A OPA do Benfica: saiba o objetivo e o que impede Vieira de vender

A OPA do Benfica: saiba o objetivo e o que impede Vieira de vender
Marco Gonçalves

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Paulo Reis Mourão, professor de Economia da Universidade do Minho, e Angelino Ferreira, ex-administrador financeiro do FC Porto, explicam a O JOGO as implicações da operação agora lançada

O Benfica está na disposição de investir até 32,2 milhões de euros para reforçar a sua participação na própria SAD, passando dos 63,65 para os 91,7 por cento na sociedade - aos quais se somam ainda os 3,28% na posse de Luís Filipe Vieira e de outros membros dos órgãos sociais -, numa iniciativa que pode permitir reforçar o núcleo decisório da estrutura encarnada.

Da mesma forma que premeia os acionistas que injetaram capital aquando da constituição da SAD, permitindo-lhes a possibilidade de um significativo encaixe financeiro, a OPA (oferta pública de aquisição) voluntária e parcial agora lançada, operação muito comum entre as grandes empresas, nomeadamente quando há liquidez, visa uma concentração de capital que dará ainda maior poder ao clube e à equipa de gestão, liderada por Luís Filipe Vieira. Se, por um lado, fica ainda mais protegido em relação a potenciais investidores, o clube poderá, com esta operação, anular muitos pequenos acionistas, levando à implementação de uma estratégia mais isenta de críticas destes. Ainda assim, e mesmo que o clube reforce a sua posição na SAD até aos 95 por cento, esta continuará sempre a realizar assembleias gerais e a prestar esclarecimentos.

"É uma forma de blindar a posição estratégica", esclarece a O JOGO Paulo Reis Mourão, professor de Economia da Universidade do Minho, defendendo que, ao "antever oportunidades futuras", o clube da Luz "está a chamar a si as ações que outros investidores poderão deter". "Este tipo de manobras entende-se quando se espera, por um lado, uma grande valorização ou uma grande dinâmica de mercado que possa comprometer toda uma linha que um clube/SAD tenham desenhado", explica, reforçando: "Desta forma, e com este reforço, o clube tenta manter uma certa autonomia das estruturas atuais perante ameaças futuras."

A viver um momento de liquidez (o grupo Benfica fechou o último exercício com receitas de 300 milhões de euros), o clube está, como sublinha ao nosso jornal Angelino Ferreira, ex-administrador financeiro do FC Porto, "a reembolsar os acionistas quando as ações valiam em bolsa 2,7 euros". "Está a distribuir um prémio de cerca de 80 por cento aos acionistas que entenderem vender relativamente ao valor que tinham em bolsa, retribuindo a sua confiança pelo investimento inicial", declara.

Vieira não pode vender agora

Livre para negociar normalmente no mercado a sua posição na SAD, Luís Filipe Vieira, assim como os restantes membros dos órgãos sociais detentores de títulos da sociedade - os vice-presidentes da Direção Domingos Almeida Lima, Nuno Gaioso e Fernando Tavares, assim como Rui Barreira (vice do Conselho Fiscal), José Appleton e Gualter Godinho, ambos vogais do Conselho Fiscal -, está proibido de participar nesta operação. De acordo com o comunicado enviado pela Benfica SGPS à CMVM, e segundo o número 2 do artigo 173.º do Código de Valores Mobiliários, "as pessoas singulares (...) membros de órgãos sociais não podem aceitar a oferta, vendo assim os seus interesses preteridos face ao interesse do oferente", no caso, a empresa na posse do Benfica.

Como esclarece Angelino Ferreira, "estas ações detidas pelas partes relacionadas, sejam dirigentes ou até empresas ligadas ao Benfica, são consideradas como se estivessem na posse do próprio clube". Tal situação não invalida, porém, que Luís Filipe Vieira e restantes elementos possam negociar os seus títulos. "Estão cotados em bolsa e são negociados normalmente. Nesta oferta não, mas pode, tal como qualquer presidente de uma SAD, comprar ou vender ações", declara.

A oferta pública de aquisição parcial visa assim a compra de quase 6,5 milhões de ações (6 455 434) de categoria B que estão na posse de pequenos e até anónimos acionistas. O principal é José António dos Santos, administrador do Grupo Valouro, que detém 12,71 por cento dos papéis da SAD (é só superado pelos 40 por cento do clube e pelos 23,65% da Benfica SGPS). Seguem-se ainda José da Conceição Guilherme (3,73 por cento), a Olivedesportos SGPS (2,66 por cento) e a Quinta de Jugais (2%). Os restantes acionistas, pela sua posição minoritária, não são apresentados na estrutura da SAD.

Transação mesmo assim em aberto

Anunciada na noite de segunda-feira, a OPA levou a que as ações da SAD disparassem de cotação, pois subiram dos 2,7 euros para os 4,7. A sociedade benfiquista vai continuar a operar em bolsa, como informou no comunicado, e pode até, mesmo no caso de garantir este aumento de participação, voltar a negociar os títulos. "Caso as ações continuem a valorizar, o Benfica até pode vendê-las no futuro por um preço superior", frisa Angelino Ferreira. Mas este reforço pode também permitir um aumento de capital social sem que o clube perca posição maioritária.