Premium Raphinha em entrevista a O JOGO: "Abraçámos todos a causa do Nani"

Raphinha em entrevista a O JOGO: "Abraçámos todos a causa do Nani"
Bruno Fernandes/Rui Miguel Gomes

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Pré-época atípica, lesões de jogadores importantes como Mathieu ou Bas Dost, mas uma vontade incrível de demonstrar qualidade. Eis Raphinha na primeira grande entrevista desde que veste de leão ao peito.

Chegar ao topo é o pensamento que reina no Sporting. É verdade que existem condicionantes, mas também uma grande vontade de evoluir.

O Sporting vem de uma pesada derrota (4-2) em Portimão. Como caiu este resultado no grupo?

- É sempre muito complicado perder, ainda mais por 4-2, com um resultado um pouco "elástico". Ninguém gosta de sofrer tantos golos num jogo. Acaba por ser um pouco revoltante, mas são coisas do futebol - infelizmente acontecem. Vamos para dentro de campo para disputar qualquer resultado, pois queremos sempre vencer, mas o empate e a derrota também acontecem... Acabámos por perder com um resultado em que sofremos muitos golos, mas o campeonato ainda é longo e há muita coisa para acontecer. Vamos continuar a trabalhar para conseguirmos as vitórias que pretendemos.

É mau este período de paragem? Era desejo do grupo jogar de imediato para reagir ao mau resultado de Portimão?

- Vimos de uma sequência de jogos muito pesada, viagens longas e acredito que esta paragem seja boa para descansarmos um pouco e voltarmos melhor para o campeonato.

José Peseiro tem pedido calma, vincando que este Sporting tem potencial, mas que tem de evoluir "passo a passo". Acreditam que podem, mesmo perante todas as circunstâncias que envolveram a preparação da época, conquistar o título?

- O campeonato está apenas no início, temos quatro pontos de diferença para o líder e, como disse, muita coisa pode acontecer. Tudo é possível!

Sente que o Sporting luta com as mesmas armas dos rivais, Benfica e FC Porto?

- Cada um luta com o que tem. Nós temos as nossas armas e eles as deles. Com as nossas armas, vamos fazer o possível para chegar lá acima.

Conhece bem a zona e o clube: coloca o Braga na corrida por este título?

- Tem uma equipa muito forte, organizada, está sempre a lutar pelas competições europeias e não ficaria surpreendido se lutasse pelo título.

Além desse contexto invulgar que envolveu a preparação da época, o Sporting tem tido várias baixas, de jogadores importantes, como Bas Dost e Mathieu. Crê que os seus regressos ajudarão a melhorar o vosso futebol?

- Estamos a falar de jogadores de muita qualidade, mas temos outros que podem corresponder à altura, como são os casos de Montero e André Pinto. Com certeza que quando voltarem de lesão vão ajudar muito o grupo, tal como o Montero e o André Pinto têm feito.

Sente que a equipa está demasiado condicionada pela pré-temporada atípica e que isso se tem refletido no arranque de temporada em termos físicos?

- Como tivemos uma sequência de jogos seguidos, isso acabou por pesar um pouco, o corpo acaba por sentir isso. Chega uma altura em que surgem as lesões e isso complica.

Montero tem feito alguns golos - três nos últimos três jogos -, mas ter Bas Dost não traz outro estilo de jogo?

- Têm características diferentes. O Montero segura mais a bola, gosta de tê-la no pé para apoiar, enquanto o Bas Dost a recebe mais na área, para ganhar de cabeça. São jogadores com características diferentes que podem ajudar a equipa.

"ABRAÇÁMOS TODOS A CAUSA DO NANI"

Nani é importante, mas não é só o capitão que dá tarimba a este Sporting. Bruno Fernandes, Coates, Bas Dost e Mathieu são, segundo o extremo, essenciais num grupo que teve várias baixas.

Recentemente, Nani, pelo episódio que se passou em Braga, foi afastado momentaneamente por Peseiro. Voltou e disse que o que aconteceu deve "servir de exemplo" para todos os jogadores. Como é que o grupo reagiu a esse facto?

- Para dizer a verdade, nem sabia que tinha acontecido. Fiquei a saber durante a semana. Mas foi resolvido. O míster conversou com os jogadores, o Nani conversou com os jogadores e abraçámos todos a causa do Nani. Foi resolvido da melhor maneira possível.

