"O Sporting seria campeão com o peso da pressão dos adeptos em Alvalade?"

"O Sporting seria campeão com o peso da pressão dos adeptos em Alvalade?"

VELUDO AZUL - A opinião de Miguel Guedes, aos domingos n'O JOGO.

Jejum que é jejum não passa dos 20, chega aos 19 anos e ganha uma fome voraz, capaz de dobrar todas as tormentas e enfrentar todas as probabilidades.

Essa é a lição que dois séculos de futebol português entregam de bandeja, servida com traços de destino comensal. Foi assim em 77/78, século XX, quando Ademir empata o clássico contra o Benfica perto do fim do jogo e mantém a distância de um ponto para o rival, a 2 jornadas do fim. Nem o empate frente à Académica, na penúltima jornada, retiraria o título de campeão ao FC Porto de José Maria Pedroto, confirmado - nas Antas - com uma goleada ao Braga. Foi assim em 20/21, século XXI, quando Matheus Nunes marca o golo da vitória em Braga no momento em que o Sporting jogava com 10, retirando a equipa da espiral negativa da perda de pontos dos 3 empates de abril (Moreirense, Famalicão, Belenenses) que ameaçava o título leonino, nunca assumido por Rúben Amorim, mas que se anunciava desde que empatou no Dragão em Fevereiro, mantendo os 10 pontos de vantagem sobre o FC Porto.

A eficácia defensiva do Sporting foi notável e apontou o foco a um herói improvável. Coates, rei dos autogolos da época passada e por muitos acusado de ser responsável pela lentidão e apatia da defensiva leonina, acabou por ser o peso específico de solidez e o dínamo aéreo ofensivo em muitos momentos de aperto da equipa. Diz-se que não há campeões sem estrelinha e este ano não foi exceção: o Sporting ganha muitos dos seus jogos "in extremis", com golos marcados nos últimos momentos do jogo, num misto de crença, vontade e sortilégio. A verdade é que passou quase sempre a ideia de jogar um futebol livre, inquieto, mas liberto de pressão, responsável e equilibrado. Difícil de desmontar, como ficou patente na dificuldade que criou em todos os seus adversários. Chegar a campeão sem derrotas é um feito que nema derrota, já campeão, apaga. Mas chegar ao fim invicto, após o 25 de Abril, não é para todos.

Adaptando a canção dos adeptos, "só o Sporting sabe porque fica em casa". No recato do lar, o Sporting sofreu a única derrota da época (frente ao LASK, no "play-off" de acesso à Liga Europa) e daí construiu, inadvertidamente, a sua grande força. Com tempo para treinar, com descanso nas pernas, eliminado da Taça de Portugal no início de Janeiro, o Sporting percebeu o desgaste do FC Porto e a falta de fiabilidade do Benfica. Apesar de só ter ganho um dos clássicos (em Alvalade, frente ao Benfica), foi sempre um manifesto de estabilidade enquanto encolhia os ombros e ia andando. E assim foi. Sem a pressão dos adeptos em Alvalade, outro momento irrepetível, e que marcará uma das suas grandes dúvidas existenciais: o Sporting seria campeão com o peso da pressão e das habituais dissensões dos seus adeptos em Alvalade?

100 milhões vs. 25.ª Liga dos Campeões

O Benfica foi o sexto clube mundial que mais investiu em contratações nesta temporada mas, segundo Jorge Jesus, ainda não sabe defender resultados após mais de 50 jogos esta época. O terceiro lugar ajusta-se. Contra o Rio Ave, o FC Porto parece confirmar a ideia de que com Taremi e Toni Martínez, a equipa é capaz de fazer mais golos. Garantiu o acesso directo à Liga dos Campeões, onde estará pela 25.ª vez (mais presenças, só Barcelona e Real Madrid, com 26). Também a sua casa. Sente-se que a equipa acaba a temporada numa lógica de compromisso e convencida de que podia ter escrito uma história diferente na Liga.