Fake news: Diretor do Observador rejeita "governos ou Estados" como "árbitros da verdade"

Fake news: Diretor do Observador rejeita "governos ou Estados" como "árbitros da verdade"
Lusa

O diretor do Observador defende que o fenómeno das 'fake news´ como o que abalou os EUA não é comparável com o que se passa em Portugal e recusou qualquer intervenção dos "governos ou Estados" nestes casos.

Em entrevista à Lusa, Miguel Pinheiro afirmou que Portugal ainda não assistiu a fenómenos como aqueles que se veem "lá fora", existindo, aliás, uma "certa confusão" de conceitos, com políticos a usarem o termo 'fake news' para "tentar desmentir notícias que são verdadeiras".

"Aquilo que realmente pode ser uma ameaça, não só para o jornalismo como para sistemas de governo, são ações concertadas e organizadas" e que usam "um centro decisor" para "ganhar escala e chegar às pessoas", como o que aconteceu nas presidenciais dos Estados Unidos, com a alegada influência da Rússia no processo.

"Não temos isso em Portugal, não sabemos se vai chegar, se não vai chegar, mas cá isso não existiu", sublinhou.

O diretor do jornal 'online' receia, além dos males que pode fazer ao jornalismo, outras consequências no sistema político, seja nos Estados Unidos ou em Portugal.

Porque o problema das 'fake news', ou da informação manipulada, é o da "dimensão e da rapidez de propagação", dado que "sempre existiu mentira, manipulação, propaganda" e hoje "a diferença é que é possível chegar a muita gente muito rapidamente e com meios relativamente modestos".

O "efeito devastador" da alegada ação da Rússia e do seu Governo, argumentou, "não se reflete apenas na eleição de Donald Trump e na não eleição de Hillary Clinton", é também "a capacidade de mudar a forma como se discute política nos Estados Unidos".

"O grande objetivo, segundo parece, do Governo russo era não só não apenas a eleição de Donald Trump - isso seria um brinde -, mas mudar a forma como se discute política nos Estados Unidos, introduzir desconfiança, divisão e radicalismo no processo democrático", disse.

Levando a conversa de Washington para Bruxelas e Lisboa, e para o jornalismo, Miguel Pinheiro admitiu que o fenómeno ajudou a alterar hábitos na sua redação, a começar pelo ceticismo.

"Hoje em dia todos temos de estar muito mais desconfiados da informação que circula do que acontecia no início das redes sociais, em que havia uma presunção de veracidade de uma série de coisas. Hoje em dia, não", afirmou.

O "ceticismo tornou-se maior em relação à informação" que lhe chega à redação e acabou com a "ilusão do jornalista cidadão", segundo o qual "qualquer pessoa podia filmar um vídeo, estava aí a notícia e podia mandar para os jornais".

Pelo contrário, os vídeos devem ser encarados com ceticismo, escrutinados, e o jornalista tem de perguntar-se "quem fez, como, de que maneira, que outra informação há?".

Um ambiente que leva as pessoas a sentirem que "vivem num universo de informação armadilhada ou potencialmente armadilhada".

Assim, "é crucial que os jornais as ajudem, lhes deem instrumentos para eles desarmadilharem, quando é o caso", que explica a importância cada vez maior das análises, os tais explicadores", um formato que o Observador tem "desde o início", em que se tenta "contextualizar tudo o que está a acontecer para se perceber" a notícia.

E agora, também o 'fact checking', ou verificação de dados, que, segundo o diretor do Observador, é um formato que tem sido uma aposta, "um dos instrumentos do dia a dia", feita "de forma articulada com a principal rede internacional de 'fact checkers', ligada ao Instituto Poynter".

Na prática, a evolução dos media trouxe uma evolução também neste aspeto, dado que "a informação pura já não é suficiente", é preciso "ajudar as pessoas a perceber o que se está a passar abaixo da superfície".

O problema das 'fake news´ trouxe ainda outros debates, o da educação, da literacia para os media e a regulação ou fiscalização feita pelo Estado ou pelos Estados.

"Acho muito perigoso quando os governos e os Estados se querem transformar em árbitros da verdade. Aí, estamos a dar um passo perigoso", afirmou.

"Nós já temos códigos, o Código Penal, temos tribunais, temos polícias, temos um Ministério Público. Temos tudo aquilo que é preciso para combater fenómenos de difamação, de manipulação. Não me agradaria nada ter um Governo qualquer a decidir a verdade, o que é que não é verdade, que 'sites' é que têm direito a existir, que 'sites' é que não têm o direito a existir", acrescentou.

Para Miguel Pinheiro, "tudo o que seja dar poder à política ou a órgãos criados pelo poder político para decidir o que é verdade e o que é mentira, é um caminho perigosíssimo", disse, acrescentando que "não existem organismos independentes criados pelos governos".