Cerco a Luís Filipe Vieira mais apertado

Cerco a Luís Filipe Vieira mais apertado
Pedro Miguel Azevedo | Vitor Rodrigues

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O Ministério Público e a Autoridade Tributária desconfiam das movimentações de comissões pagas aos empresários Bruno Macedo, Ulisses Santos, Giuliano Bertolucci e Isidoro Giménez. São 55 as transferências no Benfica na gestão do ex-líder que estão a ser investigadas

São 55 os negócios relacionados com transferências feitas pelo Benfica na gestão de Luís Filipe Vieira que o Ministério Público (MP) e a Autoridade Tributária (AT) estão a investigar de forma mais profunda, no âmbito do processo Cartão Vermelho.

Quando foi detido, em julho de 2021, o ex-presidente do Benfica era suspeito em três negócios, número agora acrescido. No dia de ontem tanto a "CNN Portugal" como a revista "Sábado" tornaram públicas informações relativas à investigação, obtidas num relatório da AT, que vêm dar uma maior dimensão às suspeitas que justificaram a constituição de Vieira, do seu filho Tiago, do empresário Bruno Macedo e de José António dos Santos, o rei dos frangos, como arguidos, todos em liberdade após terem pago as respetivas cauções.

No que respeita exclusivamente ao futebol do Benfica, e também com o sustento de várias escutas tornadas públicas, aparecem agora associados aos negócios sob escrutínio os nomes dos agentes desportivos Ulisses Santos, Giuliano Bertolucci e Isidoro Giménez, sustentando os investigadores a tese de que entre 2012 e 2020 as referidas compras e vendas geraram 10 milhões de euros em comissões. Em causa está um alegado recebimento indevido de Vieira, utilizando os referidos empresários e contas em nome dos filhos, Tiago e Sara.

Segundo a "CNN Portugal", o inspetor tributário Paulo Silva e o procurador Rosário Teixeira entendem que os quatro empresários atrás nomeados são próximos de Vieira e estão envolvidos nos negócios de vários atletas ao longo dos últimos anos: o canal aponta nomes como os de Seferovic, Everton, Morato e Lisandro Lopez, mas a "Sábado" soma-lhes Witsel, Samaris, Pedrinho, Raul de Tomas, Talisca, Jonas e Weigl como sendo negócios sob investigação.

E o caso do alemão é apontado como exemplar. A troca do médio do Dortmund pelo Benfica, em janeiro de 2020, custou 20 milhões de euros às águias e terá gerado 2,5 M€ em comissões de intermediação. Alegadamente, foi o ex-presidente dos encarnados quem indicou o nome de Ulisses Santos para intermediar o negócio mas, na visão do MP após análise de documentos e de escutas intercetadas, este agente não participou na operação. "Eu acho que nós devemos fazer o contrato com o Ulisses cá, que não temos nada a ver com o do outro gajo que representa ou não representa... Nós aqui é que temos de fazer um contrato a dizer que é representante para nós aqui", transcreve a "CNN Portugal" de uma escuta a Luís Filipe Vieira incluída no processo.

Numa outra, esta divulgada pela "Sábado", surge uma conversa entre Tiago Pinto e Miguel Moreira, à altura respetivamente diretor geral para o futebol e diretor financeiro da SAD encarnada, onde ambos se mostram preocupados com a possibilidade de Weigl reparar no seu contrato e ver lá uma intermediação que não existira.

Aquisição de imóvel por quase quatro milhões

Já no caso de Pedrinho, que custou 18 M€ pagos ao Corinthians, está a ser investigado o alegado recebimento de Bruno Macedo e de Giuliano Bertolucci de comissões de ambos os clubes. No caso deste último, a "Sábado" aponta que o agente terá comprado, três meses depois da contratação do extremo pelas águias, um imóvel em Lisboa por 3.950 milhões de euros à empresa White Walls, de Vieira.

"Os factos sugerem uma correlação entre a transferência do jogador e o negócio imobiliário realizado entre a sociedade White Walls e Giuliano Bertolucci, como eventual instrumento para a repartição de contrapartidas com Luís Filipe Vieira", escreveu Rosário Teixeira segundo a revista semanal. A investigação vê aqui mais suspeitas de um eventual retorno de dinheiro de comissões ao universo de Luís Filipe Vieira e onde a sua família também aparece em foco.

Numa outra chamada, entre o filho Tiago e a mulher do ex-líder das águias, Vanda, o primeiro avisa a progenitora que a já referida "White Walls vai fazer uma transferência para a conta de Sara [filha de Luís Filipe Vieira]", uma quantia que "ainda são uns 200 e tal mil euros que vão para a conta da Sara e depois saem para se fazer pagamentos", segundo é citado.

O JOGO tentou obter uma reação dos visados nestas notícias mas, até à hora de fecho da edição, nenhum deles se mostrou disponível.

