"Izmailov é mais imprevisível no meio"

"Izmailov é mais imprevisível no meio"
João Sanches

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Yuri Semin treinou médio russo do FC Porto e assegura que, pelo seu carácter competitivo, o antigo leão está agora no clube certo, mas ainda não na posição em que encaixa melhor.

Antigo jogador, treinador e presidente do Lokomotiv, Yuri Semin, 65 anos, viu Marat Izmailov nascer para o futebol: comandou-o no clube moscovita e também na seleção russa, que orientou em 2005. O veterano técnico saltou do banco do Dínamo de Kiev em setembro, há quase meio ano, mas não se desliga do futebol - há uma semana esteve em Camp Nou a assistir ao Barcelona-AC Milan, da Champions - e tem sempre uma recomendação, um conselho ou uma sugestão para dar ao médio russo do FC Porto, que trata como um filho. "Sendo um jogador temperamental, surpreendeu-me a forma como ele suportou a pressão no jogo com o Sporting", admite em entrevista a O JOGO.

Há algum treinador, jogador ou dirigente que conheça tão bem Marat Izmailov como Yuri Semin?

Não. Ele era ainda muito novo, tinha 17 anos, quando o conheci no Lokomotiv. Esteve comigo durante muitos anos.

Antes do clássico Sporting-FC Porto, Marat Izmailov foi acusado pelo médico do Sporting de se ter negado a treinar e a jogar, inventando, segundo argumentou Frederico Varandas, dores e lesões como forma de justificar as faltas. Por tudo o que conhece do jogador, acha possível que ele tenha simulado?

Não, isso não pode ser verdade. É impossível acreditar nessas afirmações. O Marat quer jogar sempre; difícil é fazê-lo parar e impedi-lo de jogar. Quando ele diz que não dá, é porque não dá mesmo. Ele nunca me escondeu a simpatia e consideração que tinha pelos adeptos do Sporting, e não foi por acaso que estes sempre o apoiaram. Talvez por isso tenham aparecido certas informações.

Para muitos ex-treinadores e ex-colegas, Marat é um exemplo de superação e sacrifício. Guarda memória de algum episódio que comprove tal ponto de vista?

Durante os muitos anos em que trabalhámos juntos, uma das preocupações do Marat foi o lado perfeccionista dele: tentava estar sempre nas melhores condições para ajudar a equipa. Nas conversas que tinha comigo, nunca me escondeu que quando não estava a cem por cento, ele próprio tinha receio de defraudar os colegas. Isso trouxe-lhe alguns problemas. Mas em termos profissionais, há poucos jogadores que tenham uma paixão tão grande como a dele pelo futebol. Vive para o que faz.

Na primeira vez que defrontou o Sporting em Alvalade, foi assobiado sempre que tocou na bola. Acha que Marat Izmailov se sentiu condicionado?

As dificuldades por que passou na vida, na sua infância, ajudaram-no a tornar-se frio, mas ele, por natureza, é um jogador temperamental. Surpreendeu-me a forma como suportou a pressão nesse jogo.

Um futebol de toque, com elevada percentagem de posse de bola, como o do FC Porto, favorece mais as características dele?

Encaixa muito bem, porque o Marat se impõe pela capacidade técnica. Mas fundamental para ele, sendo um jogador muito competitivo, são os objetivos. Quer ganhar sempre. E o FC Porto dá-lhe essa oportunidade. É o clube ideal para o Marat, porque joga regularmente na Liga dos Campeões e se bate sempre para ganhar o campeonato português.

Nesta fase da carreira, vê-o a jogar mais pelos flancos ou por dentro, como médio-interior?

Do meu ponto de vista, pela criatividade e qualidade técnica que ele tem, gosto mais de o ver jogar pelo meio, tendo em conta que é um jogador de grande capacidade técnica e de passe, com uma leitura de jogo que não é "standard", foge aos padrões normais. Tudo isso faz dele um jogador diferente, mais imprevisível, difícil de controlar pelos adversários.

O que lhe falta para estar a cem por cento?

Tenho alguma dificuldade em responder de uma forma tão precisa. Só quem está em campo com ele todos os dias é que pode ter essa sensibilidade, essa perceção. Esteve muito tempo parado por causa das operações, mas tem uma grande margem de crescimento da condição física. Estando em pleno, se continuar a jogar como está a jogar, voltará à seleção russa.