Nélson Puga: "Covid-19? Sabemos que no Olival ninguém vai passar nada a ninguém"

Nélson Puga: "Covid-19? Sabemos que no Olival ninguém vai passar nada a ninguém"
Bruno Filipe Monteiro

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Médico do FC Porto fez um balanço de um ano de covid-19 em Portugal.

Numa altura em que se assinala um ano sobre o registo dos primeiros casos de covid-19 em Portugal, Nélson Puga, médico do FC Porto fez um balanço do impacto da pandemia no clube e no futebol.

Em declarações à FC Porto TV, o clínico recordou a forma como o emblema azul e branco lidou com o surgimento do vírus na sociedade portuguesa e explicou os procedimentos que foram sendo tomados, de forma gradual, pela estrutura dos dragões.

"A 2 de março de 2020 estávamos nos Açores, surgiram os dois primeiros casos [de covid-19] reportados em Portugal, ganhámos ao Santa Clara e passámos para o primeiro lugar do campeonato. Foi um momento que não vou esquecer mais. Para mim, foi absolutamente impensável poder preparar uma guerra contra um vírus, ainda por cima invisível. Isto deixou-nos com a necessidade de refletir e balizar as prioridades das nossas vidas", começou por referir Nélson Puga, prosseguindo:

"O apoio superior que tivemos do presidente, dos diretores, da administração foi fundamental para que, depois, pudéssemos ter liberdade para decidir. E, depois, do treinador e da equipa técnica, com quem estivemos em comunicação permanente, muito estreita e muito forte, que nos deram a possibilidade de evitar esses problemas e, quando eles surgiam, poder atacá-los de uma forma precoce e resolvê-los bem. Depois também tivemos [a ajuda] de mais uma série de outras pessoas, umas mais anónimas do que outras. Nessa altura, foi incrível a solidariedade de todos, porque todos quiseram trabalhar e ajudar muito. Informação, verdade e comunicação permanente. Isso foi o aspeto mais importante e decisivo. Temos de informá-los com rigor, com verdade e estar em permanente comunicação. Isso é o segredo, tanto nisto, como noutras coisas da vida", explicou o médico dos portistas, dando a conhecer a evolução de procedimentos aquando da preparação do regresso à competição.

"Fomos evoluindo semana a semana. Primeiro, os atletas vinham equipados de casa e iam tomar banho a casa. Depois, começámos a utilizar vários balneários, ou seja, começaram a utilizar as instalações, mas muito separados. Depois, na fase seguinte, começámos a retomar as refeições, como fazíamos anteriormente, mas com muitos mais cuidados, porque percebemos que essa era a fase mais crítica em termos de contágio, porque é a fase que se tiram as máscaras e, se alguém estiver infetado, passar as outros. Portanto, foram fases em que fomos adquirindo confiança e passando a ideia aos demais para ir evoluindo até chegarmos ao primeiro estágio e primeiro jogo. Foi estranho, porque o hotel também estava fechado e mudámos todos os procedimentos. Todos ficámos em quartos individuais, mudámos para salas muito maiores para que existisse a capacidade de distanciar as pessoas; os procedimentos alimentares tiveram, e têm, um rigor brutal; mudámos de piso, para que não utilizássemos os elevadores... Procurámos, no fundo, minimizar ao máximo o risco que pudesse existir. Ao fim de uma semana, inclusive os que eram mais céticos, que mostraram maior preocupação ou colocavam mais perguntas, já se sentiam confiantes e diziam-nos que estavam tranquilos. Sabemos que no Olival ninguém vai passar nada a ninguém, o que possa acontecer é vindo de fora", garantiu Nélson Puga, antes de deixar uma mensagem de esperança para o futuro.

"Como costumo dizer, mesmo quando alguém se queixa, cuidado que há gente pior do que nós. Gente que esteve doente, que perdeu familiares, que perdeu amigos e que aqueles que vivem na linha da frente, enfrentando uma luta muito maior, sofrem muito mais e têm muito mais responsabilidade e ainda viram quando isto acabar. A ansiedade do desconhecido, não se percebendo quando é que isto acaba, é um factor stressante muito grande. Mas tenho pensamento positivo e acho que a pouco e pouco isto vai melhorar e há-de acabar", rematou.