Sente em Nani o líder ideal para o plantel do Sporting?

- Não só o Nani, mas também o Bruno [Fernandes], o Seba [Coates], o Bas [Dost] e até mesmo o Mathieu. São jogadores muito experientes que ajudam sempre os mais novos.

Portanto, é um plantel do Sporting bem entregue?

- Sem dúvida. Eles sabem o que se passa no futebol e estão a ajudar quem está a começar, como é o meu caso, como é o caso do Jovane também.

Quando chegou ao Sporting, o ataque à Academia ainda era um assunto "quente". Sentiu alguma retração dos jogadores que passaram pelo episódio?

- Quando cheguei, esperava que o ambiente estivesse um pouco mais tenso, mas não, os jogadores estavam todos tranquilos. As pessoas do staff passaram-nos muita confiança e os jogadores ficaram supertranquilos. O que passou, passou, e a vida segue em frente.

Também assistiu à reentrada de Battaglia, Bruno Fernandes e Bas Dost, três dos jogadores que rescindiram. Como é que o grupo os recebeu e como é que todos reagiram por voltarem ao sítio onde se passou um dos episódios mais marcantes da história do clube?

- São três jogadores de muita qualidade e acho que estamos todos de acordo nesse sentido. Para o grupo, todos os jogadores que vêm para acrescentar são sempre bem-vindos e com eles não foi diferente.

Mas sentiu que algum deles chegou ainda marcado com o que aconteceu?

- O que aconteceu na Academia foi grave e sem dúvida que deixa marcas. Mas todos os jogadores tentaram abstrair-se da melhor forma possível. Resume-se a isso.

Passou por uma situação idêntica no V. Guimarães... Cerca de 30 adeptos invadiram o treino e foi noticiado que houve agressões a jogadores. Foi um episódio tão grave como aquele que se passou na Academia Sporting?

- Infelizmente são coisas que acontecem: não só aqui, mas também no Brasil. São episódios lamentáveis que não estamos à espera que aconteçam no futebol. O futebol é um espetáculo, quer para quem está dentro quer para quem está fora. O que aconteceu foi lamentável e espero que não aconteça mais.

Qual foi a sua reação nesse momento? Qual foi a reação do grupo a esse momento? Alguém equacionou avançar para uma rescisão alegando justa causa, como aconteceu no Sporting?

- É complicado... Estás lá e não esperas que isso vá acontecer. Quando acontece, não tens reação e ficas à espera do que vai acontecer, do que é que [os adeptos] vão dizer... Foi uma situação complicada... Mas graças a Deus que acabou por não acontecer nada de grave. Isso aconteceu devido aos resultados, que não estavam a ser os melhores. Faz, infelizmente, parte do futebol.

"SEI QUE O JOVANE VAI CHEGAR LONGE"

Acusou algum "toque" nas primeiras semanas por ter dado o salto para um "grande" do futebol português? Sente uma pressão extra face ao que tinha no Vitória de Guimarães?

- Desde que comecei a jogar futebol que procuro chegar aos principais clubes e aqui, em Portugal, não foi diferente. No Vitória de Guimarães, há muita pressão interna, dos adeptos, mas no Sporting é diferente. É outro sentimento, podemos ver que estou num patamar diferente. Estou contente por estar no patamar onde estou.

Quem são os seus principais apoios no plantel?

- Sempre que chego a um clube novo, procuro dar-me bem com todos os jogadores e no Sporting aconteceu isso. Quando cheguei, o Jefferson deu-me muito apoio. Aliás, é alguém que me dá muitos conselhos. Ele e Bruno Fernandes são essenciais para poder evoluir mais como futebolista.

E com que jogador tem aprendido mais?

- Entre os mais experientes, converso bastante com o Coates e Acuña. Têm-me ajudado muito na adaptação a esta realidade.

E quem é o jogador que mais admira neste grupo?

- Todos! Não consigo colocar ninguém acima.

As redes sociais mostram que está sempre muito divertido com o Bruno Fernandes. Ele desafia-o? Vimos, por exemplo, antes do dérbi, um jogo que era colocar a bola na baliza estando atrás da mesma...

- Procuramos divertirmo-nos, deixando o ambiente o menos tenso possível. Estamos sempre a desafiarmo-nos.

Quem ganha mais vezes?

- Está igual! [risos]

E quem foi o jogador que mais o impressionou?

- É difícil dizer. Todos os jogadores num clube grande têm muita qualidade, cada um com as suas características.

