
ENTREVISTA (Parte 4) - Sobre a passagem pelo campeonato brasileiro, técnico visa Evando e Marquinhos, dirigentes do Avaí, e considera que levou "disciplina, organização e hábitos de trabalho" ao clube de Florianópolis. E ainda fala de Jesus e Jesualdo
Jorge Jesus tem sido um ícone do futebol brasileiro...
"No Brasil quando se perde é um drama, em dois jogos é um terramoto..."
- Teve dificuldades no primeiro mês. É uma figura incontornável do futebol brasileiro, por muito que o queiram derreter, que nas conferências de Imprensa é arrogante e tal... a verdade é que ganha e cala-os. Temo que se um dia perder um ou dois jogos os que agora estão calados falem muito. É bom para ele o sucesso, para Portugal, mas tem de continuar a ganhar. Depressa vão esquecer-se nas vitórias.
Senão é derretido?
- Isso está no congelador. Mas tem boa equipa, bem trabalhada, os jogadores são muito unidos, houve um trabalho antes e os resultados ajudaram. Que continue a ser o que é. No Brasil quando se perde é um drama, em dois jogos é um terramoto. É um deus para os flamenguistas.
Drama é o que está a viver Jesualdo Ferreira no Santos?
- É o drama que vivi no Avaí. Como é possível que ao fim de 15 dias de trabalho tenha um jogo em que o jornalista lhe pergunte pela intensidade de jogo, comparando-a com o Sampaoli? Comparar 15 dias com meses de trabalho? Impensável. Não tem nexo. Irritou-se e eu teria respondido pior. Têm de lhe dar tempo para trabalhar. Espero que consiga ultrapassar os problemas no Santos.
Sente que há a intenção de inferiorizar o treinador estrangeiro no Brasil?
- O treinador estrangeiro tem responsabilidade maior. Não estão muito abertos a mudanças, como vi no Avaí.
Aves? "Gosto de pessoas que digam as coisas na cara. É a única mágoa que tenho"
O que é que não correu bem no Aves? Deixou a equipa na última posição, apenas com três pontos na Liga...
- No Aves saiu a equipa toda face à época passada. Tivemos de fazer um plantel novo com metade do orçamento, passou para 3,5 milhões de euros, tinha seis ou sete na última época. Houve problemas com jogadores, queríamos outro tipo de atletas, mas não havia recursos financeiros para os ter. Só ficou o Beunardeau e o Falcão. Os resultados começam a não aparecer e a desconfiança também. Eu próprio disse que era melhor uma mensagem nova para a equipa. E saí, tenho de defender o clube e os seus interesses. Só recebi até ao dia em que trabalhei. Tenho boa relação com todos, menos com o presidente do clube [Armando Silva].
Porquê?
- Gosto de pessoas que digam as coisas na cara. É a única mágoa que tenho. No trato é uma pessoa afável, mas não gosto que falem nas costas e não digam nada na cara.
Sentiu que houve algum boicote, digamos assim?
- Não é uma questão de boicote, é personalidade. Pode dizer o que quer na cara, sejam frontais. Foi para a Imprensa dizer que tinha de ir embora. Não gosto de gente hipócrita. Desejo é que o Aves fique na Liga, os adeptos são bons, apoiam, tem faltado sorte, como se viu com o V. Guimarães quando falham o penálti. Estão a fazer uma boa recuperação.
"Trabalho foi boicotado, mas deixei marca no Avaí"
Técnico português lembra que sempre "pensou pela própria cabeça" e lamenta não ter tido as "condições prometidas" para poder executar o trabalho que tinha planeado e o objetivo de chegar ao Brasileirão.
Surpreendeu a escolha do Avaí, da Série B brasileira, por parte de Augusto Inácio, que confessa ter-se sentido desafiado pela "curiosidade" de conhecer uma realidade "diferente". Pois bem, depois de sete jogos oficiais pelo clube e sem arrependimentos, o técnico defende que o seu trabalho "foi boicotado", apontando os nomes dos protagonistas do boicote ou "traição", como lhe chama.
Porquê a escolha do Avaí?
- Apresentaram-me a proposta, tinha curiosidade em perceber o contexto do futebol brasileiro e a sua realidade.
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Muitas dificuldades?
- Sim, muitas. A perspetiva era a de preparar a equipa para subir de divisão. Eles [no Avaí] dão muita importância à Recopa, que coloca frente a frente o vencedor do estadual e a taça do estado de Santa Catarina. Só que há uma desigualdade muito grande, o nosso adversário [Ferroviária] estava a treinar há mês e meio e nós com nove dias, com um plantel deficitário, precisava de reforços que chegaram tarde. Lutei muito para ter um extremo [Vinicius] e um ponta de lança [Gáston Rodriguez] que nunca cheguei a utilizar. Faltava também mais um médio e um central mais rápido. Queria fazer do Estadual uma preparação para a Série B, mas não tive tempo. No Avaí é tudo para ontem, assim é difícil trabalhar. E não tens gente à tua volta para ajudar. Se estavam à espera de um treinador para dizer ámen a tudo... fui para ali porque era diferente. Dizem que não me adaptei ao futebol brasileiro, eles é que não se adaptaram a mim. Eu adapto-me a tudo. Queriam decidir quem jogava. O presidente [Francisco Battistotti] é boa pessoa, mas dois diretores, um deles foi jogador do clube [Marquinhos] que não percebe nada e é um dos cancros que o clube tem ali dentro, um elemento da equipa técnica, o Evando, que é outro dos traidores. Para eles um jogador com nome nunca pode sair do campo. O meu trabalho foi boicotado e traído. O novo treinador [Rodrigo Santana] ou faz o que eles querem ou tem os dias contados. O Avaí não vai longe com aquela gente. Sei que deixei a minha marca.
O novo treinador [Rodrigo Santana] ou faz o que eles querem ou tem os dias contados"
Deixou a sua marca?
- Na disciplina, organização, hábitos de trabalho, cultura de exigência e cultura tática. Claro que a cultura tática deveria demorar muito mais tempo. No Avaí os jogadores queriam ter a bola no pé, no espaço é mentira. E defender é com os olhos!
Falou em inveja e ciumeira, referindo-se aos dirigentes do clube...
- Quando um diretor [Marquinhos] diz que chamei burros aos brasileiros, se ele acha que é burro é porque é burro mesmo. Nunca disse nada disso. Reflete o que pensam no Avaí. Há uma certa ciumeira e inveja naquele clube. Realmente o Jorge Jesus está a fazer um trabalho fantástico e por um treinador português estar a fazer um bom trabalho, acham que estão a ser diminuídos os treinadores brasileiros. O Marquinhos é que é burro.
Arrepende-se de ter aceitado a oferta?
- Não, foi enriquecedora. Saí, sei que o trabalho que estava a fazer ia dar resultado. Vivem do passado, contrataram jogadores pelo nome e o que fizeram a dois ou três anos. E o rendimento? É difícil trabalhar com esta mentalidade.
Ficou com possibilidade em aberto para voltar ao Brasil?
- Uma coisa sei: Estadual só serve para despedir treinadores. Se me disserem para voltar ao Brasil para treinar, só depois do Estadual. Só vou se tiver tempo para preparar a equipa, pelo menos um mês para entrar na competição.
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