"As lesões têm este efeito, os atletas aprendem à força a lidar com o tédio"

"As lesões têm este efeito, os atletas aprendem à força a lidar com o tédio"
Carlos Gouveia

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Luís André, psicólogo do departamento de saúde do FC Porto, diz que os profissionais de futebol aprendem à força a lidar com a frustração e que estão bem preparados para enfrentar este isolamento.

Luís André, psicólogo do departamento de saúde da equipa principal do FC Porto, conversou com O JOGO sobre uma "catástrofe" que nunca pensou viver, apesar de, na sua formação académica, ter sido preparado para lidar com as emoções em tempos de isolamento. Diz que a sociedade está em "sobrecarga" e que devemos usar este tempo para perceber o que faz feliz cada um de nós. Quanto aos jogadores portistas, garante que têm recursos para suportar o confinamento, sobretudo aqueles que trabalham de forma mais consistente os aspetos mentais. E até admite que as crenças religiosas podem ajudar.

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Estamos a viver uma situação única na nossa geração, quais os principais desafios para um atleta e para as pessoas comuns?

-Temos que abrandar. Esse é o primeiro desafio. Estamos em sobrecarga. Dormimos pouco. Descansamos mal. Comemos mal. Corremos demais, temos tudo e vivemos insatisfeitos. O segundo, que talvez devesse ser o primeiro, é percebermos o que nos faz felizes. Se não sei o que quero, corro tanto atrás de quê?! É um problema de atenção e de valores: a que dedicamos mais tempo e energia? Essa é a pergunta. O terceiro desafio é aceitarmos que afinal dá para parar. E temos que aceitar senão é exatamente como nos jogos: quando relaxamos, baixamos a guarda, inventamos, achamos que vai ser fácil ou sentimos que já está feito... já fomos!

Sente o grupo tranquilo? Quais são as maiores preocupações dos jogadores?

-Os atletas têm alguns recursos que grande parte das pessoas comuns não tem. A tolerância à frustração e a capacidade para adiar recompensas, a perseverança e a capacidade para resistir a tentações são características transversais aos atletas de nível superior. Não, não nascemos com essas capacidades. Temos é que aprender a lidar com os acontecimentos. Sobre a dificuldade em ficar em casa, os atletas são especialistas. As lesões têm este efeito. À força aprendem a lidar com o tédio, com a frustração, com raiva e com a constelação de emoções que, muitas vezes, os isolam e afastam durante muitos meses. Naturalmente existem preocupações, preservar a segurança e saúde dos próprios e das famílias, preocupações com a evolução geral desta pandemia e, como é óbvio, com algumas questões competitivas. Ainda assim, mais uma vez, atletas que trabalham de forma mais consistente os aspetos mentais reagem de forma mais ajustada a imprevistos e a dificuldades e de uma forma geral o estado é de esperança e fé que tudo em breve vai voltar ao normal. Muitos deles têm as suas próprias crenças religiosas e em situações destas, essa e outras estratégias funcionam como um fator de proteção brutal.

A parte física já todos vimos como está a ser tratada, o maior desafio é a gestão das emoções, a parte psicológica?

-Gestão das emoções não é o termo mais correto. É preferível falarmos em regulação de emoções. Regular pressupõe ajustar, adequar e adaptar. Importa dirigir a atenção para as causas e para o que tem que ser ajustado. Estamos a atravessar uma fase negativa, uma adversidade, logo, sabemos que não será permanente. Esta ideia deve ser cultivada e aproveitada para trabalhar crenças positivas e estratégias de autocontrolo e de auto-regulação. É fundamental manter uma atitude positiva e acima de tudo fé e esperança. As emoções, quando corretamente reguladas constituem um escudo protetor para a saúde física, mental e espiritual.

Que tipo de contactos vai mantendo com jogadores e treinadores?

-Estamos todos a cumprir quarentena desde o dia 13 de março, curiosamente uma sexta-feira 13. Não tem sido necessário romper as regras de isolamento para estarmos presencialmente com alguém. Os telemóveis têm permitido manter o contacto e trabalhar de forma eficiente durante este período que esperamos que seja breve.