"Nakajima meteu na cabeça que não podia sair de casa e recusava-se a ir treinar"

"Nakajima meteu na cabeça que não podia sair de casa e recusava-se a ir treinar"
Carlos Gouveia

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Pinto da Costa recordou os três títulos conquistados em plena pandemia e sem adeptos, em mais um episódio do programa "Ironias do Destino", do Porto Canal.

Equipa continuou a treinar, ao contrário de outras: "Quando houve a interrupção do campeonato, após um jogo [Rio Ave] em que podíamos ter passado para a frente, mas, fruto de uma má arbitragem, empatámos. Tínhamos a noção de que a época não terminaria daquela maneira, acreditávamos que ainda ia haver jogo, havia muita gente a forçar que acabasse. Chegou a haver um inteligente que veio defender que não devia haver campeão nesse ano, que devia ser o campeão anterior, que por acaso era o Benfica. A equipa continuou a treinar normalmente, mesmo quando foi imposto o recolher obrigatório, todos tinham um plano de trabalho e seguiam à risca. Houve um cuidado extremo com a alimentação. Quando foi permitido treinar em conjunto, a equipa apresentou-se como se nada tivesse acontecido, os índices físicos estavam iguais a quando a época foi interrompida, e isso foi muito importante porque nessa fase final apenas perdermos um jogo e depois encarreirámos e vencemos todos até conquistar o título, que se consumou com uma vitória em casa com o Sporting."

Momentos mais difíceis na pandemia: "Manter os jogadores estimulados para trabalhar como se estivessem em competição porque o mais pequeno desvio ou desinteresse iria refletir-se. Felizmente conseguimos que quase todos correspondessem, só o Nakajima é que foi impossível, porque meteu na cabeça que não podia sair de casa e recusava-se a ir treinar. Tanto que acabou por sair do clube por essas razões. Foi difícil o interromper do campeonato porque a equipa estava bem, foi quase necessário levar de porta em porta o estímulo a cada um para mostrar que íamos conseguir ser campeões."

Passado este tempo, a visão sobre essas decisões políticas: "O não haver desportos (andebol, basquetebol....) não contribuiu nada para a travagem da pandemia. Qual era o problema com equipas que estavam testadas, se 20 pessoas se juntassem para jogar andebol, vólei, seja o que for, todas testadas, qual era o problema? Nenhum. São daquelas coisas que ainda hoje ninguém percebe. São decisões de tal forma estúpidas que ainda bem que as pessoas não entendem porque é sinal de que não são estúpidas."

Passou várias vezes essa mensagem: "Quando foi a Taça de Portugal de 2020, inclusive estava lá o Presidente da República, o primeiro-ministro e outros governantes, e a quem eu perguntava se não achavam que não havia razão para não haver público. Todos me deram razão. Todos diziam que não havia motivo para não haver público, o que é certo é que não havia."

Pandemia quase fez esquecer as vitórias: "Ficaram um pouco esquecidas, é verdade. Em Coimbra (Taça de Portugal), ficou lembrado pelas más razões porque adeptos nossos daquela região que foram lá para apoiar, umas dezenas num café, foram atacados barbaramente pela polícia que os espancou a torto e a direito e manchou essas vitórias. Foram comemoradas com intensidade, mas em casa, no balneário... No campeonato ainda houve cá fora, mas com pouca expressão. Se pedíamos às pessoas para festejarem em casa para limitar os contactos, se fôssemos de autocarro, como se chegou a pensar, passear pelas ruas do Porto era o mesmo que dizer às pessoas para saírem de casa. Não fizemos a ida do estádio à Câmara, não fizemos nada. Comemorámos internamente."

Supertaça: "Quando foi a Supertaça, os festejos foram enormes porque teve um significado especial. Foi o primeiro título do Zaidu e estava completamente eufórico, abraçava toda gente, não largava a Taça. Faltou a multidão que nas vitórias está sempre a festejar. Mas não estou nada arrependido porque foi em defesa de todos e dos portistas, a mensagem passou e as pessoas perceberam. Há outras decisões tomadas posteriormente que ninguém compreende, mas que é que havemos de fazer? Uma revolução? Já não há cravos."