"A UEFA não deixava e o presidente não podia continuar a meter 100/200 milhões de euros"

Luís Campos
Fábio Poço/Global Imagens
Luís Campos, diretor-desportivo do Lille, explica crescimento do clube francês a nível desportivo, infraestrutural e económico e aconselha a aumentar velocidade de crescimento em Portugal. E recorda a passagem pelo Mónaco com Leonardo Jardim
Luís Campos, diretor.desportivo do Lille, explicou esta quarta-feira no "World Scouting Congress", que decorre num hotel da cidade do Porto, como foi possível o crescimento desportivo, infraestrutural e económico do clube francês onde trabalha há pouco mais de dois anos, recordando também o trabalho efetuado no Mónaco.
"Tivemos problemas com o fair-play financeiro no Mónaco. A UEFA não nos deixava continuar, o presidente não podia continuar a meter 100/200 milhões de euros em compras no Mónaco. No dia 18 de agosto estava com o Leonardo Jardim e tivemos uma reunião em que foi dito que não podia ser investido nem mais um euro na equipa. A solução encontrada foi fácil, à partida, mas foi baseada num excelente trabalho de scouting: tínhamos que comprar barato e vender caro. Não me importei muito com os direitos de televisão. Preocupei-me muito com os jogadores que me permitissem encontrar uma base económica, construir um complexo de treinos, um centro de alto rendimento, ter uma equipa técnica, uma estrutura sólida e encontrar jogadores que podiam ser uma mais-valia e com três tipos de velocidade: a velocidade de adaptação, que diz respeito ao apoio que devemos dar aos jogadores, como terem aulas de francês, sentirem o apoio às famílias, para que se dedicassem em exclusivo ao treino. A segunda velocidade é a velocidade de maturação do jogador. Os jogadores na minha opinião são muito menos maduros do que há uns anos, tem a ver com a educação nos clubes e nas escolas. A terceira velocidade é a da oportunidade, que passa pela política desportiva do clube. E no Mónaco, tal como agora no Lille, passa muito por dar oportunidade de jogar aos jovens talentos. Se atingirem essa maturidade vão rapidamente chegar a um patamar que nos permite vender. Em dois anos e três meses já conseguimos ir agora ao mercado de 15 milhões de euros, quando antes só conseguíamos ir ao mercado de três milhões", revelou o antigo treinador de Beira-Mar, Varzim, Vitória de Setúbal, Santa Clara, entre outros.
"Fizemos um trabalho excecional", defendeu. "O Lille tinha algumas centenas de milhões de dívidas e este ano reduzimos o passivo em mais de metade. O Mónaco não conseguia continuar com a política do problema de fair-play financeiro. Em três anos fez 989 milhões de euros de vendas, sendo 700 milhões de mais-valias. É esta a mensagem que passo aos que trabalham no futebol. É possível nesta indústria conciliar bons resultados desportivos - é essa a base para o qual trabalhámos - com bons resultados económicos. Este é um pais de altíssimo talento, de futebol, onde os scouts gostam de vir e os clubes têm que aproveitar mais e melhor as pessoas do futebol e com capacidade nestas áreas", referiu Luís Campos no painel "gestão de ativos no futebol" onde também participaram Miguel Ribeiro, presidente da SAD do Famalicão, e Carlos Freitas, diretor-geral para o futebol da SAD do Vitória de Guimarães.
"No futebol existem diferentes níveis de mercado. É muito fácil dizer qual é o mercado que compra melhor. Todos nós sabemos que o mercado inglês, italiano, alemão pagam melhor, são mercados que se podem atingir valores altos. Há uma grande diferença entre sobreviver e saber viver. Temos que aumentar em Portugal a velocidade de crescimento, há um exemplo do Famalicão que muda o paradigma do futebol português. O mercado português começa a compreender o mercado que já havia antes no resto da Europa e no resto do mundo com o aparecimento de novos investidores, gente com muito dinheiro, se for bem gerido, ajuda os clubes a pagara bem aos seus jogadores, aos seus funcionários, aos seus treinadores", completou Luís Campos.
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