
Reprodução: Ovarense
Hélder Vasco viveu subidas com Nacional e Marco, mas onde fez mais jogos foi no Espinho e na Ovarense. Conhece a tensão, mas também toda a tradição nestes clubes que disputam a subida na AF Aveiro
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Rivais muitas vezes na II Liga, com história de confrontos que remonta a 1937, Espinho e Ovarense vão medir forças em Nogueira da Regedoura este domingo, na procura de uma subida da Distrital de Aveiro ao Campeonato de Portugal, numa luta neste momento favorável por dois pontos aos de Ovar, que também beneficiaram de triunfo por 4-3, na primeira volta.
Adversários neste campeonato desde 2023/24, tigres e alvi-negros têm recuperado uma velha rivalidade, de proximidade e de mar, unidos ou desavindos pela tradição piscatória. Hélder Vasco, antigo central, hoje com 48 anos, pode falar com pertinência da importância deste jogo na sua vida, até porque esteve ao serviço da Ovarense em 99 jogos, e do Espinho, em 119, construindo uma ligação fortíssima com ambas as instituições, mesmo sendo de raiz vilacondense.
"Os jogos entre o Espinho e a Ovarense representam muito mais do que um dérbi regional. Para mim, sempre foram encontros carregados de identidade, intensidade e muita entrega. São dois clubes que marcaram profundamente o meu percurso e a minha formação, não só como jogador, mas também como pessoa", descreve o atual fisioterapeuta, que gere o espaço Trust e também está integrado na seleção de voleibol masculino. O retrato das duas camisolas sai-lhe num ápice, tocado pelas memórias, fervilhando de nostalgia a cada frase.
"A camisola do Espinho associo à intensidade, à ambição e à exigência competitiva. Era algo que pedia entrega total, mentalidade vencedora e capacidade de lidar com a pressão. Sempre que a vestia sentia a responsabilidade de representar um clube com uma massa adepta apaixonada e uma história forte", evidencia, identificando outros estímulos em Ovar, onde registou quatro passagens. "Uma camisola que se ligava mais à ideia de pertença, proximidade e construção. É um clube onde cresci muito enquanto atleta, onde consolidei a minha identidade dentro de campo e onde vivi momentos de grande união de grupo. Representa trabalho diário, humildade e compromisso com a comunidade", descreve, colando imagens às duas aventuras. "Diria a chama competitiva em Espinho, o ritmo alto, o ambiente eletrizante. Na Ovarense falaria de uma base sólida, crescimento sustentado e sentimento de casa. Experiências diferentes, mas fundamentais", ressalva.
No atrito local, e perante o choque das realidades a que foram votados, Espinho e Ovarense lutam por uma vaga que lhes dê expressão nacional. "Ver estes duelos mostra que o futebol é cíclico e há clubes históricos que passam fases difíceis. Não encaro só como uma queda, também vejo um ponto de viragem", acredita, consciente que há "identidade, massa adepta e estrutura para um crescimento."
"Com estabilidade, bons projetos, aposta na formação, são clubes com condições para regressarem a patamares mais condizentes com a sua história", expressa o antigo central, que também desempenhava como médio-defensivo.

O "mestre da tática" Vítor Pereira
Desafiado a exercitar a memória e desfiar um pouco de história, Hélder Vasco apanhou de tudo. "Partilhei balneário com gente marcante em ambos os clubes. Vi promessas, homens experientes, figuras carismáticas, que foram capazes de elevar o grupo em momento difíceis. Vi onzes que misturavam qualidade técnica, mentalidade competitiva e espírito de liderança. Houve muita amizade", assegura, gabando técnicos que lhe encheram as medidas.
"Tive a sorte de trabalhar com treinadores que me moldaram. O Fabri González, na Ovarense, marcou-me pela cultura tática, clareza de ideias e como preparava a equipa ao detalhe. Era metódico, exigente e focado na organização coletiva. Mas também tive o Bruno Cardoso que marcou muito a minha vida. Conheci-o com apenas 20 anos, era a fase determinante do meu salto, cresci muito na mentalidade, responsabilidade e maturidade. Era um líder muito humano, exigente e justo", elogia Hélder Vasco, sem esquecer as influências de Espinho.
"O Vítor Pereira foi, claramente, o mestre da tática, pela sua capacidade de leitura de jogo, rigor estratégico e atenção a todos os detalhes. Elevou o nível competitivo e mudou a minha forma de ver o jogo", confessa, focando-se também numa antiga figura do Boavista. "O Pedro Barny é outro caso especial, um verdadeiro homem do futebol. Um líder de enorme experiência, personalidade forte, carisma e capacidade rara de unir o balneário. Transmitia respeito, ambição e cultura vencedora. Foi uma aprendizagem constante a todos os níveis", destaca.
Peixe grelhado em Espinho e conversas de café em Ovar
Não sendo de Espinho nem de Ovar, Hélder Vasco absorveu as místicas por diferentes atletas, portadores de uma paixão própria. "Relativamente à Ovarense posso citar nomes como Artur Marques, Capitão, Rui Barbosa, Marco Abreu ou Lobo, no Espinho, gente como Carlos Manuel, Fábio Espinho, Amorim, Valença ou Edgar Sá."
A conversa deste Espinho-Ovarense com o antigo central ainda desagua no que seria o ritual de uma vinda a cada cidade para um jogo de bola. "Se fosse a Espinho começava pelo ritual do mar com caminhada pela marginal, sentir o ambiente, comer um peixe grelhado e seguir para o estádio viver o clima intenso e apaixonado que só o público espinhense sabe criar", atira, fazendo a outra viagem. "Em Ovar é mais casa e proximidade, passar um pouco pelo centro, sentir o convívio das pessoas, as conversas de café e ir para o estádio com o sentimento de pertença e apoio incondicional. São dois ambientes autênticos e cheios de tradição", afere.


