Gelson, o agitador que imita fintas de Robinho

Gelson, o agitador que imita fintas de Robinho

Aprendeu a imitar as fintas de Robinho com pedras e vasos de barro. Agora encara os rivais sem medo e nem à pancada responde

Foi a observar e copiar os gestos técnicos de Robinho - nos anos em que o internacional brasileiro representou o Real Madrid -, com pedras e vasos como "cobaias" para as suas fintas, em Cabo Verde e, mais tarde, já em Portugal, no popular Fofó (Futebol Benfica), a "aguentar porrada" quando trocava os olhos aos defesas, que Gelson Martins se começou a tornar no talento que acaba de ser galardoado com o Prémio Stromp para o jogador-revelação do Sporting em 2015. O miúdo que tem deslumbrado Jorge Jesus e Bruno de Carvalho com o seu futebol de rua, como o técnico já o catalogou, chegou a Portugal com oito anos e despertou a cobiça de Benfica e Sporting, acabando por ser os leões a recrutá-lo a meio da temporada 2010/11, a troco de mil euros. O JOGO revisitou as suas raízes para conhecer melhor a história de Gelson, um rapaz discreto, recordado como muito educado e calado, que só falava com a bola nos pés, como agora faz quando Jesus recorre ao 60 para agitar os jogos.

"Em termos de comportamento, passava completamente despercebido, calminho e tranquilo. Daí que nem chegámos a conhecer a família, pois nunca houve essa necessidade, ele nunca se meteu em problemas. Vinha sozinho a pé para os treinos e o engraçado é que falava bem português, quando os que chegam há pouco tempo de Cabo Verde normalmente falam mal português e usam mais o crioulo", lembra Domingos Estanislau, o presidente do Fofó, emblema lisboeta muito popular, que beneficia da proximidade de bairros pobres e problemáticos para recrutar jovens com particular talento para o futebol, sobretudo com origens africanas.

Desde pequeno que Gelson Martins assumiu a paixão pelo futebol. "Quando comecei a jogar, perdia-me em habilidades", explicou no sítio da FPF antes de rumar ao Europeu de sub-19 ao serviço de Portugal, em 2014. "Via o Robinho na televisão quando estava em Cabo Verde e tentava imitar cada gesto, cada toque, e era rápido como ele. Fintava outros rapazes na rua, driblava pedras e até vasos de barro", acrescentou.

Seguiu-se a vinda para Portugal com a família, à procura de uma vida melhor. Começou a jogar nos parques da zona até aparecer nos treinos do Fofó. Tomás Correia (foto 2, ao lado), guarda-redes daquele emblema que jogou com Gelson Martins, lembra-se perfeitamente da personalidade introvertida do agora leão e do potencial que já na altura revelava. "Já dava para ver que se realçava, tinha muita qualidade. Mas não conseguíamos prever onde podia chegar, éramos ainda crianças. Era franzino e já era "fintinhas" na altura. Mas sabia pausar o jogo, tinha inteligência acima da média em campo e decidiu muitos jogos. Era muito ágil, encarava no um para um. Também tinha coisas de Ronaldinho e era ele que batia os livres e os cantos. Mas não era nada falador! Zero! Nem protestava quando sofria falta, sabia levar e conter-se, era moderado e sempre foi muito educado", recorda. Domingos Estanislau confirma o temperamento calmo: "Aguentava-se bem à porrada."