
Ismael Urtubi, um dos dínamos do Athletic bicampeão espanhol em 83 e 84, fala a O JOGO dessa equipa histórica, que também se cruzou com o Sporting. E agora chegam decisões de Champions em San Mamés
Bilbao conta as horas para um jogo decisivo e todos querem inundar San Mamés. A visita do Sporting gera euforia, mas também apreensão pela inconstância da equipa. Num clube de lendas, onde se perpetua época a fio a dedicação, e só os bascos são soldados com que contar, não faltam representantes de grandes momentos. Urtubi ajudou a armar a solidez do Athletic entre 1982 e 1988, senhor de 242 jogos e 30 golos pelos bascos. O médio foi também uma personagem essencial da equipa que se superiorizou a todos em Espanha durante duas épocas consecutivas, sendo adversário do Sporting pouco depois. Numa equipa de garra, que impunha intensidade, acossava ao limite cada rival, as marcas do sucesso foram muitas, mesmo com um hiato de 40 anos, essa é uma herança que não se renega, percorre as veias de cada jogador, feito em Lezama e levado até ao topo da pirâmide, sonho de vida, de jogar pela primeira equipa do Athletic.
"A nossa mentalidade vinha de Clemente, conhecia o clube, começara lá muito novo. Abasteceu a equipa de jogadores que vinham de baixo, foram bastantes incorporações. A ambição dele foi primordial. Desde o primeiro minuto tinha a convicção que podíamos fazer algo importante", observou Urtubi. "Da noite para o dia, já nos dizia que tínhamos de ser campeões. Sim ou sim! Se o ouves dizer isso, um veterano pode interrogar-se do que ele está a dizer, um jovem vai logo achar que é a mais pura verdade. Esse 'combo' entre juventude e veterania interagiu de forma perfeita e levou-nos às conquistas conhecidas com um nível muito bom de atletas", salienta o médio, que desferia verdadeiras bombas às redes adversárias.
"Eu ainda era muito jovem nos títulos. Um conjunto de cinco beneficiámos que Clemente já nos conhecia, foi-nos metendo pouco a pouco. Passei a jogar habitualmente, mas ninguém podia dormir com ele a comandar. Todos queriam jogar, a equipa respondia, a união tornou-nos compactos, sólidos e poderosos. Criticavam-nos, mas nós ganhávamos! É preciso ver que tínhamos nove internacionais, cinco na absoluta, quatro nos sub-21. Dá para imaginar o nosso nível."
Urtubi pontua a excelência que acompanhou vários anos os leões bascos. "À parte de tudo, há que ter um pouco de sorte, necessária competindo contra poderosos como Barcelona e Real Madrid. Não jogando tão bem, podem ganhar pelo nível dos atletas. O nosso poder vinha da união e do tema físico", destaca, complementando o raciocínio. "O ambiente era formidável e os veteranos acolheram bem os mais novos. Todos passavam um bom tempo, a relação era incrível, mesmo fora do futebol, sem que fizéssemos nada de anormal."

Batalha? "Barcelona não interpretou essa derrota"
A final da Taça contra um rival como o Barcelona foi algo marcante. Mas eles vinham de não ganhar nada, e nós tínhamos arrebatado o título. Foi um jogo épico, mesmo tendo chegado ao Bernabéu num estado físico muito complicado. Tínhamos sido campeões por essa dimensão física, que era muito importante no nosso jogo, que nos proporcionou várias vitórias, uma potência que nos fazia suprir algumas carências. Foi um jogo difícil, mas eles não pensavam perder, tinham o melhor jogador do mundo, que era Maradona. Não interpretaram bem a derrota e os acontecimentos foram uma lástima. Felizmente caiu para o nosso lado."

"Cenário precioso para fazer história"
Antecipando a visita portuguesa, o apetite leonino por estragos em San Mamés, Urtubi revisita a história, antes de atacar o presente. "Considero o Sporting um grande e um clube de prestígio. Quando nos surgiu no caminho, não me pareceu nada fácil, tinham que ser jogos encarados como finais. Acho que o golo sofrido em San Mamés, jogávamos contra dez, complicou muito a eliminatória para o nosso lado, porque tínhamos feito um grande jogo", evidencia, intrigado pelo Athletic atual, terrivelmente inconstante, mesmo com as bancadas sempre devotas. "Está imprevisível. Não sabemos bem o que aconteceu do verão para agora, porque ficou num nível tão baixo. Não é normal depois do que fizeram a época passada, não mudaram os jogadores, não se entende! Está a custar muito. Até pode fazer um bom jogo, mas o seguinte sai um desastre", desabafa Urtubi, não enterrando as esperanças. "Em Bergamo subiu um pouco o moral e deu para ficarmos dependentes de nós diante do Sporting. Será uma decisão em San Mamés, um cenário espetacular e precioso para a equipa fazer história. Só nos toca vencer", adianta o antigo médio, consciente que o Sporting promete dificuldades, até porque o Athletic tarda em recompor-se.

"Começou mal e não se endireitou. Há atletas importantes que não estão bem, sendo este plantel melhor, porque recebeu Laporte. Tem sido marcado por lesões. Só nos toca vencer perante um Sporting que trará a sua honradez, profissionalismo e qualidade, que vem para ganhar", afiança. "O ambiente que temos também entusiasma o rival, que ainda por cima, venceu o Paris-SG, a quem não ganha qualquer um. Também fizemos um bom jogo contra eles, ficou a zeros, mas ficamos com ideia que não perdemos por sorte, porque quando nos apertaram foi terrível", alerta Urtubi, tentando desempatar no clima de San Mamés um jogo de tripla. "Todo o mundo desfruta destes jogos na Europa, são bonitos e experiências incríveis. Se a equipa estivesse ao nível da época passada, ganhava certamente com a força dos adeptos. Agora é uma incógnita, os adeptos estão muito acima da equipa", argumenta Urtubi, 64 anos, sentindo o grito Danok Elkarrekin - vamos caminhar juntos - máxima de um jogo em San Mamés onde entra o País Basco em campo.


