Covid-19: um relato na primeira pessoa sobre assustadoras 11 horas no Hospital S. João

Covid-19: um relato na primeira pessoa sobre assustadoras 11 horas no Hospital S. João
Carlos Flórido

Este é um relato vivido na primeira pessoa sobre o caos gerado pela pandemia e o sofrimento dos que, tendo sintomas, são testados

Aviso prévio: esta sexta-feira, e com a abertura de várias das designadas Áreas Dedicadas Covid, para o rastreio daqueles que são encaminhados pelos médicos dos centros de saúde ou da Linha SNS24, é de esperar que a pressão sobre os hospitais centrais comece a abrandar. Porque até ontem o número crescente de casos suspeitos gerou um caos que O JOGO testemunhou, percebendo ter-se atingido um limite.

Um familiar doente, num daqueles casos que comprova a importância do afastamento social - basta conviver com um amigo de outro amigo que esteve com um infetado e está criada a cadeia que leva o Covid-19 a uma casa sem ninguém o saber -, foi encaminhado para o Hospital de S. João depois de três dias de vigilância e um agravamento constante dos sintomas, ao ponto de já precisar de apoio.

O que se seguiu foi uma experiência que tão cedo não se esquecerá e vários ensinamentos sobre precauções a tomar. É melhor irmos por horas:

15h00: chegada ao Hospital S. João, onde mesmo os que tinham cartas dos centros de saúde eram encaminhados para a fila de espera. Esta começava na Área de Atendimento Covid, com tendas e contentores em frente às Urgências, dava a volta ao jardim e terminava já na entrada da Urgência de Pediatria. Quem conhecer o local sabe do que se está a falar. Seria cerca de uma centena de pessoas, mas o distanciamento obrigatório gerava um espaço superior a 200 metros.

16h00: os seguranças do hospital, já depois de terem desimpedido a zona da pediatria, perceberam que a fila ameaçava prolongar-se até aos portões do hospital. Com barreiras e fitas, criaram um circuito de espera em cima do relvado.

17h00: a maioria das pessoas continua de pé, ao sol, sem companhia e não tendo comida nem bebida. As máscaras são obrigatórias e aquele não é local para levar seja o que for à boca.

18h00: o nosso lugar chega finalmente ao passeio. Algumas das pessoas já começaram a conversar com os mais próximos. São muito poucos os que caminham no próprio espaço, desconhecendo ser uma boa forma de aliviar as dores nas costas e pernas.

19h00: a fila avançou mais uns 10 metros. Há quem esqueça as regras do distanciamento e esteja em alegre convívio. Os vasos em cima do passeio estão transformados em cadeiras para os mais cansados.

20h00: finalmente à entrada dos cobertos amarelos, que todos olham como a zona do "estou quase".

21h00: há uma hora que nenhum doente é chamado. As pessoas desesperam. Alguns colocam as mãos nos panos da tenda, nos ferros e até no chão, esfregando depois os olhos ou a cabeça. As luvas não são recomendadas precisamente para que não se toque em nada, mas há quem o tenha esquecido por completo. E, se não tinha o vírus, é quase certo que vai sair dali com ele

22h00: a tenda da triagem fecha, restando apenas os contentores para atendimento. A fila avançou menos de cinco metros. Alguns familiares foram chegando para dar apoio, mas ali todos têm medo de comer.

23h00: mais uma hora de fila parada. A temperatura baixou imenso e agora é o frio que custa a suportar. Alguém desmaia e é de imediato transportado para as Urgências.

24h00: apesar de algumas (muito poucas) inevitáveis discussões com quem tenta furar a vez, o civismo de quem espera é espantoso. Com o sofrimento estampado nos rostos, todos se sentem solidários. São pessoas doentes e estão há nove horas de pé, sem comer e beber.

1h00: a fila continua sem avançar

2h00: reabre a tenda da triagem e, imagine-se, é a nossa vez!

2h08: o profissionalismo e eficácia dos médicos e enfermeiros da triagem impressiona. Medem a temperatura, frequência cardíaca, nível de dor e fazem um questionário sobre os sintomas em menos de cinco minutos. O ambiente é de guerra - ao vírus, obviamente. Os doentes são sentados em zonas isoladas e é-lhes metido o cotonete nariz acima e outro na garganta. É o teste Covid-19 e, ao contrário do que alguns insinuaram, é feito a todos, ou quase. Portugal não anda a poupar nos testes. Os que são considerados casos ligeiros recebem instruções sobre os cuidados a ter em casa e ficam a saber que receberão o resultado no telemóvel, os mais sérios são de imediato enviados para o contentor.

2h10-3h55: no contentor, os doentes fazem radiografias ao tórax e outros exames, em função dos seus sintomas. É ali que se determina se há necessidade de internamento ou é dada a alta, esta normalmente sob vigilância. Também reina o profissionalismo, mas o impacto é menor. Se alguns médicos estão totalmente aplicados, outros ficam em amena cavaqueira e trocando luvas a todo o instante. As 13 horas no Hospital de S. João, 11 delas cumpridas em pé, estavam terminadas! Na fila de espera ainda estavam duas a três dezenas de pessoas.

Se leu até aqui, já percebeu: nada como ter cuidado (sobretudo com as mãos!), manter o isolamento social e, caso tenha alguns sintomas, procurar alternativas para fazer o teste. Porque os hospitais são para os doentes.

Nota final: este jornalista, em teletrabalho e isolamento social desde o passado dia 16, já recebeu o resultado da análise ao Covid-19 e foi negativo. Apesar disso, tão cedo não sairá de casa.