"Um senhor de certa idade deu um 'ai' abafado e morreu ao meu lado. Fiquei chocado"

"Um senhor de certa idade deu um 'ai' abafado e morreu ao meu lado. Fiquei chocado"
Bruno Filipe Monteiro

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ENTREVISTA - Matos Fernandes falou a O JOGO antes de deixar a MAG do FC Porto e, entre várias reflexões, falou sobre a paixão pelo clube azul e branco. Veja o que disse e siga as ligações para ler a conversa na íntegra.

Sofre muito nos jogos?

-A cada ano que passa o sofrimento aumenta. É uma estupidez, mas não me consigo controlar. Em casa é pior, mas mesmo no estádio sofro muito. Enquanto o jogo não acaba, estou sempre angustiado. Mas não sou só eu. Ao meu lado há quem não esteja melhor. [risos] Se fosse inteligente, que não sou, proibia-me de ver os jogos, porque é muito provável que um dia não aguente. Tenho má genética, porque o meu pai era um portista fantástico, doente também. Comecei a ir ao futebol com ano e meio, praticamente aprendi a andar na Constituição, onde o meu filho andou pela primeira vez sem cair, de um poste ao outro da baliza. Foi injusto que o meu pai tenha morrido dois anos antes de Viena. O meu primeiro pensamento foi para ele, porque a vida tinha sido cruel em lhe ter negado essa fantástica alegria.

Lembra-se como festejou o primeiro título?

-Nem pude festejar, porque estávamos em pé, tal era a multidão que enchia o Estádio das Antas, e um senhor de certa idade, quando o FC Porto fez o 1-0, já a meio da segunda parte, num jogo dificílimo contra a Académica [1955/56], deu um "ai" abafado e morreu ao meu lado. Não o conhecia de lado nenhum, estávamos ali ombro com ombro, em pé, fez-se uma pequena clareira, veio um médico e declarou-o como morto. Foi a emoção. Foi uma primeira vitória que me amargou bastante por causa disso. Fiquei chocado.