São-vicentinos saem de novo à rua contra o centralismo da capital cabo-verdiana

São-vicentinos saem de novo à rua contra o centralismo da capital cabo-verdiana
Lusa

A população da ilha cabo-verdiana de São Vicente sai hoje de novo à rua em mais uma manifestação promovida pelo movimento Sokols2017 contra o centralismo da capital e em defesa da regionalização político-administrativa em Cabo Verde.

Os promotores da manifestação, marcada para o dia em que se assinalam 27 anos das primeiras eleições multipartidárias em Cabo Verde, contestam a extrema dependência de São Vicente das decisões políticas e administrativas da cidade da Praia, na ilha de Santiago.

"A dependência é brutal. Havia mais autonomia no tempo colonial do que agora", disse à agência Lusa Salvador Mascarenhas, veterinário, formado em Coimbra, e um dos rostos mais mediáticos do movimento cívico Sokols2017.

E, assegura, a dependência faz-se sentir desde as mais pequenas decisões até às grandes opções políticas e económicas.

"Uma empresa do Estado para comprar papel higiénico tem que mandar um fax para a Praia a pedir autorização", exemplificou Salvador Mascarenhas, questionando: "Depois há as decisões importantes para a economia. Se alguém quer investir aqui porque é que não temos autonomia para decidir".

Apontou também falta de racionalidade e de auscultação da sociedade sobre os investimentos a fazer.

"Há localidades que não têm estradas e depois querem fazer uma via dupla na estrada de São Pedro (que liga a cidade do Mindelo ao aeroporto internacional Cesária Évora) que não tem movimento para quatro vias. Não faz sentido num país pobre, que tem muita gente que não come três refeições diárias e que não tem esgotos, nem água canalizada", disse.

Os membros do movimento, que a 05 de julho passado, Dia da Independência Nacional, conseguiu mobilizar milhares de pessoas numa manifestação que surpreendeu até os organizadores, admitem que não será fácil repetir o feito.

"Estamos com mais força e mais organização, mas sabemos que vai ser difícil conseguir aquela mobilização histórica", considerou Salvador Mascarenhas.

O ativista disse acreditar, no entanto, que haverá grande adesão, apesar de uma "certa campanha para demover as pessoas" e dos "drops" [rebuçados] que o Governo tem dado a São Vicente desde julho, nomeadamente o anúncio de vários investimentos e a transferência, para o Mindelo, do Ministério da Economia Marítima.

O movimento reclama a regionalização político-administrativa do país, onde cada ilha tenha um peso semelhante, bem como uma democracia mais participada pelos cidadãos.

"A sociedade tem que ser despartidarizada, é preciso promover a meritocracia, uma cidadania ativa e uma governação transparente", defendeu, assegurando que a luta vai continuar "até que haja mudança".

O movimento Sokols2017 é um grupo de cidadãos que contesta o que considera o "centralismo exacerbado" da capital cabo-verdiana e a concentração de investimentos e meios públicos na ilha de Santiago.

Mais descentralização e autonomia, meritocracia como via de ocupação de cargos públicos e eleição de cidadãos como deputados através de listas uninominais são algumas das reivindicações do movimento.

O Sokols2017 inspira-se nos Sokols de Cabo Verde ou Falcões de Cabo Verde, uma organização juvenil criada em 1932, em São Vicente, por um funcionário da Western Telegraph Company, à semelhança do movimento checo surgido em 1862.