"Era o único na formação da Académica que ganhava algum dinheiro, mas por ter muita necessidade"

"Era o único na formação da Académica que ganhava algum dinheiro, mas por ter muita necessidade"

Declarações de Sérgio Conceição no Report TV, da Sport TV, a respeito da descida de divisão da Académica.

Início na Académica: "Tenho de ter gratidão pela Académica. Lembro-me que era o único jogador da formação que ganhava algum dinheiro porque me davam, não por ter um contrato profissional, mas por ter muita necessidade. Ter alguma capacidade financeira para, no mínimo, comprar os livros e ter a possibilidade de estudar. E isso é inesquecível. Lembro-me de ir com o meu pai de motoreta à antiga sede da Académica, ao fim do mês, para levantar os 15 contos - 75 euros - que eles davam para ajudar a comprar material escolar e era uma boa ajuda para a nossa família, porque muitas vezes também servia para os bens essenciais que necessitávamos, porque éramos uma família com grande dificuldade. E isso fica-me marcado na minha memória e no meu coração."

Ser treinador da Académica: "Por um pouco, um pouquinho mesmo, que não tive a possibilidade de jogar como sénior na Académica. Numa altura em que regressei do Kuwait, estive até à última. Houve aí um ou outro mal entendido que não me permitiu jogar nos seniores da Académica e que era o meu sonho. Sonho ainda maior, a partir do momento em que abracei a carreira de treinador, era treinar a Académica. E esse regressar a Coimbra e poder retribuir um bocadinho do que foram essas atitudes que tiveram para comigo, penso que foi o mínimo que podia dar. Mínimo, porque sou uma pessoa verdadeiramente apaixonada pelo meu trabalho e dou o máximo. E com a Académica juntei muito do que faço hoje aqui [FC Porto] hoje. A vertente mais emocional, esse coração ao lado desse discernimento e inteligência que temos de ter como treinadores."

Descida da Académica: "O meu sentimento foi de um vazio. É uma sensação estranha, de alguma tristeza, associada ali a um vazio, a alguma revolta por ver cair na III Divisão um clube como a Briosa. Senti e daí as afirmações que fiz, bem como uma publicação nas redes sociais."

Palavras no momento da descida: "Era um bocadinho para mexer com as pessoas, sem dúvida nenhuma, mas era, principalmente, o meu sentimento. Tenho um respeito enorme pelo que é a faculdade, pelas pessoas que andavam na faculdade e que se formavam, e são muitas, muitas delas enquanto jogavam na Académica, mas esse tempo já passou. Existem muitos sócios, simpatizantes e adeptos da Académica que não são formados. E tem de haver um equilíbrio entre o peso, a história e o simbolismo do que é a Académica e também toda as outras pessoas que amam a Académica e que não tiveram um trajeto académico de acordo com o que há muitos anos atrás se vivia. Os tempos são outros e, se queremos ver uma Académica forte, moderna, que possa competir ao mais alto nível na I Liga, tem que haver um projeto onde não se possa olhar tanto a isso. Que isso esteja sempre presente, estou completamente de acordo. Agora, tem que haver gente profissional a abraçar esse novo projeto da Académica e isso é absolutamente necessário."

Disponível para ajudar: "Ajudar a Académica naquilo que as pessoas pensarem em que eu seja mais útil. Não o digo pela primeira vez. E não falo da questão do dinheiro, porque muitas pessoas associam isso ao dinheiro. Isso é importante, obviamente que sim, mas não é só isso que é importante. O que quero dizer com isto, é que estou disponível para falar com as pessoas, dada alguma experiência e conhecimento que tenho deste mundo do futebol, que não é fácil, de poder retirar algumas situações que são importantes para uma situação destas."

Académica: "É o símbolo que sei desenhar de forma perfeita. Olho para ele e transmite-me um sentimento único, de quem viveu e continua a viver a cidade, principalmente o clube, de uma forma muito apaixonada. Sou um academista de gema e serei para sempre, porque serei eternamente grato à Académica."