Paulinho: "Estou no Braga para testar os meus limites"

Paulinho: "Estou no Braga para testar os meus limites"
Pedro Marques Costa

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Abel Ferreira contratou Paulinho ao Gil Vicente e, em pouco tempo, transformou-o na principal referência do ataque do Braga. No entanto, o avançado sente que o melhor ainda está para vir.

A "primeira grande entrevista" de Paulinho chegou aos 24 anos. De discurso fácil, o avançado, que está a surpreender neste arranque de época, mostrou que também é descomplexado fora dos campos. Revelou-se um verdadeiro contador de histórias, percorrendo um caminho que começou no pelado do Santa Maria e que, espera ele, vai levá-lo à Seleção Nacional.

Como é que passou tanto tempo "escondido"?

-Bem, vou contar a minha história. A passagem pelo Trofense [primeiro ano de sénior] foi muito boa, guardo, por exemplo, grandes recordações do Tiago, que, aos 37 anos, ainda era um espetáculo. Fui para lá por culpa do professor Neca. Tinha tudo tratado para ir para o Portimonense e, num domingo de manhã, ele ligou-me a dizer que tinha de ir para o Trofense. Pensei: "Estou no Santa Maria, tenho a Trofa aqui ao lado de casa, um treinador que me quer, por isso tenho mesmo que ir". E fui.

E depois do Trofense?

-Fiz uma boa época e depois aconteceu o mesmo com o Gil Vicente. O João de Deus queria contratar-me, era o clube da minha cidade, estava na I Liga, e na altura não podia recusar. Se calhar, esse foi o meu erro. Estarei eternamente grato ao Gil Vicente, que é um clube que adoro, mas aquele ditado que diz que "os santos da casa não fazem milagres" é mesmo verdadeiro. Ali, a minha margem de erro era menor do que a dos outros jogadores que não eram da terra. O clube estava a passar por uma fase muito difícil... Apesar disso, aprendi muito. Aprendi, sobretudo, nos tempos em que jogava pouco. Provavelmente, a força mental que sinto agora vem desse período difícil. Aprende-se muito quando não se joga, sobretudo na forma como se é tratado. No ano em que o Gil Vicente desceu de divisão até perdi o prazer de jogar futebol. E estávamos a falar de um miúdo com 22 anos. Não é normal.

Imagino que não...

-Não é. Descemos para a II Liga, tinha propostas para sair, mas o Nandinho [treinador do Gil Vicente na altura] veio falar comigo e disse-me: "Olha, quero trabalhar contigo e quero que voltes a ter prazer em jogar". Tinha abordagens de clubes da I Liga e muitas propostas do estrangeiro. Mas pensei: "Alto, tenho 22 anos; sei que tenho qualidade, mas primeiro tenho é de ter prazer em jogar futebol". Lá fiquei e passadas duas semanas o Nandinho comunicou-me que ia ser o capitão de equipa. Estamos a falar de um balneário que tinha jogadores experientes como o Cadú, Serginho ou Djamal... Aquilo motivou-me. Foi nessa fase que o míster Abel começou a conhecer-me como jogador e acabámos por fazer uma época muito porreira. No segundo ano na II Liga, na época passada, acabei por me destacar, sobretudo pelos 20 golos que marquei.

E então surge o Braga...

-Antes disso, recebi propostas incríveis... Então do Médio Oriente, nem imaginam! Só me perguntava: como é que isto apareceu? Eu vou rejeitar este dinheiro todo? Recebi uma proposta do Catar que, muito provavelmente, todos os jogadores na minha situação aceitariam. Mas, quando surgiu o Braga, pensei: "não, não posso recusar. Se não for para o Braga nunca mais me vou perdoar na vida". E disse aos meus empresários, que até são de Guimarães [Pedro Mendes, Fernando Meira e Nuno Assis], que não ia jogar por dinheiro. Acredito muito em mim e desportivamente quero chegar onde sempre sonhei. Depois falava com a minha família, com os meus amigos, mostrava-lhes as propostas que tinha e eles diziam: "Oh, estás a gozar? Tu vais recusar isso? Com esse dinheiro tu não precisas de trabalhar mais na vida". Mas não podia aceitar, tinha que vir para o Braga.

Porquê?

-Porque tinha de testar os meus limites e porque acredito muito em mim. O dinheiro é importante, mas se não fores feliz o dinheiro não vale nada. Se tivesse ido para o Catar, a esta altura já podia estar rico, mas todas as noites, antes de adormecer, ia pensar: "não fui para o Braga, não fui para o Braga..." Se calhar, quando os três primeiros salários caíssem na conta - e ela ia crescer muito -, nem pensaria muito no Braga, mas sei que chegaria uma altura em que não me ia sentir feliz por não ter perseguido os meus sonhos.

E que sonhos são esses?

-Um deles é chegar à Seleção Nacional. Sei que, estando no Braga, tenho maiores possibilidades. Na II Liga, por exemplo, era impossível lá chegar... Acho que só o Ivan Cavaleiro é que conseguiu e porque jogava no Benfica! Para já, é um sonho, mas depois de lá estar passa a ser apenas mais um objetivo conquistado. Mas também sei que ainda tenho muito pedra para partir. Primeiro, há que conquistar o meu lugar no Braga, o que não é fácil. Vamos ver. O míster ainda não repetiu nenhum onze esta época; aqui não há lugares cativos. Não me adianta fazer três jogos bons, porque se o quarto for mau vou para o banco. É como o míster diz: "Estatuto é o rendimento, a estrela é a equipa". Se pensarmos bem, nesta equipa é mesmo assim. Não são tangas, é a realidade. E isso faz-nos pensar que o futebol é o momento. O Braga está muito bem, mas para a semana temos um resultados menos bom e já ninguém se lembra do que ficou para trás. Nos jogadores é igual.