As boas relações com a Rússia e a China são do interesse nacional da Sérvia e devem ser mantidas no futuro, disse em entrevista à Lusa o chefe da diplomacia de Belgrado, Ivica Dacic.
"Mantemos relações tradicionais com a Rússia, pretendemos manter essas relações no futuro, que não são contra ninguém. É do nosso interesse nacional manter boas relações com a Rússia e a China porque, objetivamente, muitos países ocidentais forçaram a independência do Kosovo", assinalou Ivica Dacic, que na sexta-feira efetuou uma vista oficial a Portugal para um encontro com o seu homólogo Augusto Santos Silva, e empresários e investidores portugueses na Sérvia.
As relações históricas entre Belgrado e Moscovo, capitais de países eslavos e ortodoxos, e o apoio que a Rússia e a China -- membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU -- têm manifestado a Belgrado na sequência da independência unilateral do Kosovo, em 2008, são alguns dos motivos invocados pelo responsável sérvio.
"Nas organizações internacionais podemos contar com o apoio da Rússia e da China, por exemplo nas Nações Unidas. E é muito importante caso consigamos obter um qualquer compromisso sobre o Kosovo", referiu Dacic, 52 anos, que acumula a pasta de vice-primeiro-ministro no Governo de coligação liderado pelo Partido Progressista Sérvio (SNS) de Aleksandar Vucic, primeiro-ministro da Sérvia de 2014 a 2017 e Presidente desde maio de 2017.
A "neutralidade militar" tem constituído a opção da Sérvia no atual cenário geoestratégico regional, na sequência da adesão, ou dos pedidos de integração, de diversos Estados que sucederam à extinção da Jugoslávia federal em 1991, onde se incluem a Eslovénia, Croácia, Montenegro, além da vizinha Albânia, e provavelmente a Macedónia (Fyrom) e o Kosovo.
"Não temos a intenção de nos tornarmos membros da NATO, mas não nos incomoda que outros países tenham decidido ou decidam fazer essa opção. Gostaríamos de manter boas relações com a NATO, porque desempenha um papel muito importante no Kosovo", sublinhou o ministro dos Negócios Estrangeiros, líder do Partido Socialista da Sérvia (SPS), fundado em 1990 em torno do ex-Presidente Slobodan Milosevic, quando se anunciava o desmembramento da Jugoslávia federal.
"Alguns países que foram mencionados já eram favoráveis à NATO, que já estava de facto instalada antes de se tornarem membros. E mesmo durante o período dos ataques aéreos contra a Jugoslávia", adiantou, numa referência à pequena federação entre a Sérvia e Montenegro, alvo entre março e junho de 1999 de ataques de forças aliadas devido à "guerra do Kosovo".
Também por esse motivo, as relações de Belgrado com a Aliança Atlântica permanecem difusas, pelo facto de a organização aliada continuar a sugerir que o Kosovo "foi um caso 'sui generis', um caso especial", ao contrário de "um precedente que foi estabelecido", e que "não foi positivo".
"Não temos uma boa experiência com a NATO, mesmo no período da antiga Jugoslávia do presidente Tito o país prosseguiu uma política de neutralidade, quer em relação à NATO quer face ao Pacto de Varsóvia", recordou.
Ivica Dacic insistiu que a questão do Kosovo permanece central no relacionamento com os países ocidentais que optaram por reconhecer a antiga província do sul da Sérvia com maioria de população albanesa, e quando o diálogo para um eventual acordo abrangente permanece num impasse.
"Decerto que o Presidente da Sérvia gostaria de contactar com o Presidente [dos EUA Donald] Trump, é a nossa situação geoestratégica no momento, decerto que apreciaríamos que os países ocidentais fossem mais compreensivos com as posições da Sérvia, mas não entendem que cada um deles, e todos eles, têm o seu próprio Kosovo, e que pode emergir em qualquer momento", prognosticou.
A crescente afirmação regional da Turquia do Presidente Recep Tayyip Erdogan constitui ainda ocasião para o chefe da diplomacia sérvia recuperar a história profunda dos Balcãs, e recuar ao início da ocupação otomana.
"Há vários anos que a Turquia se apresenta como a protetora dos muçulmanos nos Balcãs. Mas os muçulmanos dos Balcãs eram populações locais que se converteram ao Islão no período da ocupação turca, e a Turquia tenta comportar-se como o seu protetor", sustentou.
Num período de grande instabilidade nas relações greco-turcas, Ivica Dacic pugnou para que Ancara desempenhe "uma função positiva" e contribua "para a estabilidade da região".
"E decerto que temos de dialogar com eles, incluindo com todos os restantes que têm interesses nos Balcãs", admitiu, antes de recordar, num regresso ao século XIV, o período em que a Turquia "era considerada uma ameaça".
"E de facto confrontámo-los nos campos do Kosovo, também para defender a Europa", frisou o chefe da diplomacia sérvia, ao recordar um dos mais significativos e trágicos momentos da história do país.
"E seis ou sete séculos depois, o Kosovo, que foi de facto o resultado da ocupação turca, acabou por ser reconhecido. No período da ocupação turca, as populações locais foram islamizadas e essas áreas povoadas por albaneses. E agora, cabe a cada um optar por se defender da Turquia", referiu.
