Por Diogo Nunes (texto) e André Kosters (fotos), da agência Lusa
A histórica ligação ao mar de Portugal e Holanda, dois países de vocação global mas europeístas, é o ponto de partida para uma nova fase de cooperação económica, com o foco nas energias sustentáveis e na indústria aeroportuária e aeronáutica.
Duas semanas antes da visita de Estado a Portugal dos reis dos Países Baixos, Willem-Alexander e Máxima, o Ministério dos Negócios Estrangeiros holandês convidou um grupo de jornalistas portugueses para conhecerem melhor as apostas que a 'laranja mecânica' está a fazer para preparar o futuro.
Do lado holandês, acredita-se que é possível aprofundar as relações económicas com Portugal em setores-chave, como as energias limpas, a indústria aeroportuária, aeronáutica e aeroespacial, ou os portos marítimos, a agricultura e a tecnologia, tudo com base no forte investimento na inovação.
E inovação tem sido uma das palavras mais usadas pelos políticos portugueses nos últimos anos para definir a prioridade da política económica, pelo que há claramente interesses comuns e especializações individuais que podem criar importantes sinergias.
Se a Holanda tem o impressionante Porto de Roterdão, que se impõe no Mar do Norte, Portugal tem o Porto de Sines como magistral entrada do Atlântico Norte e, do lado de lá, acredita-se que mais do que rivalidade, pode haver complementaridade entre as estruturas.
Depois, os Países Baixos contam com alguns dos aeroportos mais movimentados da Europa e estão na crista da onda no que toca à investigação aeronáutica e aeroespacial, enquanto Portugal está a desenvolver o seu sistema aeroportuário com o lançamento do novo aeroporto de Lisboa, além de ter, recentemente, captado o importante investimento da companhia de aviação brasileira Embraer, que os holandeses têm debaixo de olho.
Lá, como cá, também há a forte cultura de desenvolvimento das energias renováveis e, no sector agrícola, a potente Holanda (segundo maior exportador mundial de produtos agrícolas) pode dar uma ajuda ao parceiro luso, que tem procurado dar impulso a esta área, como prova o Alqueva.
Além disso, há espaço para um aprofundamento das relações políticas, até para responder aos desafios que dois Estados relativamente pequenos (em dimensão, grandes em História) enfrentam no seio de um União Europeia em mudança, obrigada a reinventar-se após o 'Brexit', isto é, a decisão de saída do Reino Unido do bloco europeu.
De resto, há muito mais semelhanças entre Portugal e a Holanda do que poderiam parecer à primeira vista, e vão muito além do facto de ambos os países serem bons de bola e terem sido campeões europeus de futebol: a Holanda em 1988 e a equipa das quinas, liderada por Cristiano Ronaldo, em 2016, sendo o atual detentor do troféu.
Olhando para trás, além da tradição marítima que os levou à descoberta do mundo, ambos os países estiveram durante um certo período da sua história integrados na coroa espanhola, e ambos conseguiram a independência de Madrid. E também estiveram ambos ocupados pelas forças de Napoleão.
Tanto Portugal como a Holanda já foram impérios globais, regidos por monarquias e repúblicas, sendo que neste caso o país das tulipas tem a originalidade de ter sido um dos poucos do mundo que começou por ser república e é hoje uma monarquia.
Ambos foram ao longo dos tempos alvos de invasões e guerras constantes, até entre si, mas também partiram para conquistar territórios por essa Terra fora, tendo sido 'vizinhos' em lugares de África e da Ásia, mas também no Brasil, onde os portugueses acabaram com o sonho da Nova Holanda (Nordeste do Brasil) em meados do século XVII.
Ora, depois de navegarem por águas agitadas durante boa parte do passado, hoje, quer Portugal quer a Holanda consolidaram-se como democracias estáveis.
A postura pacífica no conturbado contexto atual das relações internacionais é outro denominador comum entre portugueses e holandeses, com ambos os países a privilegiarem a integração em forças de manutenção de paz, mas também a disponibilizarem meios para o combate ao terrorismo.
A aposta no multilateralismo também é comum, com ambos os países presentes e ativos nas principais organizações internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) ou a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO).
A defesa dos Direitos Humanos, das liberdades individuais, do pacifismo e da justiça internacional e do meio ambiente são outros campos em que Portugal e a Holanda caminham de mãos dadas rumo ao amanhã.
Porém, se a nível político, social e até cultural há muitas semelhanças, é justo dizer que em termos económicos e financeiros há um fosso que separa os dois países, com a Holanda a contar com uma saúde das Finanças Públicas que não tem correspondência na terra de Camões e Pessoa.
Sendo certo que o Reino dos Países Baixos, com 17 milhões de habitantes, tem outra pedalada (ou não houvessem mais bicicletas do que pessoas nas grandes cidades, como Amesterdão, Roterdão ou Haia) no que toca à riqueza e condições de vida da população, também é verdade que o bom momento económico que Portugal atravessa traz legítima esperança na melhoria da situação para os 11 milhões de lusitanos que habitam no extremo mais ocidental da Europa, tão cobiçado por cada vez mais turistas.
Por tudo isto, é caso para se dizer: Portugal e Holanda, muito mais é o que nos une, que aquilo que nos separa.
