Braga desiste de Schettine: "O futebol português transformou-se num teatro de marionetas"

Braga desiste de Schettine: "O futebol português transformou-se num teatro de marionetas"

O clube minhoto estava interessado na contratação do avançado do Santa Clara

Em comunicado divulgado esta segunda-feira, o Braga anunciou a desistência pela contratação do avançado Guilherme Schettine ao Santa Clara explicou todo o processo que conduziu a esta decisão.

O Braga frisa que a "vontade do jogador" era a de rumar à Pedreira e que o clube cumpriu as "condições impostas pelo Santa Clara para a transferência do avançado brasileiro".

Num extenso comunicado, o clube presidido por António Salvador aponta a um "enredo que denuncia quem detém o poder e quem a ele se deixa subjugar" e descreve os acontecimentos por ordem cronológica, numa polémica que também envolve o Benfica.

De acordo com o Braga, o clube "foi informado pelo Administrador Diogo Boa Alma que seria aceite qualquer proposta de 1,5 milhões de euros", valor que foi correspondido numa proposta formal do clube bracarense.

"Perante a ausência de resposta do CD Santa Clara à proposta apresentada pelo SC Braga, o Presidente António Salvador contactou diretamente o Administrador Diogo Boa Alma, que afirmou que não negociaria com o SC Braga por ter um compromisso pessoal para colocar o jogador no SL Benfica e por temer represálias, remetendo para a cláusula de rescisão e assim faltando à palavra dada aos representantes do jogador", prossegue o comunicado do Braga, que aponta ainda a José Luís Gonçalves, ex-diretor desportivo do Aves:

"Entrou em contacto com o empresário do jogador, Javier Rangel, pedindo uma reunião com o presidente do SL Benfica e garantindo que tanto Guilherme Schettine como o seu agente seriam 'bem recompensados'."

Perante isto, o Braga explica que "não pode prolongar a espera pela operação" e deixa duras críticas.

"O futebol português transformou-se num teatro de marionetas. Sociedades que deviam competir num plano de igualdade resignam-se a uma lógica vertical de influências, na qual "manda quem pode e obedece quem tem juízo" e onde se multiplicam operações que escapam à lógica desportiva", escreve o Braga, que diz que uma "federação tão pujante" e uma "Liga que se apresenta cada vez mais sustentável esconde a pobreza de um edifício de campeonatos profissionais onde competem clubes tão dependentes de uma mão que as alimente política e financeiramente e tão permeáveis a influências externas".

LEIA O COMUNICADO NA ÍNTEGRA

"A SC Braga, SAD informa, para conclusão de um processo que ganhou dimensão pública ao longo das últimas semanas, que desistiu da contratação do jogador Guilherme Schettine, não obstante a vontade do atleta em transferir-se para o SC Braga - conforme revelado à Comunicação Social pelo próprio - e o cumprimento, por parte desta Sociedade, das condições impostas pelo CD Santa Clara para a transferência do avançado brasileiro.

A conjugação destes factos torna este desfecho absolutamente inusitado, razão pela qual o SC Braga se reserva o dever de denúncia das situações verificadas ao longo deste processo e que, de resto, se têm revelado recorrentes no futebol português, repetindo-se protagonistas num enredo que denuncia quem detém o poder e quem a ele se deixa subjugar.

No que a factos diz respeito, importa reter a seguinte cronologia:

Em inícios de maio deste ano, o SC Braga manifestou interesse no jogador Guilherme Schettine, tendo procurado informar-se das condições para a sua contratação, através de um empresário que representou esta Sociedade nos contactos com o CD Santa Clara. O SC Braga foi informado que a SAD açoriana aceitaria negociações pelo valor de três milhões de euros, omitindo que a cláusula de rescisão é de dois milhões. Perante tal valorização, o SC Braga não concretizou o seu interesse e afastou-se de qualquer negociação;

Após o fecho do campeonato, o SC Braga tomou conhecimento de que o CD Santa Clara negociava o jogador com o SL Benfica por 1,5 milhões de euros. O avançado permaneceria, porém, no plantel do CD Santa Clara;

A 29 de julho, o SC Braga foi informado pelos representantes do jogador que Guilherme Schettine rejeitava a transferência para o SL Benfica, por entender que desportivamente não era a opção que melhor servia as suas ambições imediatas. Nesse cenário, o SC Braga reiterou o seu interesse, após saber pelos empresários de Schettine que havia o compromisso por parte do CD Santa Clara de negociar o avançado pelos mesmos valores discutidos com o SL Benfica;

A 31 de julho, os empresários de Schettine contactaram o Administrador do CD Santa Clara, Diogo Boa Alma, confirmando quais as condições impostas para a negociação, independentemente do clube que apresentasse a proposta. Foi informado pelo Administrador Diogo Boa Alma que seria aceite qualquer proposta de 1,5 milhões de euros. Há registos áudio e um email que comprovam esta tomada de posição por parte do CD Santa Clara;

Informado das condições, o SC Braga concordou com as mesmas e, nesse mesmo dia, formalizou uma proposta que satisfazia as pretensões do CD Santa Clara. Tal proposta, enviada de forma oficial, não obteve qualquer resposta;

A 1 de agosto, o CD Santa Clara contactou o jogador e os seus representantes para a marcação de uma reunião, no dia seguinte, em Lisboa, com os responsáveis do SL Benfica. Guilherme Schettine e os seus empresários recusaram reunir;

Perante a ausência de resposta do CD Santa Clara à proposta apresentada pelo SC Braga, o Presidente António Salvador contactou diretamente o Administrador Diogo Boa Alma, que afirmou que não negociaria com o SC Braga por ter um compromisso pessoal para colocar o jogador no SL Benfica e por temer represálias, remetendo para a cláusula de rescisão e assim faltando à palavra dada aos representantes do jogador;

A 2 de agosto, e apresentando-se como representante dos interesses do SL Benfica, José Luís Gonçalves (ex-diretor de futebol do CD Aves) entrou em contacto com o empresário do jogador, Javier Rangel, pedindo uma reunião com o presidente do SL Benfica e garantindo que tanto Guilherme Schettine como o seu agente seriam "bem recompensados". Tal abordagem pode ser facilmente comprovável;

Perante o impasse existente, por força da vontade expressa do jogador e da intransigência do CD Santa Clara, o SC Braga não pode prolongar a espera pelo desfecho da operação.

Este longo episódio, aqui denunciado, não é caso único, mas antes a demonstração de uma realidade profundamente entranhada: o futebol português transformou-se num teatro de marionetas.

Sociedades que deviam competir num plano de igualdade resignam-se a uma lógica vertical de influências, na qual "manda quem pode e obedece quem tem juízo" e onde se multiplicam operações que escapam à lógica desportiva, se inflacionam de forma especulativa os valores do mercado e se impede que outros clubes possam reforçar-se.

A fachada do futebol de um País que tem uma Federação tão pujante e uma Liga que se apresenta cada vez mais sustentável esconde a pobreza de um edifício de campeonatos profissionais onde competem clubes tão dependentes de uma mão que as alimente política e financeiramente e tão permeáveis a influências externas, não pela sua falta de grandeza institucional, mas pela pequenez de alguns dos seus dirigentes.

No futebol português, de boas almas está o inferno cheio!"