"Dia de cólera" dos jornalistas tunisinos após diversas ameaças

"Dia de cólera" dos jornalistas tunisinos após diversas ameaças
Lusa

Numerosos jornalistas tunisinos cumpriram hoje um "dia de cólera", em protesto contra ameaças e abusos policiais na sequência de diversos incidentes recentes, referiu a agência noticiosa France-Presse (AFP).

"Enquanto sindicato, o nosso receio é que exista uma política do Estado para fazer recuar a [liberdade de] imprensa", declarou Néji Bghouri, presidente do Sindicato nacional dos jornalistas tunisinos (SNJT). "Hoje eles pretendem criar uma imprensa às suas ordens, uma imprensa que faça o que eles querem".

Uma centena de jornalistas, na maioria com braçadeiras vermelhas em sinal de protesto, concentraram-se frente à sede do sindicato.

Os manifestantes protestavam contra uma série de detenções de jornalistas tunisinos e estrangeiros, a ameaças de violação dirigidas a jornalistas publicadas no Facebook por um membro do sindicato da polícia e pelas declarações do ministro do Interior tunisino sobre a "interceção" de um correspondente, sugerindo o receio de eventuais escutas telefónicas.

Diversos jornais publicaram hoje na primeira página a frase "Imprensa em cólera", e os apresentadores do jornal do meio-dia da cadeia televisiva pública Wataniya 1 surgiram com uma braçadeira vermelha. Os manifestantes exibiram uma caricatura do ministro do Interior Lotfi Brahem com um telefone.

"Pela primeira vez desde a revolução, assistimos a jornalistas que recolhem informações ou filmam na rua serem abordados por um polícia que lhes diz 'mostre o que filmou' (...) É censura prévia", denunciou Néji Bghouri.

A Amnistia Internacional (AI) também apelou, em comunicado dirigido ao Governo, para "terminar os ataques contra a liberdade de expressão".

"Estes métodos lembram as práticas do passado que não têm lugar na sociedade tunisina moderna", sublinhou a ONG de direitos humanos. "A vigilância e a repressão policial de jornalistas devido ao seu trabalho é uma violação evidente da liberdade de imprensa".

A Federação tunisina de diretores de jornais lamentou por seu turno que o chefe de Estado "recomece a criticar a imprensa internacional, entre outras" questões. "Isso [recorda-nos] um momento que já pensávamos ultrapassado", disse o seu presidente, Taieb Zahar.

Em meados de janeiro o Presidente, Béji Caid Essebsi, criticou a cobertura pela imprensa estrangeira dos protestos sociais registados em diversas cidades da Tunísia durante várias noites. "O mundo inteiro prejudicou-nos. Houve um exagero por parte da imprensa estrangeira", considerou.

A organização Repórteres sem fronteiras (RSF) condenou na ocasião as pressões sobre jornalistas, enquanto o clube dos correspondentes estrangeiros na África do Norte (NAFCC) exprimiu a sua "inquietação" face às "crescentes pressões" após a breve detenção de diversos correspondentes.