásio, que perdura no seio da família. Guimarães é a cidade que sempre nos apoiou, é o meu centro de vida desde os 15 anos, é um abrigo de eleição. E o clube deixou ficar uma homenagem eterna ao meu pai, atribuindo-lhe o nome da sala de troféus", contextualiza.
"O legado dele é esse, um amor pela cidade e o gosto pelo futebol e desporto. Sempre teve orgulho na condição física, por isso deu o primeiro ginásio à cidade, a comemorar 40 anos", sublinha o antigo médio, sem desfazer outra fonte de ternura. "Fruto da minha passagem de cinco épocas, o Aves é o meu segundo clube, mas diria que os dois clubes estão muito paralelos no meu coração. Divido paixões, mesmo vivendo diariamente com o fervor dos vitorianos por perto. Não esqueço a história que fiz no Aves, a primeira subida ao escalão maior, todo esse ciclo de grande alegria. Há pouco tempo, conseguimos reunir-nos quase todos. Foram momentos especiais, pelos jogadores e pelo professor Neca; era uma família incrível, e todos queriam estar juntos", reconhece.
Recolocando conversa em Edmur pai, lenda do Vitória e baluarte da história, não houve como mudar a morada do craque, mesmo com os grandes em cena. "O meu pai sempre foi reservado e eu vim para Portugal com um ano de idade. Mais do que tudo, conheço a simpatia e respeito que ficou em Guimarães por ele. Sei que outros o tentaram contratar, mas ofereceram uma verba que ele declinou. Falou com a minha mãe e disse que era insuficiente para se sobrepor ao que ganhava no Vitória, somando o que o clube já significava para ele. Não foi por dinheiro, foi por amor, a sua vontade de continuar em Guimarães", garante.
O peso do Vitória e o amor que renasce nas Aves
Olhando à realidade de um Aves-SAD que perdeu ligação ao passado e, inclusive, uma Taça de Portugal ainda pertencente a uma memória recente, Edmur avalia o momento. "Esses constrangimentos foram uma pena mas, penso que pouco a pouco, vamos vendo regressar a paixão pelo futebol à vila. Vejo um amor pelo Aves a reerguer-se, seja pelo futebol, um balão de oxigénio, e por outras modalidades", argumenta, apreciando o Vitória que acompanha mais diretamente. "O Vitória tem sempre o seu peso, mesmo não tendo um avançado como Edmur ou Paulinho Cascavel. É um clube histórico e quem veste essa camisola está sempre obrigado a honrar o passado e presente", alerta, deixando apreço por uma equipa que faz "sobressair mais o coletivo."
"A seu lado, eu era tocador de bombo!"
Para quem não viu jogar Edmur, um tratado de elegância e poder definidor, o filho acelera a nossa consulta dos méritos. "Foi um fora de série. Adorava tratar da sua condição física, além da enorme qualidade técnica. Superou-se sempre e jogou até tarde. Mesmo quando treinava o Aliados de Lordelo, com 42 anos, ainda mostrava que podia competir. Era um exemplo para os jogadores", afiança, não se atrevendo em comparações. "Impossível! A única semelhança é o nome. Talvez também a dedicação física, porque prossegui com o ginásio que ele lançou. E passei também essa paixão ao meu filho. Ao lado dele eu seria só um tocador de bombo", realça.
"Também me influenciou na posição em campo. Em peladas, muito novo, eu era guarda-redes. Vim para Portugal com 15 anos, ele colocou-me a treinar no Aliados e a jogar na frente. Depois, no Moreirense, apostou em mim como trinco. E foi aí que me fixei, com a grande influência do professor Neca no meu trajeto. O meu pai era de outro quilate ao meu lado", reforça.



