Pinto da Costa e uma missão impossível: "Veio, jogou na Luz e com grande exibição"

Pinto da Costa recebeu Mlynarczyk no aeroporto

No quarto episódio do programa "Ironias do destino", Pinto da Costa recordou o seu primeiro título nacional, em 1985, e a chegada de Mlynarczyk para reforçar a baliza dos dragões.

Primeiro título nacional: "Depois do semi-êxito que tinha sido a presença na final de Basileia, as perspetivas eram de lutar a sério pelo título. Felizmente, conseguimos até antes do fim do campeonato. Houve um momento crucial que foi a vitória no Estádio da Luz [1-0], foi histórico. Na altura, não era frequente vencermos lá e o terceiro anel da Luz estava todo de azul e branco."

Sabor: "Foi uma sensação ótima [ser campeão], era um objetivo ganharmos o campeonato. No meu programa dizia que em três anos, o FC Porto tinha de ganhar um campeonato, uma vez que havia três candidatos e não podíamos estar outra vez 18 anos sem ganhar. Foi o sentir que estava a cumprir, não uma promessa, mas um desejo que tinha manifestado."

Nova era: "Era uma nova era a começar. A equipa era muito boa, o treinador era o Artur Jorge, que estava a continuar o espírito e a mentalidade do Pedroto. Curiosamente, fomos campeões virtuais num dia em que não contávamos, porque o Sporting jogava à tarde no Rio Ave e era francamente favorito e nós jogávamos no Belenenses. O Sporting perdeu e já não precisávamos de pontuar com o Belenenses. Esse jogo acabou por ser uma festa, houve invasão do público quando marcámos um golo. Tiraram o equipamento aos jogadores e foi preciso voltar. O presidente do Belenenses foi fantástico, o senhor Mário Rosa Freire chamou a sua equipa, conseguiu-se tirar as pessoas e lembro-me de o Futre estar com a bola, ir arrancar e eu gritar-lhe: 'não vás, não vás', porque se marcava mais um golo era nova invasão. Passámos os últimos minutos a trocar a bola no meio-campo com medo de marcar golo. No final foi uma festa fantástica, um sentimento de que realmente era possível sermos campeões. Os jogos que se seguiram foram de consagração."

Josef Mlynarczyk: "Na época seguinte tínhamos aspirações e perdemos um jogo no final da primeira volta na Covilhã. O nosso guarda-redes estava magoado e jogou o Matos. Perdemos 2-0 e tinha um amigo que trabalhava em França e estava ligado ao futebol. Era muito amigo do Luís César. Disse-lhe que precisava de um guarda-redes e ele perguntou se eu conhecia o Josef Mlynarczyk. Disse que sim. 'Ele está no Bastia e pode haver uma possibilidade'. Eu disse que não é possibilidade, tem que estar cá até quarta-feira porque tem de jogar na Luz. E se é impossível ele vir, então dou-lhe até quinta, disse na brincadeira. Mas tem de o por cá. Veio e jogou na Luz, empatámos 0-0 e ele fez uma grande exibição."

O que é para Pinto da Costa um impossível? "É o que é difícil e demora mais tempo a resolver. Se as pessoas acreditarem, forem determinas e tiverem apoios, nada é impossível. Quando apresentei o meu programa em 1982 havia um jornalista que gostava muito, o Manuel Fernandes da RTP, que me entrevistou e disse-lhe o que estava a fazer e que tínhamos de ganhar um campeonato a cada três anos, ir a uma final europeia e, depois, tentar ganhar a segunda. Ele terminou a entrevista a dizer que esse programa é impossível, mas se fizer metade já fica na história. Eu disse-lhe: 'impossível?' Então, se calhar não vai ser à primeira, vai ser à segunda. Se dissessem às pessoas que nestes anos o FC Porto ia ganhar sete títulos internacionais ninguém acreditava... O engenheiro Armando Pimental, que foi o meu braço direito, dizia que eu estava a por a bitola muito alta ao falar em vencer provas internacionais. Acho que é preciso acreditar. Mas não é acreditar que a Torre dos Clérigos vai começar a andar e vem aqui ter connosco. Isso é de malucos."