Premium Bateristas dos Xutos & Pontapés e dos Mão Morta vestiram a camisola para um FC Porto-Braga de letra

Bateristas dos Xutos & Pontapés e dos Mão Morta vestiram a camisola para um FC Porto-Braga de letra
Mónica Santos

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O JOGO levou a discussão da liderança do campeonato para a bateria. Kalú e Miguel Pedro, os homens das baquetas dos Xutos & Pontapés e dos Mão Morta, respetivamente, aceitaram logo. Adeptos puros de FC Porto e Braga, companheiros dos palcos, mantiveram-se fiéis à harmonia.

Já era de esperar. Kalú e Miguel Pedro não falham uma nota nem quando os afastamos da bateria e os desafiamos para falar de futebol. Adoram o FC Porto e o Braga, respetivamente, mas não quebram a harmonia por estar em causa o primeiro lugar. Haja o que houver, é cedo para o dar por entregue.

Porque nem só da música vivem os homens que dão corpo a duas bandas de referência em vertentes distintas do rock português, é preciso conjugar agendas profissionais para os juntar e é mesmo um feliz acaso Kalú estar pelo Porto, onde Miguel Pedro tem assuntos a tratar, antes de voltar a Braga, para ir buscar os miúdos à escola.

Há tempo para tomar um café e falar de bola, mas, como sempre que amigos se encontram, a conversa N'o Mercado (o restaurante do espaço do antigo Mercado Ferreira Borges, onde agora mora o Hard Club, espaço musical de referência do Porto) estende-se até ao limite permitido pela agenda. Kalu e Miguel Pedro desafiam o padrão dos adeptos rivais.

Riem muito, concordam quase sempre, e até a provocação que serve para título é atirada e aceite com uma risada. Dão-se muitos abraços e é Kalú quem propõe uma foto junto da que, na exposição de músicos que abre caminho para o Hard Club, retrata Adolfo Luxúria Canibal, vocalista dos Mão Morta. Está a preto e branco, claro, ou não fosse o negro a cor que retrata a banda bracarense. Eles são a antítese do rock de massas dos Xutos & Pontapés, obstinadamente fiéis à cena underground - quando tiveram o primeiro sucesso, Budapeste, foi um problema, conta Miguel Pedro, e para continuarem a ser uma banda alternativa estiveram mesmo "dez anos sem tocar" o tema que os ameaçava com os holofotes.

Para a banda que está a fazer o luto pela perda de Zé Pedro, o punk e o rock alternativo foram apenas uma fase e hoje são um fenómeno de paixão e popularidade que fazem com que o luto pela partida de Zé Pedro seja partilhado por muitos. Miguel Pedro nem se dá conta, mas fala dele no presente. Kalú, coração escancarado, 60 anos que fazem desconfiar do bilhete de identidade, faz questão de o trazer para a conversa e de contar que só há pouco tempo soube que o amigo que partiu há quase um ano apenas se dizia benfiquista para o provocar.

"Ele era da Académica", conta, com o coração a sorrir. Fala do FC Porto como se fosse um miúdo, feliz com a vitória sobre o Lokomotiv, divertido com o medo que o Braga inspira e com essa sensação boa que lhe transmite a equipa de Sérgio Conceição: eles vão ganhar, atreve-se, num desafio que Miguel Pedro aceita de braços abertos: ele está do lado que escolheu, o do Braga e dos Mão Morta; nunca foi fácil, nunca foi favorito, mas nem por isso deixou de fazer o caminho e ganhar respeito.

Com mais de três décadas de companheirismo, demorou um (delicioso) pedaço até a conversa chegar ao FC Porto-Braga e estendeu-se de novo para a música, depois de passarem pelo relvado como dois amigos que adoram futebol. Não contem com eles para desafinar.

Como vai ser, no sábado?

Kalu - Vai ser renhido. Vai ser tramado.

Miguel Pedro - Espero que sim. O Braga está a fazer uma época boa, tem uma equipa boa, está moralizado, a jogar bem. O FC Porto também.

K - Está... agora! O FC Porto acho que alinhou. Ali a partir do Benfica, aquilo começou a alinhar.

MP - E o jogo de ontem [terça-feira, 4-0 ao Lokomotiv, na Liga dos Campeões]...

K - ...dá moral. Dá moral.

MP - É daqueles jogos em que o Braga tem muito menos a perder. Pode tentar fazer um brilharete. Tenho uma confiança grande nos avançados, o Dyego Sousa e o Paulinho.

K - Eu gosto é daquele de cabelo aos caracóis...

MP - O Fábio Martins.

K - Gosto desse gajo.

MP - O Braga tem uma boa equipa e o FC Porto é favorito. Tem tudo para ser um grande jogo. Nada se decide, como é óbvio.

K - Nada, pá! O Braga tem uma vantagem, está a jogar só para o campeonato, só a nível interno, o que exige muito menos do que uma Liga Europa ou uma Liga dos Campeões. Depois, está com um treinador que eu acho fantástico, o Abel.

MP - Um homem!

K - É tipo Sérgio Conceição. Ele mete ali uma coisa nos jogadores, eles comem a relva por aquilo. Estou com medo do Braga! Sinceramente, estou. É daqueles jogos em que estou muito mais receoso. O Benfica, é naquela, perdendo ou ganhando... Com o Braga, estou com medo. Porque vai ser um jogo bom, a jogar-se bem.

MP - O Braga está a jogar um excelente futebol. Marca sempre golos. Este ano, marcou em todos os jogos oficiais. Joga para a frente...

K - Está a dar cabazadas! É 5-0...

MP - É dos jogos de que gosto, porque não temos nada a perder.

K - Temos muito mais, nós.

MP - Ir perder ao Porto não é nada de grave nem afecta a moral da equipa. Estamos mais leves.

K - Mas, olha, tu tens consciência de que nós vamos ganhar aquilo?... [risos] O FC Porto está a ficar numa forma! Não sei se é o Sérgio Conceição que está a fazer uma boa gestão, mas, o Óliver andava muito apagado, mesmo na época passada pouco jogou, e agora, de repente, salta do banco e está a jogar!... Com o Lokomotiv, mete um lance a 30 metros para o Corona, no terceiro golo... Que abertura!... Fui ver o jogo e correu tão bem! (ri) Vim mesmo de lá feliz!

MP - Imagino que o estado de espírito dos jogadores do Braga seja maravilhoso, porque vão jogar ao Dragão numa altura em que o Braga está em alta.

E não vão tremer?

MP - Não! Este Braga, não. Quem lê os jornais, vê que o Braga do Abel vem a bater os recordes e são todos da última década. Em termos competitivos, nos últimos dez anos, temos um Braga muito diferente.

Se passa para a frente, pode já não sair de lá?

K - É muito cedo.

MP - É muita coisa...

K - Depois, também é uma questão de experiência. O FC Porto está muito mais habituado. Provavelmente, isto vai trazer vantagem. E tem poderio económico para ter um banco luxuoso ali a aquecer a madeira. Em qualquer altura, saem do banco e resolvem o jogo. Como o Otávio, com o Marítimo. Estava a ver o jogo e: queres ver que vamos empatar isto? Salta-me o gajo do banco e resolveu aquilo!

MP - No sábado, está tudo em aberto. O maior poderio do FC Porto tem o valor que tem para estas conversas e para os comentadores. Tem essa valência.

K - A do treinador de bancada. É 50/50.

MP - Vale o que vale.

K - Já o João Pinto dizia: prognósticos, só no fim do jogo.

MP - Sábio! (risos)