A noite será diferente do habitual, mas o São João não está morto

A noite será diferente do habitual, mas o São João não está morto
Mónica Santos

Há dérbi com título ao fundo e um surto de covid-19 com o qual não se pode brincar. Resta o espírito popular para fazer a festa.

Em circunstâncias normais, o dérbi no Dragão seria apenas mais um pretexto para juntar uma multidão no Porto, esta terça-feira, na noite em que o São João convida à folia até o Sol nascer.

No entanto, a covid-19 virou tudo do avesso e a alegria não pode transbordar para a rua. Ponto final. Não tem sequer lugar nas bancadas da casa onde o FC Porto joga a corrida ao título diante do Boavista. Como em tudo, há sempre alguém que resiste: nem que seja com a boa disposição como arma. Na ilha do sr. Doutor, quem desce S. Victor para as Fontainhas vê logo que é São João: há um quadrado de rua enfeitado, um arco concebido e pintado por duas gerações dos Castelo, com uma pincelada de artista profissional no topo a ilustrar o apelido da família que "há mais de cem anos" está ali.

Alguns, nunca dali saíram. José Castelo, 67 anos, marinheiro, deu a volta ao mundo, mudou de casa, mas mantém um quintal onde o encontrámos num domingo que podia ser de treino para o São João: almoço tardio, família repartida por uma mesa que se estende sob a sombra de uma tangerineira, com os mais novos empoleirados no muro - são "a bicharada", sorri, com os olhos de mar enternecidos. O São João é isto tudo: as vozes, os risos, a alegria que, desta vez, não se poderá multiplicar por muitas centenas: "Vai ser só a família".

Num ano "normal", a contagem decrescente para a festa levaria àquela ilha muitos curiosos, atraídos pela cascata a que, na noite da folia, se junta mesa amiga. Por estes dias, não faltará quem faça eco do prejuízo destas festas populares proibidas pela doença, mas quem anda na rua o que sente é a falta disto que não tem preço, este calor escancarado de uma cidade onde uma ilha de casas minúsculas é entrada para um mundo solidário na dificuldade permanente dos dias. Hoje, a covid-19 roubou mais do que o dinheiro, que aqui nem entra nas contas do São João: porta aberta, desconhecidos prontos a serem "adotados" para o longo ritual da festança: "Fazemos tudo ali à porta, as sardinhas, o entrecosto, o café". Desta vez, será tudo em versão estritamente familiar. "Infelizmente, não é como a gente gostaria, somos só nós", diz quem deu cor e luz à ilha, como em todos os anos. As regras são outras e não têm discussão - ali na mesa, vários sentiram o "o bicho" na pele.

Com o FC Porto-Boavista na agenda, "temos de nos dividir para ver o futebol", explica José Castelo. A separação é apenas física, porque o quintal não tem televisão. De resto, ali é tudo azul. Ou quase, há apenas "um lampião" a dar luta, ausente neste almoço, mas certo na folia de S. Victor.

Depois dos meses de confinamento e das convalescenças da covid-19, isto do dérbi de bancadas vazias é apenas mais uma circunstância estranha, mas a que custa mesmo "é não haver São João", concordam todos na mesa: "Futebol há todas as semanas. Não termos o São João é uma grande maçada, mas temos de nos adaptar."

Aqui fica, então, o roteiro dos Castelo para o São João adaptado à covid-19. Ou seja, com as "centenas" de desconhecidos que passam na ilha do sr. Doutor - ninguém tem memória de quem ele era, mas um doutor há de ter morado ali, estimam - subtraídas ao convívio. Quem puder, que os imite. "O nosso ritual é assim: ao jantar, massa com miúdos de carneiro, para a família. Costuma haver o fogo, à meia-noite; a gente [vai ver e] vem para cima, e começa a fazer a nossa sardinhada, as costelas de porco, o caldo verde; depois, o café e pãozinho com manteiga, lá para as três, quatro da manhã", conta Castelo, que ao meio-dia está de volta ao quintal, que tem ao fundo um forno que é famoso entre os amigos pelas delícias que este marinheiro prepara. Amanhã, o prato do dia é carneiro, assado lentamente. "Aí pelas três e meia, quatro horas começamos a almoçar", e ao entardecer há um "passeio ecológico para esmoer um bocadinho".