O Jovane, por exemplo, tem sido um dos destaques. Pensava que poderia assumir um papel tão decisivo em tantos jogos?

- Fizemos a pré-época e vi que tinha muita qualidade, vontade. Já demonstrava o que tem feito dentro do campo, apesar da idade. Sei que vai conseguir chegar muito longe.

"ELOGIOS DE RONALDINHO DÃO RESPONSABILIDADE

Ronaldinho é amigo e já deixou claro que vê em Raphinha potencial para se tornar um craque. Uma "responsabilidade" extra para o jovem extremo. Afinal, as palavras vêm do seu ídolo de infância, que esteve sempre muito próximo da família.

Através de O JOGO, recebeu um elogio muito especial: Ronaldinho, um dos seus ídolos de infância, garantiu que vai ter "uma carreira incrível". Como reagiu a estas palavras?

- Para mim, o Ronaldinho sempre foi uma grande inspiração, por ter vindo de onde eu venho, do mesmo bairro, por ser muito próximo da minha família. Não há palavras que expliquem o sentimento, é uma felicidade. É o melhor do mundo a falar de mim! Fiquei muito feliz, espero corresponder!

As palavras trazem maior responsabilidade ou motivação?

- Um pouco de cada! Mas uma responsabilidade grande que espero contribuir dentro de campo.

Pode contar-nos o porquê de a sua família e a de Ronaldinho serem tão próximas?

- Somos do mesmo bairro [Restinga, na zona Sul de Porto Alegre], o Ronaldinho nasceu lá e criou-se com o meu pai. Desde pequenos que eles brincavam juntos e cresceram. Volta e meia, o meu pai estava com ele. Quando Ronaldinho foi para Paris, Barcelona, Milão, o meu pai esteve sempre presente.

Sabemos que, além do Ronaldinho, também admira o Neymar...

- Vejo-me muito parecido com o futebol dele, quer no porte físico como velocidade. Admiro-o muito por isso, o que faz dentro de campo com a bola é um absurdo. Vejo-me um jogador com características muito próximas das dele.

Como é que era o Raphinha em criança? Como é que cresceu e como é que se deu a sua ascensão?

- Desde que me lembro que o meu brinquedo favorito é a bola. Tinha uma coleção delas, cada uma diferente da outra. Não fazia outra coisa que não fosse jogar: jogava na rua, nos campinhos, buscando sempre jogar num clube. Isso só foi possível aos 17 anos. A minha maior paixão sempre foi a bola e o futebol. Não saberia fazer outra coisa.

Qual foi o maior sacrifício que fez para ser jogador de futebol?

- Fiz muitos sacrifícios... Mas num determinado momento tive de abandonar a escola para seguir o meu sonho. Ou continuava a estudar ou seguia atrás dos meus sonhos. Segui atrás dos meus sonhos e deu tudo certo.

Hoje, o melhor presente que lhe podem dar ainda é a bola?

- O melhor presente é sempre a vitória. E uma atrás da outra, acabando a ganhar o título, vai ser o melhor presente!

"DECO DIZ-ME PARA TRABALHAR FORTE"

Para quem não o conhece, o que nos pode contar sobre a sua ascensão no futebol? Sabemos que começou a jogar no Estado de Porto Alegre e que despontou, primeiro, no Avaí...

- Joguei em algumas equipas de formação no Brasil, até chegar à formação do Avaí, onde fiz um bom trabalho. Foi onde conheci o Deco, conversámos, chegámos a um acordo e disse-me que tinha um projeto para mim no Vitória de Guimarães. Não pensei duas vezes, abracei esse projeto e vim para a Europa, para a equipa B do Vitória de Guimarães. Trabalhei, conquistei o meu espaço e passados seis meses fui chamado para fazer a pré-temporada com a equipa principal.

Que reação teve quando foi abordado pelo Deco?

- Não havia muito que pensar. No primeiro contacto com ele, praticamente não disse uma palavra. Fiquei só a olhar para ele. Hoje em dia, dá-me muitos conselhos e temos mais intimidade. No dia em que o vi, foi uma mistura de sentimentos, felicidade.

É o seu representante e, como disse, criaram uma relação próxima. Que conselhos lhe dá o Deco?

- Que o mais importante é trabalhar forte os treinos, que o treino é o reflexo no jogo. Para não deixar de evoluir a cada dia que passa.