Centro com sede em Minde apoia estudo sobre língua minoritária espanhola

Centro com sede em Minde apoia estudo sobre língua minoritária espanhola
Lusa

O Centro Interdisciplinar de Documentação Linguística e Social (CIDLeS), com sede em Minde, no concelho de Alcanena, está a apoiar uma investigação do checo Miroslav Vales sobre uma língua minoritária falada no norte da Estremadura espanhola.

A fala "é uma língua europeia minoritária, pequena, mas tem uma situação sociolinguística particular, pois há apenas perto de 4.500 pessoas a falar esta língua, em três aldeias" da província de Cáceres (Estremadura, Espanha), próximas da fronteira com Portugal, disse à Lusa o investigador.

"O interessante é que praticamente toda a gente a fala nas três aldeias -- Eljas, Valverde del Fresno e San Martin de Trevejo - e todos os dias em todo o lado, mesmo os jovens e as crianças. Essa é a originalidade, porque o problema da maioria das línguas minoritárias é que apenas os mais velhos falam, como acontece com o minderico, e aqui mesmo as crianças falam, o que é bom", acrescentou.

Foi o trabalho de documentação e arquivo do minderico (língua falada na região de Minde, concelho de Alcanena, distrito de Santarém) desenvolvido pelo CIDLeS que tornou este centro procurado por investigadores de todo o mundo e, desde 2010, ponto de promoção e divulgação das línguas ameaçadas da Europa.

Miroslav Vales apresentou o trabalho que vinha desenvolvendo sobre a fala na conferência sobre línguas ameaçadas da Europa realizada em 2013 em Minde, estabelecendo-se então uma estreita colaboração com o CIDLeS, no apoio técnico e teórico ao projeto, salientou a presidente do centro, Vera Ferreira.

O projeto para descrição e documentação da fala, que decorre em colaboração com a Universidade Técnica de Liberec, na República Checa, começou em setembro do ano passado e decorre até fevereiro de 2021, embora Miroslav Vales já tenha em mente formas de lhe dar continuidade.

"A base de dados que estamos a criar tem muitas possibilidades interessantes e eu gostaria de continuar, considerando aspetos etnográficos e incluindo mais dados", disse.

O investigador, que passou a viver numa das aldeias, acredita que a fala tem futuro, mas adverte para o perigo que corre, tendo em conta que sobrevive "numa zona que sofre, como outras, do fenómeno de despovoamento", com a saída dos jovens para seguirem estudos em Madrid, Cáceres ou Salamanca e o reduzido número de nascimentos.

A "coisa boa" é que existe "um forte sentido de identidade" e, mesmo saindo, os jovens consideram a sua língua "um valor", sentem-na como "algo especial" e tentam usá-la mais, salientou.

Para Miroslav, pouco importa a origem da língua, que uns admitem estar no galego, outros no português, outros no asturiano: "Porquê interessar-me por isso? É passado. Estou interessado no futuro, que a língua sobreviva. É o que estamos a fazer no CIDLeS. Com o projeto, estamos a descrever, a procurar documentar, a fazer algo para o futuro. A origem é uma pergunta interessante, mas não é verdadeiramente importante".

"Para mim, é simplesmente uma língua - porque não é um dialeto -, como outras línguas romanas", disse, sublinhando que na fala "há sonoridades do português, do galego, do espanhol, do asturiano, porque em todas as línguas de uma área há similitudes, umas vezes mais, outras menos, mas isso é bom".

O projeto em curso visa, a partir da recolha de dados, orais e escritos, fazer uma descrição da língua, "porque a fala não está descrita devidamente", e criar um dicionário e uma gramática, permitindo, a exemplo do que aconteceu com o trabalho desenvolvido por Vera Ferreira com o minderico, que a pesquisa e a metodologia seguida possam ser usadas futuramente para outras línguas.

Com doutoramento em sociolinguística, feito em Granada (Espanha), Miroslav Vales interessou-se por línguas minoritárias em extinção, primeiro nas Américas, do Norte e do Sul, e depois na Europa, encontrando "sempre a mesma história: os pais deixam de falar com os filhos as suas línguas nativas e a partir desse momento a língua desaparece".

Quando chegou às aldeias da fala, em 2012, ficou "surpreendido pela vitalidade da língua" e por algo "bastante raro no contexto mundial", de os pais continuarem a passar a língua aos filhos.