Relatório denuncia abusos sobre mulheres por investigar na guerra civil moçambicana

Relatório denuncia abusos sobre mulheres por investigar na guerra civil moçambicana
Lusa

As mulheres que viveram em pontos de conflito durante a guerra civil em Moçambique sofreram graves violações dos direitos humanos, entre abusos sexuais e assassinatos, crimes que não foram investigados, conclui um relatório dos Advogados Sem Fronteira do Canadá.

A pesquisa, que incidiu sobre quatro províncias moçambicanas, baseou-se em 245 entrevistas com mulheres com mais de 40 anos e que viveram em pontos de conflitos, tendo 100% denunciado casos de violação sexual, agressões e assassínios perpetrados por militares das partes em conflito, nomeadamente as forças governamentais (Frelimo) e o braço armado da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo).

O relatório, com 83 páginas e que hoje foi lançado em Maputo, aponta o "estupro em grupo" como uma das formas mais comuns de violência contra mulheres durante a guerra dos 16 anos em Moçambique, destacando casos que ocorreram nas províncias de Zambézia e Nampula.

"Fui violada por seis homens e fiquei inconsciente. Quando acordei nem conseguia andar. Outro dia, chegaram a minha casa, onde vivia com o meu marido, e eu fui me esconder. Ele foi capturado. Eles nos obrigaram a fazer sexo, me violaram e mataram o meu marido", relata uma das entrevistadas na província da Zambézia, citada no relatório.

Na hipótese de um casal ser encontrado, os homens eram violentados em frente das suas esposas, refere o relatório, que acrescenta que as mulheres solteiras e raparigas eram as mais preferidas para serem capturadas para os campos e bases militares, passando a servir de cozinheiras ou "escravas sexuais".

"Eles assassinaram os meus seis filhos. Eu vi todos a serem mortos. Depois amarraram o meu marido numa cadeira e me violaram a rir e a zombar do meu marido. Terminaram o que estavam a fazer e incendiaram a casa e depois levaram-me com eles para uma base", explicou uma vítima da província de Gaza, também citada no relatório.

De acordo com o relatório, a falta de uma comissão de justiça após o fim da guerra, em 1992, contribui para o surgimento de um sentimento de injustiça nas vítimas, além de transmitir a ideia de impunidade entre os autores dos crimes.

"Na verdade, nós ainda não conseguimos esquecer o problema que a guerra nos criou", concluiu uma vítima de Sofala, também citada no relatório.

A guerra civil em Moçambique começou dois anos após a independência do país, opondo o exército, dirigido pelo Governo da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), e a guerrilha da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo).

Dados oficiais indicam que perto de um milhão de pessoas morreram durante o conflito, que terminou com a assinatura do Acordo Geral de paz em 1992 pelo então Presidente moçambicano Joaquim Chissano e o falecido líder da Renamo, Afonso Dhlakama.