Football Leaks: "Colaboração com autoridades francesas foi interrompida pela detenção" de Rui PInto

Football Leaks: "Colaboração com autoridades francesas foi interrompida pela detenção" de Rui PInto
Rodrigo Cortez

Segunda testemunha abonatória de Rui Pinto conta como o PSG teve de devolver dinheiro ao Fisco e revelou exploração de menores africanos por vários clubes

A segunda testemunha abonatória de Rui Pinto, cujo julgamento no âmbito do processo Football Leaks prossegue no Campus da Justiça, em Lisboa, é o jornalista inglês Edwy Plenel, do consórcio jornalístico Media Part.

Plenel começou por afirmar desconhecer pessoalmente Rui Pinto e explicou o contacto com a plataforma de denúncia do mundo do futebol: "Somos cofundadores do consórcio europeu de investigação European Investigative Collaborations. Trabalhámos sobre o Football Leaks durante mais de três anos, desde 2016. (...) Os documentos eram do Der Spiegel, que depois partilhou com o coletivo. Na altura, não conhecíamos a identidade da fonte que se dizia chamar John. Apenas alguns jornalistas do Der Spiegel sabiam, nomeadamente Rafael Buschman".

"Os documentos foram acedidos por mais de 60 jornalistas e informáticos, durante mais de seis meses. (...) Eram documentos muito importantes a nível europeu e deram um grande contributo ao renome do nosso jornal e à sua reputação", referiu Edwy Plenel a propósito do funcionamento da colaboração entre as partes (denunciante e Imprensa).

Para a testemunha abonatória de Rui Pinto, o "Football Leaks teve grande impacto em Espanha, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Itália, Países Baixos, Croácia, Suíça e até Turquia. Gerou um grande debate público e, a nível judicial, lançou novos inquéritos ou relançou outros que já existiam. Em França, a Procuradoria abriu um grande inquérito quando saíram notícias sobre a evasão fiscal de grandes jogadores. Por exemplo, Javier Pastore, do PSG, teve que devolver mais de um milhão de euros ao Fisco".

E revelou outros casos despoletados pela plataforma de denúncias: "Esta Procuradoria Central Fiscal estava tão convencida da importância do Football Leaks que avançou para uma colaboração com Rui Pinto. Em 2018, Pinto enviou-lhes um total de 12 milhões de ficheiros. O processo de colaboração foi interrompido pela sua detenção na Hungria. (...) Mas, em 2019, iniciou-se um processo de colaboração via Eurojuste a fim de partilhar os documentos com outros países europeus".

"Por exemplo, descobriu-se também que havia contratações com base na cor da pele, racistas, por parte do PSG. Era um ficheiro sobre a etnia dos jogadores, a fim de se praticarem políticas de discriminação com base na etnia, origem ou nacionalidade", testemunhou.

Uma situação que teve consequências, recordou: "O procurador de Paris abriu um processo que está em curso, baseado em três razões: recolha de elementos de natureza pessoal através de meios fraudulentos ou ilícitos. Ainda hoje, [os documentos] levaram a Federação francesa a abrir um inquérito sobre as fraudes do Mónaco, com jogadores menores, em África, por exemplo. Também havia de outros grandes clubes europeus, como Manchester City e Chelsea, com desprezo pela lei. Estes clubes exploravam menores para efeitos do seu recrutamento. É como se houvesse esclavagismo em França. Exploração da infância por um futebol que está dominado pelo dinheiro".

Rui Pinto, de 32 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, 14 de violação de correspondência, seis de acesso ilegítimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR), e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e foi o que levou também à pronúncia do advogado Aníbal Pinto.

O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 07 de agosto, "devido à sua colaboração" com a Polícia Judiciária (PJ) e ao seu "sentido crítico", mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.