Dois dias de autocarro para treinar no FC Porto e o trabalho no McDonalds

Dois dias de autocarro para treinar no FC Porto e o trabalho no McDonalds
Hélio Nascimento

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A história de Fali Candé contada na primeira pessoa, desde a chegada à Reboleira e ao período em que, na Alemanha, trabalhou num McDonald"s, até ao ingresso nos algarvios.

Fali Candé nasceu em Bissau e aos 10 anos veio para Portugal, com os pais e seis irmãos. Foi viver para a Reboleira, paredes-meias com o estádio do Estrela da Amadora, o clube em que deu os primeiros pontapés na bola.

Seguiu-se o Atlético e depois o Casa Pia, antes de uma aventura na Alemanha, para onde os progenitores, entretanto, tinham emigrado. "Aproveitei para jogar no Niendorfer, nos arredores de Hamburgo. Podia chamar a atenção de algum clube mais apetrechado, mas foi tudo muito difícil, da língua à adaptação", recorda o jovem, hoje com 22 anos e recém-lançado por Paulo Sérgio na equipa principal do Portimonense.

Foi então, através de um empresário, que surgiu a hipótese de prestar provas nos juniores do FC Porto. "Tive a notícia três dias antes da data programada. Os voos eram caros e a única hipótese passava por meter-me num autocarro. Fiz as malas e a viagem durou dois dias, sempre a andar", prossegue Fali Candé, que no Dragão tinha António Folha, o treinador dos juniores da altura, à sua espera. Ficou uma época na equipa, mas não renovou contrato e acabou por voltar a Lisboa. "Fiquei muito triste e até chorei", confessa. Mas a vida segue. "Ainda assinei pelo Benfica, pela equipa B, mas não correu bem".

Contudo, para quem já tinha trabalhado no McDonalds, no período em que esteve na Alemanha, os obstáculos são todos para ultrapassar.

"Voltei ao Casa Pia, onde me pagavam 200 euros por mês. Mas eu queria jogar e mostrar o meu valor". A carreira de Fali Candé, aliás, estava prestes a dar uma volta. E para melhor. "Foi então que surgiu o Portimonense, cujo treinador era Folha, que já me conhecia do FC Porto. Fui para a equipa de sub-23, que se estava a formar, mas já com o sonho e o objetivo de lutar por um lugar no conjunto principal". Primeiro com Luís Boa Morte e depois com Bruno Lopes, jogou que se fartou. Começou a extremo, que era a sua posição, mas, aos poucos, passou a lateral esquerdo. "O Bruno convenceu-me e hoje reconheço que é o lugar mais indicado".