Entrevista: "Devemos usar máscara para nos protegermos e aos outros"

Entrevista: "Devemos usar máscara para nos protegermos e aos outros"

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Rui Guimarães

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Em entrevista exclusiva a O JOGO, Eduardo Filipe, antigo lateral-esquerdo de andebol, deixa dicas, formas de estar, conselhos e até, de alguma forma, uma mensagem de esperança perante a pandemia do coronavírus.

Eduardo Filipe, antigo jogador de andebol - o mais internacional em Portugal, com 271 jogos pela equipa das Quinas - é especialista em medicina desportiva e coordenador clínico da Cidade Desportiva do Braga. Sem rodeios, o antigo jogador de FC Porto e ABC deixou conselhos e explicações para a pandemia que está a assolar e a assustar o mundo.

Diz a Direção-Geral de Saúde [DGS] que não é preciso usar máscaras, apenas quem está infetado. Porém, os países que estão a combater a fase exponencial da Covid-19 com maior sucesso - China, Macau e Coreia do Sul - recomendam o uso das mesmas. Qual a sua opinião?

- Eu concordo com o uso das máscaras, por vários motivos, que passo a enumerar: em primeiro lugar, não devemos pensar que as máscaras são apenas para proteger quem está doente, elas servem também para nos protegermos, a nós e aos outros. Muitos de nós podemos ser portadores assintomáticos da Covid-19, pelo que esta é uma boa forma de nos comportarmos como possíveis transmissores; segundo, sabendo que não devemos levar as mãos à boca ou olhos, com o uso de máscara diminuímos bastante essa tendência, pois mantém-nos alerta; por último, ver os outros com máscara, serve-nos de estímulo para nos mantermos a uma distância de segurança.

O calçado, quando vimos da rua, numa ida rápida a um supermercado, por exemplo, é um meio de contágio?

- Pelos dados que temos, o potencial é baixo, mas devemos seguir os conselhos da DGS; o ideal é termos em casa uma zona limpa e uma zona dita suja. Desta forma, devemos deixar o calçado que usamos quando saímos de casa na zona suja, minimizando assim o risco de contágio. Com a roupa, deveremos proceder de forma idêntica, colocando para lavar a roupa que usamos sempre que saímos de casa.

Quais são, efetivamente, as regras primordiais para evitar o contágio?

- Como não temos vacinas, as regras primordiais são "não ficar infetado e não infetar ninguém". Para isso, ainda que pareça trivial, as principais estratégias deverão passar pelo distanciamento social - não é uma experiência simpática, mas é simpático fazê-lo -: manter, sempre que possível, 1,5 a dois metros de distância das outras pessoas e nada de beijar, abraçar ou apertar as mãos. A higiene correta - lavar as mãos com regularidade, com água e sabão ou solução à base de álcool, durante pelo menos 20 segundos - é também fundamental. Não passar as mãos pelos olhos, boca e nariz, tossir e espirrar para o braço ou para um lenço de papel, que deve ser deitado ao lixo de seguida, lavando as mãos depois. Ao chegar a casa, não tocar em nada antes de lavar/desinfetar as mãos. Colocar na zona suja os sapatos de ir à rua e pôr para lavar a roupa usada nas saídas, usar máscara cirúrgica sempre que formos à rua e manter a casa restrita à família mais íntima e não receber visitas durante a quarentena são igualmente medidas a tomar.

O que conseguiremos com essas regras?

-Sendo rigorosos, podemos espaçar os casos positivos, aplanando a curva de evolução da doença, o que nos dá tempo, evitando que o Serviço Nacional de Saúde entre em colapso e, dessa forma, possa atender todos os casos de gravidade sem a necessidade de tomar decisões difíceis, como optar a quem assistir. Devemos também ter em mente que, na maioria dos casos, a doença será leve, pelo que, se tivermos sintomas, devemos ligar para a linha Saúde 24 ou fazer o autodiagnóstico através do avaliador de sintomas disponível no site da DGS [https://www.ssns24.gov.pt/avaliar-sintomas/?intro-sc=covid-19] e assim evitar ir para os hospitais sem sinais de gravidade, pois aumentaremos o risco de infetar outros e de nos infetarmos.

Atendendo à gravidade da doença, vai ser possível inverter em breve esta tendência para o aumento do número de mortos?

- Sim, sabemos que existe uma população de risco - os mais idosos e pacientes com défice imunitário - e que, se esses forem protegidos, a mortalidade diminui drasticamente, por isso é que a estratégia na abordagem a esta pandemia tem muita influência nessa progressão. Podemos constatar, ao avaliarmos os dados disponibilizados pela OMS, curvas díspares entre vários países e que estão relacionadas com as regras impostas para o combate à Covid-19.

Esta evolução será igual em todos os países?

- Não, podemos ver que países que têm uma estratégia mais reativa e menos preventiva, ou seja, os que vão atuando em função da doença e não tomaram tantas medidas preventivas, são os que estão a ter um crescimento exponencial, com o colapso dos sistemas de saúde, sendo, nestes casos, muito mais letal esta pandemia. Neste campo, a nossa estratégia, preventiva, de mitigação, está a ter melhores resultados. O principal objetivo é permitir que haja meios disponíveis suficientes para que os utentes possam ter apoio eficaz nos casos graves e que tenhamos uma mortalidade mais baixa.

Do ponto de vista da virologia, há diferenças entre a doença em Portugal e noutras regiões do mundo?

-Não, até agora não existe evidência de mutação do vírus, ou seja, é o mesmo em todos os países; as diferenças epidemiológicas são fruto das diferentes estratégias que os países tomaram.

Consegue-se prever quando será o fim desta pandemia?

- Ainda é cedo para nos podermos pronunciar, penso que as próximas duas a três semanas serão decisivas para verificar se as estratégias que estamos a tomar foram eficazes e, aí sim, será mais fácil fazer uma previsão. Os indicadores têm sido positivos e espero que assim continuem.

Quem já teve cancro, e está curado, é considerado uma pessoa de risco?

- Não existem dados que apontem nesse sentido, sabemos que os grupos de risco são os idosos - aumenta exponencialmente a partir dos 60 anos - e indivíduos portadores de doenças crónicas.

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