Textor não foi primeiro possível investidor

O MP entende que Luís Filipe Vieira e José António dos Santos tentaram vender ao norte-americano John Textor 25 por cento da SAD encarnada mas este não terá sido o primeiro potencial comprador. Em conversas intercetadas entre o ex-presidente e Carlos Janela, é falado um outro nome, Chip Sloan, como alegado representante desses investidores.

Negócio "surreal" com prejuízo de 2,4 M€ do NB

As escutas a Luís Filipe Vieira também apanharam conversas da esfera das relações com os bancos, nomeadamente o Novo Banco (NB). "Surreal" é a palavra que o inspetor tributário Paulo Silva utiliza na análise de uma negociação de imóveis e cedência de créditos da referida instituição bancária "efetuadas por Vieira, José António dos Santos e Avelino Carvalho, com uma perda final de 2,4 M€ para o banco".

SUSPEITAS

Seferovic
Chegou ao Benfica em 2017/18 após terminar contrato com o Eintracht. Terá sido pago 1 M€ em comissões.

Witsel
Contratado em 2011/12 ao Standard de Liège por 9 M€ saiu na época seguinte para o Zenit por 40 M€.

Weigl
Custou 20 M€ em 2019/20, pagos ao Dortmund. São apontados 2,5 M€ em comissões, alegadamente uma parte para Ulisses Santos por intermediação que levanta suspeitas.

Talisca
Adquirido ao Bahia por um valor de 4,75 M€ em 2014/15, saiu em outubro de 2018 em definitivo para o Guangzhou Evergrande, num negócio global de 25 M€.

Pedrinho
Era para chegar à Luz por 20 M€, acabou por ser renegociado por 18 M€. Investigação aponta Bruno Macedo e Giuliano Bertolucci como tendo recebido comissões de Benfica e Corinthians.

Raul de Tomás
O Benfica oficializou em janeiro de 2020 a venda do avançado ao Espanhol por 20 M€, valor igual ao que pagara ao Real Madrid em julho do ano anterior.

Samaris
As águias pagaram 10 M€ ao Olympiacos em 2014. O médio rescindiu esta temporada e assinou pelo Fortuna Sittard.

Jonas
A SAD confirmou no Relatório e Contas que, apesar de ser uma aquisição a custo zero em 2014/15, foram pagos "1,3 milhões de euros em serviços de intermediação".

Morato
As águias oficializaram ter pago 7,5 M€ ao São Paulo por 85% do passe do central, valor que incluiu intermediação.

Everton
Em 2020/21 o Benfica pagou 20 M€ pelo internacional brasileiro ao Grémio.

Mourinho veta... Jesus

No resumo das escutas do processo Cartão Vermelho enviado pelos investigadores ao juiz Carlos Alexandre consta um extrato de uma conversa entre o empresário Jorge Mendes e o treinador José Mourinho com Jorge Jesus como tema principal e com o veto do "Special One" para o seu regresso ao Benfica.

"Mourinho pergunta que treinador Jorge Mendes vai meter no Benfica e Jorge diz que está numa guerra aberta com (Luís Filipe) Vieira, porque quer ir buscar Jorge Jesus. (...) Mourinho diz a Jorge Mendes para não deixar Jorge Jesus ir para o Benfica", descreve o referido resumo, no qual o atual técnico da Roma apresenta uma alternativa: Laurent Blanc. "Jorge diz para Mourinho mandar uma mensagem a Luís Filipe Vieira sobre Laurent Blanc", publicou a Sábado, numa conversa que terá decorrido no dia 1 de julho de 2020, dois dias depois de Bruno Lage ter deixado de ser treinador das águias. No mesmo excerto, Mourinho terá dito que Silvino, antigo guardião das águias e seu adjunto, seria um bom técnico de guarda-redes para os encarnados. Cerca de duas semanas mais tarde, o Benfica anunciou o acordo com Jorge Jesus, seria apresentado oficialmente em agosto.

Nesta passagem, Jorge Mendes revelou que estava a tentar colocar Bruno Lage no Aston Villa e que falou com outras opções para o Benfica, como Pocchetino, Unay Emery e Marcelo Gallardo.

200 mil, as contas e os 22 imóveis

A investigação do processo Cartão Vermelho recolheu uma conversa telefónica, a 11 de janeiro de 2019, entre Luís Filipe Vieira e a filha, em que Sara Vieira lhe fala sobre os projetos de financiamento da ONG para quem colabora. "O Jorge já vai mandar os 200 mil euros que faltam... agora quando for viajar com ele já lhe vou dizer... o Jorge Mendes ainda não mandou, vou falar com ele", disse o então presidente do Benfica. É assim que o superagente de Cristiano Ronaldo é visado no processo. O próprio ou a sua empresa, a Gestifute, não reagiram.

Certo é que para o Ministério Público, a filha de Vieira assume papel importante na investigação porque pelas suas (sete) contas bancárias terão passado vários milhões de euros - só na conta do St. Galler Kantonalbank terão passado 6,2 M€ entre 2009 e 2010 - apesar de declarar um rendimento anual de 37 mil euros e de possuir em seu nome... 22 imóveis.