Dois terços dos grandes mamíferos em Portugal ficaram extintos no último milhão de anos

Dois terços dos grandes mamíferos em Portugal ficaram extintos no último milhão de anos
Lusa

Lisboa, 14 mai 2019 (Lusa) -- Dois terços dos grandes mamíferos de Portugal extinguiram-se no último milhão de anos, revela um estudo feito pela primeira vez no país e que confirma a realidade conhecida em outras partes do mundo, segundo o orientador do trabalho.

"Isto é avassalador", disse hoje à agência Lusa Otávio Mateus, da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, acrescentando: "Temos agora dados para Portugal daquilo que existe no outro lado do planeta".

Quase metade dos mamíferos extinguiram-se e a cifra chega a dois terços no caso dos mamíferos de grande porte.

De acordo com o estudo, a biodiversidade atual de mamíferos é apenas "uma fração" do que foi há um milhão de anos.

Das 77 espécies de mamíferos fósseis em Portugal, apenas 41 (54%) ainda existem. Outras 19 espécies, como por exemplo a hiena, desapareceram do que hoje território de Portugal e 11 extinguiram-se totalmente, como o elefante-antigo (Palaeoloxodon antiquus).

A fauna e o ambiente na península ibérica era, segundo o especialista do Departamento de Ciências da Terra, parecido com o que existe ainda hoje em África.

"Já havia humanos e conviviam com esta fauna toda, mas o aparecimento de humanos veio contribuir para esta extinção", afirmou Otávio Mateus.

Os resultados saíram de uma tese de mestrado em paleontologia de Dário Estraviz López, que na segunda-feira defendeu o trabalho com 19 valores, de acordo com um comunicado hoje divulgado.

"Estamos perante uma enorme extinção de mamíferos no último milhão de anos, que em paleontologia não é assim muito tempo", afirmou o orientador.

Os dados permitem também avaliar a qualidade do registo fóssil em Portugal, que é "muito boa" no capítulo dos grandes mamíferos e poderá atrair outros investigadores a Portugal.

"Para as aves é muito insuficiente, mas para os mamíferos é muito boa a qualidade do nosso registo", frisou.

O registo fóssil é considerado excelente, muito completo e informativo, especialmente devido à existência de fósseis em grutas.

"Há menos de um milhão de anos existiam espécies ancestrais de rinocerontes, elefantes, hipopótamos e leopardos em Portugal, todas extintas hoje", escreve Otávio Matos no texto em que são apresentados os resultados do estudo.

O padrão encontrado na investigação é muito semelhante ao verificado no resto da Europa e um milhão de anos é "muito rápido em termos geológicos".

A extinção coincide com "a proliferação de humanos", o que deve ser motivo de reflexão, defendeu em declarações à Lusa o especialista, que desenvolve trabalho no Museu da Lourinhã.

A tese resulta de uma parceria entre a Universidade Nova de Lisboa e a Universidade de Évora.

Foi feita uma análise bibliográfica que contemplou 212 trabalhos científicos de 33 jazidas em Portugal continental, que permitiram catalogar fósseis de 174 espécies de répteis, anfíbios, aves e mamíferos terrestres.