Como é que Pereira Cristóvão tentou incriminar José Cardinal

Como é que Pereira Cristóvão tentou incriminar José Cardinal

Ex-dirigente do Sporting tentou convencer a Polícia Judiciária que o árbitro assistente havia sido protagonista de uma prática de corrupção.

Paulo Pereira Cristóvão foi minucioso na tentativa de culpabilizar o árbitro assistente José Cardinal de falsas práticas de corrupção. De acordo com o acórdão do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, o ex-dirigente do Sporting foi exaustivamente investigado e a conclusão final não deixou margem para dúvidas: foi o único autor do plano.

Tudo começou com a criação de uma base de dados de todos os árbitros. O primeiro passo foi solicitar a Eurico Gomes, funcionário da SAD do Sporting, uma lista de todos os árbitros e assistentes habilitados para dirigir jogos da Liga; depois, por intermédio de uma funcionária da Autoridade Tributária casada com um amigo, teve acesso a informações adicionais, tais como número de contribuinte, rendimentos, NIB, bens móveis e imóveis e identificação do cônjuge de todos os árbitros e assistentes.

Estando na posse de tanta informação privilegiada, Paulo Pereira Cristóvão montou um esquema para que José Cardinal não apitasse o jogo Marítimo-Sporting, dos quartos de final da Taça de Portugal, disputado a 16 de dezembro de 2011, porque não havia esquecido um empate em casa com a Olhanense, na primeira jornada, marcado por um eventual penálti não assinalado a favor dos leões, assim como a derrota na final da Taça da Liga, com um penálti polémico assinalado a Pedro Silva. A estratégia consistiria em depositar dinheiro na conta do árbitro assistente para o incriminar de corrupção, solicitando então 1236 euros ao departamento de Património e Marketing do clube de Alvalade.

De seguida, instruiu Rui Martins, seu antigo funcionário, para que viajasse para o Funchal, onde procederia a um depósito de dois mil euros na conta de José Cardinal. Mal se apercebeu do depósito, José Cardinal pediu, no entanto, escusa do jogo Marítimo-Sporting, optando por doar a referida quantia à Associação de Paralisia Cerebral do Porto.

No dia seguinte, Pereira Cristóvão aguardou o presidente Godinho Lopes para lhe entregar um envelope com seguinte mensagem: "Senhor doutor Godinho Lopes, o senhor é sério e merece a informação. Estou farta de privar com um homem que vive na podridão e na corrupção. Veja um exemplo da impoluta equipa de arbitragem que vai ter no jogo do Marítimo. Acho que o resto tem a mesma tabela. Não interessa quem sou e só me interessa que o senhor ajude a limpar este lixo da sociedade. Faça o que quiser com esta prova que me chegou às mãos". Pouco depois, Fernando Gomes, o presidente da FPF, era informado da situação pelo presidente do Sporting.

O último passo de Pereira Cristóvão foi ligar a Pedro Fonseca, o Coordenador da Unidade de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária, para lhe dar conta do envelope e respetivo conteúdo, ao mesmo tempo que Fernando Gomes remetia o envelope recebido por Godinho Lopes para a Polícia Judiciária e para a Procuradoria-Geral da República.

Tais procedimentos acabaram, porém, por ser descobertos e o plano do ex-dirigente foi por água abaixo.